«Fiz psicoterapia e, de vez em quando, ainda ligo ao meu psicólogo»

António Raminhos revela como lida com o transtorno de ansiedade e como encontrou o equilíbrio graças à meditação. E a não se levar muito a sério, claro.

03 Dez 2018 | 19:59
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O Grinch, em exibição nas salas de cinema portuguesas, tem a voz de António Raminhos. O humorista foi o escolhido para, em Portugal, dobrar a voz monstro mais assustador da época natalícia. Em entrevista à TV 7 Dias, Raminhos conta como prepara o Natal com três crianças (o humorista e a mulher, Catarina, têm três filhas, Maria Leonor, de dois anos e meio, Maria Inês, de quatro e Maria Rita, de seis).

 

Recorde: Raminhos sofre com doença debilitante

 

De forma descomplexada, o humorista fala sobre a morte da mãe e as formas que encontrou para lidar com o transtorno de ansiedade e o transtorno obsessivo compulsivo.

 

Sente uma responsabilidade adicional por dar a voz a uma personagem que já foi interpretada por – não vamos mais longe – Jim Carrey?

Sinto, claro! E enviarem a minha voz para a Universal e de lá dizerem ‘sim, pode ser’, é bom mas, ao mesmo tempo, é estranho. Eu nunca estou muito contente com as coisas que faço. Fico sempre na dúvida. ‘Então mas não há mais gente a fazer este casting? Porque é que fiquei eu e não outro gajo?’ (risos).


O facto de o Grinch ser uma versão subversiva do Natal agrada-lhe?

Claro! Porque eu sou um bocadinho assim! Gosto do Natal mas não tenho muita paciência para a parte do consumismo…E, às vezes, cometo o erro de dizer à minha mulher ‘a consoada este ano podia ser em nossa casa!’. E depois as pessoas começam a chegar e eu digo ‘isto foi uma péssima ideia!’. E gozo de uma forma mais negra. Por isso, identifico-me bastante com o Grinch.

Como é planear o Natal com três crianças em casa?

Eu e a minha mulher somos muito organizados. Às vezes, até somos demais, para quem tem três filhos. Já temos muitas prendas compradas. É para fechar a loja no início de dezembro. Em dezembro, começo a tratar da Páscoa (risos). É engraçado porque não costumamos comprar muitas prendas. Compramos uma para cada uma, que queiram muito e que não possa ser oferecida por um familiar. Como lhes damos muita coisa durante o ano, às vezes elas fazem anos e não lhes damos nada. No Natal, funciona muito nesse registo. A única coisa que é mais chata é onde é a consoada e o almoço do Natal.

 

«As coisas ficavam muito mais simples se não nos levássemos tão a sério»

 

O espectáculo que teve em cena recentemente, O Melhor do Pior, é um balanço da sua carreira?

Chama-se O Melhor do Pior porque começa com o resumo daquilo que aconteceu na minha vida, porque não era suposto estar ali. Deixei o jornalismo para fazer aquilo. E acaba com um resumo dos últimos três anos da minha vida, que foram muito complicados, com coisas pesadas e como é que eu resolvi essas situações da melhor maneira. Quem nunca assistiu a um espectáculo meu vai com a ideia de que é só parvoíce mas já me aconteceu, há pouco tempo, uma pessoa que saiu do espectáculo a meio e veio ter comigo no fim a pedir-me desculpa porque estava a rever-se muito nas coisas e não estava a aguentar.

 

Porque é que as pessoas ainda ficam chocadas com piadas sobre a morte?

Acho que é uma falsa noção de respeito. As coisas que eu digo no espectáculo acredito que passem na cabeça da maioria. Nós não controlamos aquilo que pensamos e, se o pensamos,. é o nosso corpo a reagir. Há pessoas que, nos funerais, riem dos nervos. Há pessoas que ficam apáticas, ou pragmáticas. Tem muito a ver com o sistema de crenças que as pessoas têm.

 

Acontece-lhe fazer uma piada sobre morte nas redes sociais, receber comentários críticos e, depois, em privado, dizerem-lhe que passaram pelo mesmo?

Para já, evito fazê-lo nas redes sociais porque não tenho paciência para aturar os filmes. Quando a minha mãe morreu e estávamos no velório, vinham as pessoas muito solenes ‘os meus pêsames’, ‘é preciso alguma coisa?’ e já não sei quem veio ter comigo, acho que foi o meu agente, e disse-me assim ‘posso fazer alguma coisa por ti?’. E eu disse ‘sim, por acaso precisava. Precisava de um caixão maior porque ela está um bocado apertada ali’. Lembro-me disso muitas vezes. O gajo ficou! Depois tinha muita gente a tentar não se rir… acho que não tem nada a ver com isso. As coisas ficavam muito mais simples se não nos levássemos tão a sério.

Quando falou sobre o facto de sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo no Alta Definição, sentiu que falar sobre saúde mental é quase um tabu, sobretudo para um homem?

Sinceramente, ‘tou-me a cagar! Houve uma altura em que não falava mas não foi por medo. acho que não sentia necessidade. Até que resolvi falar e senti que fez mais bem do que mal. As pessoas não passaram a ver-me de outra maneira, o que, se calhar, tem a ver com o modo como falo disto ou como me afeta. Ou afetava, porque há alturas em que isto está pior, outras que está melhor.

Recebo, às vezes, histórias de malta nova, com outras obsessões ou compulsões e não sabem lidar com aquilo, têm vergonha. A primeira coisa que não podes ter é vergonha porque é meio caminho andado para não saíres daquele processo.

E depois também há a questão de os cuidados de saúde serem caríssimos.

Eu tomei medicação e não estou a tomar neste momento. Às vezes senti necessidade de a tomar. Não quero ser mal interpretado mas acredito que grande parte de alguns problemas podiam ser resolvidos se nós parássemos. Nós estamos todos ligados a estas merdas do telemóvel, do trabalho, dos problemas da vida. Se nós parássemos 10 minutos por dia, era o suficiente para vermos que as coisas não são assim tão lineares.

Mas há pessoas que chegam a um ponto sem retorno que só lá chegam com ajuda.

Houve uma altura em que estive assim. Fiz psicoterapia e, de vez em quando, ainda ligo ao meu psicólogo. Faço outro tipo de terapias agora…Medito todos os dias. Para meditar, não são precisas aquelas coisas new age que vemos aí nos blogues. Meditar é parar. Durante 10 minutos, todos os dias, eu páro. Parar é estar ali, comigo. E isso assusta as pessoas.

Pensam que é estar ali a dizer ‘ôm’…

Essa desvalorização é medo. Medo de as pessoas estarem com elas próprias e daquilo que vão encontrar. Porque as depressões, as obsessões, as ansiedades, são tudo medo de estarmos connosco.

 

«Há dias em que acordo e percebo que o dia vai ser torto»

 

Como é que alguém com transtorno de ansiedade e três filhas faz essa gestão?

As minhas obsessões são muito mentais. Por exemplo, se a minha filha for para um sítio onde eu saiba que as telhas são de amianto, vou ter de a deixar ir e o que eu faço para que ela não seja influenciada por mim – embora eu acredite que seja porque os miúdos sabem tudo – é simplesmente lembrar-me de mim quando eu era pequeno e do que não fizeram por mim. Então faço exatamente o contrário. Olho para mim, lembro-me de que toda a gente dizia que era maluquinho, para não deixar que ela chegue àquilo que eu sou hoje. Eu sei que aquilo que eu sou hoje teve muito a ver com aquilo que não fizeram por mim.

A sua filha mais velha percebe o que é o transtorno de ansiedade?

Não. Não faço um filme disso porque isto, para mim, não é um problema. É uma coisa que acontece. Não me quero fazer de coitadinho. Eu tenho de normalizar isto. Por exemplo, há dias em que acordo e percebo que o dia vai ser torto. E digo à Catarina ‘isto hoje não vai ser fácil’. Muito graças à meditação, ao parar, consigo controlar muito melhor as situações.

 

«Antes corria muito atrás das coisas»

 

Neste momento está na TSF, no V Digital, espectáculos… quando é que…

Quando é que páro? Às vezes mudo de projetos para conseguir gerir e ter uma vida mais tranquila mas, quando dou por mim, já estou outra vez com trabalho até mais não. Eu divido-me muito entre o trabalho e a família. Não saio à noite, não ando em eventos, só se me pedirem muito. O facto de já não estar nas manhãs da TSF ajudou-me. Vou levar as miúdas todos os dias à escola, que era uma coisa que já não fazia há dois anos e tento sempre estar em casa por volta das seis da tarde. Consigo treinar, fazer essas coisas todas. Eu tenho medo que o trabalho afete a minha criatividade. Porque torna-se quase industrial.

Deve ser o maior medo para alguém que vive da criatividade.

Sim, e depois achar que é tudo uma grande merda e que não sei fazer nada… depois, também entra aqui o obsessivo.

Com todos estes projetos, a televisão já se tornou um meio dispensável na sua carreira?

Acho que sim. Antes corria muito atrás das coisas. Agora, apresentam-me uma ideia e decido se é giro fazer ou não. Não é por sentir necessidade de aparecer. Cada vez mais é nesse sentido. Este projeto, os Mal Amados, foi pensado em poder ir para televisão mas está no digital porque tenho maior controlo das coisas.

A Banheira das Vaidades começou por ser apresentado a canais de televisão. Uns disseram que não, outros disseram que era muito agressivo, outros que iam tratar da publicidade… eu disse ‘pá, acabou, não quero fazer’. E fiz no Youtube.

 

Texto: Raquel Costa | Fotos: Marco Fonseca

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