«Andava na rua vestido de Variações». Quem é o ator que vive noutra pele há seis anos?

Ricardo Mesquita de Oliveira revela à TV 7 Dias que «nem sequer conhecia» António Variações antes de a sua vida se ter cruzado com a do cantor. E foi então que se deu uma volta de 180 graus.

03 Dez 2019 | 18:50
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Três de dezembro de 1944. Treze de junho de 1984. A data de nascimento e a data de morte. António Joaquim Rodrigues Ribeiro viveu sempre à frente do seu tempo. Criou António Variações num Portugal que não estava preparado para o ter. Partiu precocemente, vítima de uma broncopneumonia, presumivelmente causada pelo vírus HIV. A morte foi envolta em mistério, ou não fosse também esta síndrome um mistério que ensombrava quem o via e o julgava sentir de fora.

Variações morreu mas deixou um legado. Um legado que ninguém questiona e que Ricardo Mesquita de Oliveira, hoje com 33 anos, transporta para as tábuas do palco há seis. Primeiro com Viver Variações. Depois com Eu Variações. Com o segundo, ainda em cena, já percorreu um pouco o País de norte a sul. Soma já cerca de três dezenas de espetáculos.

No dia em que António, o Variações, completaria 75 anos, o ator que lhe dá vida há seis anos fala à TV 7 Dias sobre a paixão que nasceu com uma alcunha e que teima em não desaparecer. E Ricardo também tudo fará para que não desapareça: «Este espetáculo estará em cena enquanto houver público.»

 

«Não tinha ideia alguma da importância do Variações»

 

O espectáculo chama-se Eu Variações. O que tem de António Variações?

Essa pergunta é curiosa. Ainda agora vinha no carro com uma das irmãs do António Variações. Adormeci e ela disse logo: ‘O António era igual!’. Tenho tanta coisa dele! O lutar pela carreira. O António lutou muito para vingar na música. Ele começa uma carreira com 37 anos, eu começo com 30. Sempre a persistir, sempre a lutar. A persistência, a luta pelo sonho. Ele nunca desistiu.

 

Ricardo Mesquita de Oliveira com Lurdes, irmã de António Variações, com quem jantou esta segunda-feira
Ricardo Mesquita de Oliveira com Lurdes, irmã de António Variações, com quem jantou esta segunda-feira
É uma inspiração para si?

É. Há muitas semelhanças entre nós. Revejo muitas coisas da vida dele na minha. Quando li a biografia dele, parecia que estava a ler a minha. Por exemplo, não devo a minha carreira de ator a ninguém. Fui à procura das minhas oportunidades. Lutei por elas, como o António. Tenho a sorte de nunca ter dormido com ninguém para chegar onde cheguei.

Há quantos anos está a Viver Variações?

Há seis anos. A primeira coisa que faço chama-se Viver Variações, um monólogo sobre a vida do Variações que fazia em bares. Em 2016, estreei a versão de teatro, primeiro com o Bruno Rossi e depois com o Vítor de Sousa.

E como é que surgiu esta oportunidade?

Ate 2012, 2013, fazia stand-up comedy em bares e restaurantes. Estive muitos anos naquilo. Achava que a minha carreira não estava a evoluir. Queria dar o salto mas, na altura, não tinha conhecimentos nem técnica de teatro. Andei à procura de atores para o papel de jornalista [que entrevista António Variações], mas não conhecia ninguém no meio, tirando o Camilo de Oliveira e a Paula Marcelo. Foi então que conheci o Bruno. Fiz-lhe o convite e ele aceitou logo.

 

«Estava a deixar de ser o Ricardo para ser o Variações»

 

Queria dar o salto, mas porquê com o papel de Variações?

A minha barba, mesmo antes de estar pintada, é um bocado mais loira. E a minha alcunha era o ‘Variações’, uma alcunha dada por amigos porque a barba era muito parecida com a dele. E há um dia em que estou a fazer um espetáculo de comédia num restaurante e um amigo meu aconselhou-me a fazer um espetáculo sobre ele.

Fez-se luz naquele momento?

Exatamente. Até aquela altura, não tinha ideia alguma da importância do Variações nem da responsabilidade que ele viria a ter na minha carreira. Fui completamente inconsciente.

Quando é que surge essa consciência?

Em 2016, com a estreia de Viver Variações. Ai é que pego no boneco e ele deixa de ser um boneco para passar a ser uma personagem. Naquela altura, já estava muito na berra o espetáculo que o Sérgio Praia estava a fazer sobre o Variações [Variações, de António]. Aí é que ganhei um grande peso da responsabilidade.

Visual já o tinha.

Já. E há uma história muito curiosa sobre o visual. Eu andava na rua vestido de Variações. Um dia, quando fui entregar o texto do espetáculo ao Vítor de Sousa, ele disse-me: ‘Olha lá, eu acho que não fazes muito bem em andares vestido de Variações na rua’. Disse-lhe que era uma maneira de promover o espetáculo. E ele disse-me uma coisa muito engraçada: ‘Imagina que um dia és convidado para fazer um espetáculo de D. Afonso Henriques. Não vais andar vestido de D. Afonso Henriques pela rua’. Foi aí que percebi que há uma linha que separa o ator da personagem. Estava a deixar de ser o Ricardo para ser o Variações. Agora sou o Ricardo que interpreta, quando subo a palco, o Variações.

 

 

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Porque é que andava vestido de Variações na rua?

Porque eu não era conhecido – ainda hoje não sou – e queria dar nas vistas. Era uma maneira de eu vender o produto.

 

António Variações? «Nem sequer o conhecia antes do papel»

 

Como é que se preparou para o papel?

Li o livro da Manuela Gonzaga [António Variações]. Foi muito difícil encontrá-lo, porque tinha saído em 2006 e já estávamos em 2013. Houve, mais tarde, uma reedição, mas a primeira versão foi muito difícil de encontrar. Encontrei-a num alfarrabista. Durante dois anos, até ao final de 2014, estive a ler e a escrever diversos textos, a fazer o tratamento de texto. Tinha o livro na mesa de cabeceira. Escrevi diversos guiões até chegar à versão final do espetáculo Viver Variações.

O que o fez sentir que aquele era o guião certo?

Só percebo que o Viver Variações era aquele guião quando consigo reunir a essência do Variações e o confronto entre o António Joaquim Rodrigues Ribeiro, que era uma pessoa, e o Variações, que era outra completamente diferente. Quando senti isso, senti que aquele era o guião certo.

E, além do livro, houve outro tipo de recursos para a preparação?

Vi um documentário da RTP e todos os videoclipes dele. E vi várias fotografias da Teresa Couto Pinto, que era a manager do António Variações. Se há tantas fotografias dele, foi porque existiu aquela pessoa na vida dele, de quem o António era muito amigo.

Pelo que me diz, percebo que não tinha uma ligação com o Variações, que não era um ídolo para si.

Nem sequer o conhecia. Não era uma figura que eu tivesse muita coisa na cabeça. Não sabia quem era.

O que mais o surpreendeu?

O ser exótico. O lado exótico. Ele tinha uma presença muito exótica.

Porque isso incomodava pessoas?

Sim, inclusive a família. A própria família não se sentia muito à vontade com a presença exótica dele. O António aparece no final dos anos 1970, quando ainda estava presente muito o espírito da Revolução. De repente, aparece um fulano, com roupas coloridas… O António fazia parar a Avenida da Liberdade! Era quase uma ave rara. Aliás, ele tinha várias alcunhas e essa era uma delas. O país nunca esteve preparado para o António Variações. Mesmo colegas. Quando ele estava no hospital, muitos colegas da música ligaram para lá não para saber se ele estava melhor mas para saber se ele já tinha morrido. Porquê? Porque ele estava a incomodar a classe artística. Um gajo que não percebe nada de música, de repente, faz dois discos, o segundo melhor do que o primeiro. E isso incomodou muita gente.

 

«Irmãos disseram que esta é a grande homenagem que já se fez a Variações»

 

Entretanto, o Ricardo criou uma ligação com a família.

Sim, com todos os irmãos dele. São seis. Não há um que eu não conheça.

Como é que chega à família dele?

A primeira pessoa que conheci foi o Jaime Ribeiro, o advogado da família, que gere todo o espólio musical do António Variações e a quem expliquei o projeto que tinha. Ele apanhou um susto quando me viu, porque eu estava vestido de Variações. Ele não imaginava que eu fosse tão parecido com ele [risos].

E, depois desse irmão, conhece os outros.

Entretanto, um outro irmão, o Luiz Ribeiro, adiciona-me no Facebook e foi ver os ensaios do espetáculo. Ficámos amigos e ainda hoje me trata por irmão. Aos poucos, fui conhecendo os restantes.

 

 

Todos viram o espetáculo?

Todos menos o Jaime. Ele não gosta muito de aparecer, é mais reservado.

E ficaram contentes? Porque há sempre alguma controvérsia quando se tenta fazer alguma homenagem a Variações retratando a sua vida…

Ficaram muito. Eles adoraram o Eu Variações. O próprio Carolino e a Fátima disseram que esta é a grande homenagem que já se fez em Portugal ao António Variações.

 

«Matar agora o Variações seria como matar uma criança prematura»

 

Ainda este ano, houve um filme sobre a vida de Variações. Viu? Gostou?

Vi três vezes e gostei muito. O filme dignifica a memória do António Variações e o Sérgio Praia fez muito bem de António Variações. Além de mim e do Gonçalo Salgueiro, ele é o único que faz bem de Variações. Eu vejo no Sérgio o António Variações. O Sérgio representou muito bem a vida do António Variações. Em muitas cenas do filme, parece que me estava a ver.

Voltemos ao teatro. Começa com Viver Variações, mas agora está em cena com Eu Variações. Como é que se dá essa passagem?

Não me sentia satisfeito com o Viver Variações. Queria mais. E, então, peguei no Eu Variações para assinalar os 35 anos de morte e os 75 anos de vida de Variações. Todas as histórias que eu contava no Viver Variações, estão aqui retratadas. O texto é meu, do Viver Variações, com dramaturgia de Pedro Martinho e com adaptação do Rafael Ribeiro Rodrigues.

 

 

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E, entretanto, atuou em Amares, a terra que viu nascer Variações.

Foi no passado dia 23 de novembro e foi um sucesso. Foi uma das noites mais bonitas da minha vida como ator. Já sabíamos que ia correr muito bem, já sabíamos que Amares estava à espera deste espetáculo. Quando, uma semana antes,
me dizem que estava esgotado, sabia que ia ser uma loucura, sabia que as pessoas estavam sedentas para ver esta peça. Estávamos confiantes, mas nervosos. A terra em que o António nasceu ia voltar a ver o Variações. Esse era o meu maior medo, mas, de facto, correu muito bem.

Quantas pessoas viram?

A capacidade era de 130 pessoas, mas estavam lá quase 200, fora as crianças que estavam espalhadas pela sala e cujos bilhetes foram oferecidos por nós.

Não está cansado de viver na pele de António Variações? Não sente que é a hora de fechar o ciclo?

Matar agora o Variações seria como matar uma criança prematura. Ando há seis anos a fazer Variações. Nunca tive tanto público como agora e não posso deixar de agradecer do coração ao Rafael Ribeiro Rodrigues e ao elenco de ouro que tenho ao meu lado: Carla Lourenço, André Cortina, Diogo Xavier, Rosa Vieira e Ruben Menino. Este espetáculo estará em cena enquanto houver público.

 

Próximos espetáculos:

11 de janeiro – Cine-Teatro Paraíso, Tomar
25 de janeiro – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, Barreiro
8 de fevereiro – Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
15 de fevereiro – Centro Cultural de Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo
22 de fevereiro – Cine-Teatro da Misericórdia da Chamusca, Chamusca
29 de fevereiro – Cineteatro Municipal D. João V, Damaia

 

Texto: Dúlio Silva; Fotografias: reprodução redes sociais

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