Susto de morte! Carlos Areia recorda calvário: «Perdi as pernas, perdi o andar»

Ao fim de mais de uma década de namoro, o ator pensa em ‘dar o nó’ com a namorada. Numa conversa intimista, o João da novela Nazaré fala dos tempos mais difíceis e revela como o amor prevaleceu.

21 Dez 2019 | 21:50
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Foi há quase dez anos que a saúde pregou uma valente partida a Carlos Areia. Na altura, foi à TV 7 Dias que o ator, que se encontrava visivelmente debilitado, sem conseguir apertar os sapatos, o botão das calças ou comer sozinho, por ter perdido a sensibilidade e a consequente mobilidade dos membros superiores e inferiores, contou o calvário pelo qual estava a passar.

«Perdi as pernas, perdi o andar, fiquei com as mãos pareciam cortiça. Eu, na altura, nem me apercebi logo, as minhas filhas e a Rosa é que se assustaram, porque aquilo era uma coisa que apontava para uma doença degenerativa, que se assim fosse, eu não estaria aqui. Diziam que era a doença do Zeca Afonso, a paralisia do neurónio motor», recorda agora à TV 7 Dias.

Foi uma fase difícil, admite, confessando o que lhe passava pela cabeça: «Que ia andar aqui mais dois ou três anos. Mas não era isso que me assustava, assustava-me realmente o ir perdendo as capacidades físicas do pescoço para baixo e estar são. E era mais: ‘Eu agora fico aí, vou dar trabalho às minhas filhas, aos meus amigos’… Porque aquilo é degenerativo do pescoço para baixo, e a cabeça fica como deve ser, que é o pior, mas felizmente chegou o dia em que o cirurgião me disse que, afinal, não era.»

Felizmente, apesar de os sintomas numa primeira fase levarem os médicos a equacionar a referida doença, o problema era bem mais simples, uma hérnia, que acabou por se resolver com uma operação.

«O mais difícil para mim foi despistar essa doença [N.R.: a paralisia do neurónio motor], nem foi a operação, porque eu fui operado a uma segunda, na quarta tive alta e no sábado estava a trabalhar. O despistar a doença é que foi muito complicado, aqueles exames foram muito difíceis. Eu, na altura, nem sabia escrever. Agora estou ótimo, só tenho menos sensibilidade na mão, mas já aperto os botões», conta.

 

Casamento à vista!

 

Prestes a comemorar 12 anos de namoro com Rosa Bela Soares, de 27, Carlos Areia, de 75 [N.R.: faz 76 anos a 31 de dezembro], revela em exclusivo à TV 7 Dias que o casamento é uma forte hipótese e que gostaria que a celebração fosse toda ao gosto da mulher, que tem sido o seu grande suporte.

Oficializar a relação foi algo que sempre esteve fora de questão para o ator. No entanto, depois de tudo o que viveram, e sabendo que esse é um sonho de Rosa, Carlos admite agora a hipótese. «Ela merece», confessou à TV 7 Dias, com quem recordou o início desta história de amor, que não teve um começo digno de um conto de fadas, mas que por ser real «venceu contra tudo e contra todos», afirma, orgulhoso.

Foi em setembro de 2009 que a TV 7 Dias revelou que Carlos Areia e Rosa Bela Soares – que nove meses antes havia anunciado a rutura, depois de o ator descobrir que a namorada não tinha 21 anos, como lhe havia dito, mas sim 16 –, afinal, continuavam juntos e até já partilhavam casa.

«De tudo o que se disse, da maneira como descreveram o cenário, se calhar era para durar um ano e, contrariamente, vai fazer 12 que estamos juntos. Tinha tudo para dar certo!», diz o ator, acrescentando que ficou magoado com algumas coisas que foram publicadas.

«Deram uma imagem do lado menos bonito, podiam ter dado o lado mais romanceado da história. É verdade que não houve mentiras, mas houve alguma falta de verdade. Eu nem sequer me preocupava com o que os outros pensavam, só me comecei a preocupar depois de começar a aparecer nas revistas, porque estava a dar uma imagem que não era a que eu queria passar, nem era o que eu pensava, que era a imagem de um engate de ocasião, a imagem do velho ator que papa miúdas… E o que eu pensava era que era amor para a vida toda.»

Mas o que lhe custou mais foi a forma como a namorada foi tratada. «A mais sacrificada no meio disto tudo foi a Rosa, a fatura maior foi ela que pagou. E então o meio onde ela vivia… ela foi muito massacrada. O que eu fazia mais era tentar defendê-la e, realmente, fui a pessoa menos atingida, não me importava nada de ser o culpado naquela história, porque com ela foi demais. Ela foi posta de rastos!», garante o intérprete de João da novela Nazaré, que embora reconheça que a namorada cometeu alguns erros quando optou por mentir, desculpabiliza-a, sublinhando: «Erros próprios da idade, de uma pessoa que sonha.»

No final das contas, ao fim de quase 12 anos de relação, que irão comemorar em 2020, Carlos Areia acredita que tudo aconteceu como tinha de acontecer. «Foi tudo bom, foi feito de uma maneira que parecia que não ia crescer e, de repente, desabrochou numa vida bonita. É um bocado vaidoso da minha parte, mas sinto que tinha razão em tudo o que fiz, dado os resultados, mesmo nos disparates que, se calhar, fiz ou disse, mas eu tinha razão. Eu sabia o que estava a fazer!» E, assim sendo, é peremptório quando assegura que não mudaria nada na sua história de amor com a atriz: «Tudo valeu a pena.»

Hoje, Carlos Areia e Rosa Bela Soares vivem um amor feliz e apoiado pelas famílias de ambos, inclusive por Cristina Areia, a filha mais velha do ator, que durante os primeiros anos desta relação nem sequer contemplava a ideia de estar no mesmo espaço que a namorada do pai.

«Hoje as duas são amicíssimas», assegura Carlos, que conta que o entendimento aconteceu cerca de «quatro anos depois». «Eu dizia sempre à Rosa Bela: ‘O tempo tudo cura. O tempo vai encarregar-se’. E ela no fim disse: ‘Afinal, tinhas razão, foi o tempo’. E foi o tempo e a maneira de nós estarmos na vida e de encararmos tudo isto», confessa, recordando ainda as palavras da filha para a namorada: «O que ela disse foi: ‘Sinto o meu pai muito bem. Obrigada por fazeres o meu pai feliz, isso é o mais importante’. E isso foi o que eu me lembro de ela ter dito.»

 

«Filhos é que não»

 

Ao contrário de Rosa Bela, que sempre sonhou casar com o ator, Carlos Areia nunca teve o mesmo desejo, devido à diferença de idades. «Eu não queria pensar mais nela… Tão nova, com a vida toda pela frente, vai ficar presa… Era só nesse sentido, mas agora prova-se que não a ia prender, e já penso nisso», confidencia, explicando o que o fez mudar de ideias: «Porque ela merece. É mais por ela, acho que ela merece esse estatuto. No fundo não é nada, mas ela gostava.»

O casal já terá falado sobre o tema, mas ainda não houve um pedido oficial. «Nas calmas! Já vou pensando na ideia, o que já é um primeiro passo», diz, entre risos.

No entanto, o ator sabe bem como quer que tudo seja feito… «Gostava de encher o olho à miúda, que ela dissesse ‘gosto disto, quero fazer assim’, e seria à maneira dela, nada para mim. É como ela quiser, de carroça, autocarro da Carris, limusine… totalmente ao gosto dela.»

Já quando o tema é descendência, o caso muda de figura. Aos 75 anos, Carlos Areia diz convictamente que não irá ter filhos com Rosa Bela, de 27. «Filhos é que não. Tem a ver com a idade e também a pensar nela… Esta miúda vai ficar com um filho? Mas não é só por ela, hoje em dia criar um filho não é fácil. Quando eu tive a primeira filha, há 55 anos, não sentia tanto a responsabilidade que sinto agora. Hoje em dia, criar um filho é um ato muito responsável em tudo… Se calhar, se houvesse outro tipo de condições, se tivéssemos o nosso núcleo familiar mais perto, para quando eu vou trabalhar e ela vai trabalhar, para termos onde deixar o puto, mas nós não temos esse suporte. Tenho as minhas irmãs, mas elas estão em Santarém», explica.

O ator confessa que os quase 12 anos com Rosa Bela não foram sempre um mar de rosas e que houve alturas em que ambos se questionaram se valeria a pena continuarem juntos.

«Não há relações perfeitas… Laços familiares, assuntos de família, falta de verba e depois há tanta coisa que os casais têm de discutir, e às vezes estão de acordo e outras não. Mas isso é que alimenta e cimenta uma relação, quando as pessoas conseguem ultrapassar essas questões, então nada vai destruir essa relação», conta.

 

Feliz também no trabalho

 

Antes de ser escolhido para dar vida a João na novela Nazaré, da SIC, Carlos Areia esteve três anos praticamente desaparecido da televisão. A explicação para o facto é feita em tom de crítica: «Primeiro estranhei, mas depois comecei a olhar para o panorama… As estações contratam atores, e muito bem, mas são obrigadas, entre aspas, a colocá-los em qualquer elenco, para os rentabilizar, o que do meu ponto de vista são maus castings, os papéis não assentam nas pessoas certas, mas elas têm de estar lá, porque têm de trabalhar, e isso reflete-se no produto final», afirma o ator, que atesta a sua teoria com o sucesso que as séries da SIC têm tido.

«A prova real está a ser dada agora. Nós olhamos para o elenco de Golpe de Sorte e foi bombástico, não pela história em si, que é sempre agradável a pobrezinha ficar rica, mas mais pelo elenco. Tem cada pessoa no seu lugar, cada pessoa no seu papel. E aconteceu o mesmo com Nazaré, um núcleo novo muito giro e um núcleo velho muito engraçado, e as coisas assim funcionam. O chefe da estação da SIC não inventou nada. Ele pôs foi as coisas no sítio certo, aquilo estava tudo desarrumado. Ele percebeu que aquilo não funcionava assim… e ainda bem», considera.

Feliz e «mais rico do que nunca», devido à oportunidade que lhe foi dada, de trabalhar nesse projeto, que assegura que foi dos mais importantes da sua vida, Carlos Areia confessa que, de alguma forma, estava à espera de um convite e partilha a sua convicção de que terá sido Daniel Oliveira a sugerir o seu nome para a trama, depois de o ter entrevistado para o Alta Definição.

«Eu estava à espera porque independentemente das críticas à entrevista que eu dei no Alta Definição, acho que isso, se não abriu a porta, pelo menos abriu algumas janelas. Eu fui dizer a verdade, porque eu podia ter lá ido dizer que estava tudo bem, mas era mentira, e do que é que isso me servia? De nada! E se me perguntarem se serviu de alguma coisa dizer a verdade eu digo que serviu! E eu penso que isso teve influência na decisão do Daniel, não é ele que decide, e apercebi-me agora disso num discurso que ele fez, mas ele tem uma palavra e eu acredito que ele falou no meu nome para este projeto.»

E a oportunidade valeu muito mais do que o dinheiro que passou a auferir ao fim do mês. «Veio mudar muita coisa. Há uma coisa que é um cheque mensal durante seis meses e isso muda muita coisa. E tive uma aprendizagem, ao fim destes anos todos, no núcleo em que estive inserido. Aquela gente de teatro ensinou-me muita coisa. E aquela juventude no elenco também me abriu os olhos para muita coisa. Foi dos projetos mais importantes e mais valiosos que eu tive até hoje em televisão, por tudo, foi muito bom por tudo», garante Carlos Areia.

Além das duas peças que faz para a produtora Fora de Cena, que tem como uma das fundadoras e responsáveis a namorada, Rosa Bela Soares, o ator prepara-se para voltar à televisão. «O teatro continua e a televisão também vai continuar. Tenho projetos, mas ainda não posso falar, nem posso dizer onde», conta, sem poder adiantar mais além do facto de que, em  princípio, será para começar em janeiro.

 

Investir em produtora

 

Carlos Areia andou em digressão com dois espetáculos. Quero Ir Prá Ilha e Cartas na Mesa são peças da Produções Fora de Cena, a produtora fundada por Rosa Bela Soares e Patrícia Candoso, entre outros.

«A ideia foi de um grupo que nós já tínhamos há cinco anos, trabalhávamos por conta de outrem, e depois chegámos à conclusão de que podíamos trabalhar por nossa conta se fundássemos uma produtora. E aos sábados e domingos andámos por esse país fora. Temos uma comédia, um original francês, adaptado por mim, que é o Cartas na Mesa, e um original meu, que é o Quero Ir Prá Ilha. Este é um espetáculo mais ligeiro, na linha da revista, musical», conta.

 

Texto: Susana Meireles; Fotografias: Helena Morais e Arquivo Impala

 

(artigo originalmente publicado na edição nº 1709 da TV 7 Dias)

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