Carolina Torres: «é preciso arranjar lugares na TV para MIÚDAS ALTERNATIVAS»

Carolina Torres regressa à ficção em BAD & Breakfast, série digital nascida do projeto RTP Lab. A atriz de 30 anos explica porque é que acha que não tem espaço na ficção televisiva atual.

23 Mai 2019 | 9:50
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Em BAD & Breakfast, série digital da autoria de Miguel Leão que chega à RTP Play a 30 de maio, Carolina Torres é Lenita, uma jovem que acaba, de forma inadvertida, por trabalhar para uma sociedade secreta chamada Welcome To Lisbon underground Club.

Em entrevista exclusiva à TV 7 Dias, a atriz de 30 anos explica porque é que está afastada do pequeno ecrã desde o fim da novela Espelho de Água.

Esta série, bem como as restantes do RTP Lab, têm temas em comum: o turismo, a gentrificação, o caos no setor imobiliário em Lisboa.

A arte tem sempre essa tendência de ser meia política, mesmo não querendo ser. As pessoas não têm noção mas é muito difícil, mesmo até a nível financeiro ou burocrático,ser artista. No BAD & Breakfast a minha personagem, a Lenita, tem dificuldades em seguir com a sua música. Nós agradecemos imenso ao turismo e sempre soubemos que tínhamos uma cidade incrível mas é muito complicado quando o próprio país não consegue gerir todas estas pessoas.

Identifica-se com esta personagem?

Acho que é quase impossível anularmo-nos. A nossa vida de artista tem esses altos e baixos que também são importantes. Eu não confio em ninguém que tenha trabalhado em televisão e nunca tenha ido mesmo ao chão. Eu acredito nas pessoas que vão ao chão e que dizem ‘é mesmo isto que eu quero fazer’. E isso traz coisas boas e más.

É uma série distópica, tem ali uns laivos de Black Mirror.

Sim. acho que é importante porque, em Portugal, não é feita ficção assim. A ficção que é mais feita é a novela e, nas novelas, há cenas super agressivas e, durante anos, ninguém conseguia fazer uma série em Portugal porque as pessoas achavam que ia ser muito agressivo. Às vezes também vão buscar temas sociais que são importantes. A homossexualidade é representada de uma forma bonita e há um papel a ser feito, que é passar uma mensagem que faça com que as pessoas reflictam. Eu, como Carolina Torres, acho que esta série passa a mensagem de que estamos a valorizar a cidade, não estamos a valorizar as pessoas. Porque reparamos que tudo está mais caro, não percebemos onde é que o dinheiro está a entrar e não vemos os ordenados a fazer match com isso.

 

«Nunca me senti normal»

 

O último trabalho em televisão que fez foi a novela da SIC Espelho de Água. Vai voltar?

Vou voltar quando sentir que há um lugar a ser preenchido por mim. Há várias oportunidades para entrar na televisão mas teria de sofrer toda uma mutação para que pudesse fazer parte delas.

O que é que quer dizer com isso?

Quero dizer que é preciso arranjar lugares para miúdas alternativas. Porque eu não me consigo ver a fazer determinados trabalhos que já fiz e que não quero repetir porque já os experimentei e não me trouxeram nada para lá de dinheiro, que também é importante. Nesta série ganhámos muito pouco porque o orçamento era baixo mas senti que aprendi muito e é isso que quero procurar mais no meu trabalho. O dinheiro, pá, come-se melhor ou come-se pior, ou faz-se a vida de outra maneira.

As coisas são sempre adaptáveis. Nós temos de ter orgulho no que estamos a fazer. Este ano que passou comecei a investir muito mais em cenas online, a trabalhar com pessoas que conheço e que respeito, a fazer A Cave do Markl e a aprender com estas pessoas que é possível fazer conteúdos giros.

Não fazer essas cedências já lhe custou ter portas permanentemente fechadas?

Não, por acaso não. Já trabalhei na SIC e na TVI e agora estou a entrar na RTP. Estou para conquistar o mundo (risos). Na altura em que estava a trabalhar na SIC, ainda era a Gabriela Sobral [nr: ex-diretora de conteúdos], que é uma gaja impecável e que é uma mega referência para mim como diretora e como pessoa. O Bruno [Santos, diretor de programas da TVI] sempre foi impecável e é fixe porque estas pessoas percebem esta minha cena mais alternativa. Porque eles já foram essas pessoas também.

A Carolina tornou-se, de alguma forma, uma figura de culto na televisão…

As pessoas dizem-me o que acham de mim e às vezes fico mesmo chocada porque é muito diferente daquilo que eu trabalhei para. Mas, quando falo em alternativo, é isto: eu nunca me senti normal. Ligo o telejornal e penso ‘isto para mim não é normal’ ou vejo determinadas coisas à minha volta e penso isso. A partir daí, comecei a perceber que sou diferente de alguma maneira. Não sei exatamente como, mas sei que sou.

 

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No Porto também tive um grupo bom de amigos mas, quando vim para Lisboa, percebi que a cidade é feita destas pessoas, que não se sentem normais em determinados sítios do país e vêm para Lisboa para fazer parte de alguma coisa. Apesar de sentir que sou um bocado nómada – hoje estou aqui, amanhã posso estar noutro sítio – também me sinto bem por saber que não sou a única.

Nós temos um caso muito bom na RTP. O 5 Para Meia-Noite é, hoje, dominado por mulheres. E é a cena que mais me dá orgulho! Eu já era apresentadora quando o 5 era apresentado maioritariamente por homens – e não há problema nenhum! – e o que elas estão a fazer é muito fixe! Elas estão a aguentar um talk show incrível, onde têm espaço para fazer cenas muito fixes e dá-me prazer ver aquilo. É muito mais esse género de coisas que me vejo a fazer, mais do que voltar a fazer uma novela. Se tiver de fazer, farei. Se a personagem me chamar, senão prefiro continuar a fazer cenas online.

Os canais estão a apostar mais em séries, embora sejam parecidas com novelas. Golpe de Sorte, da SIC, por exemplo, é apresentado como sendo uma série. 

São novelas. Chamam-se séries por causa do formato. O público-alvo é o da novela, os atores, a forma de filmar também. E é fixe. Quando fiz o Espelho de Água vi como é que eles trabalham e vi que é uma equipa muito coesa, forte e oleada. Nós, aqui, temos uma câmara e um gajo do som (risos)! Que eu gostava de ver Portugal a fazer filmes e séries? Gostava muito porque acho que a nossa ideia do sonho americano e vem todo desse marketing que foi criado pela ficção e pela música.

 

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Texto: Raquel Costa | Fotos: RTP

 

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