EXCLUSIVO! Covid-19: Português em Espanha relata «medo e pânico» em dias de incerteza

Em entrevista à TV 7 Dias, Filipe Coelho revela como os espanhóis estão a lidar com a pandemia da Covid-19. O relato é impressionante e deixa qualquer um a imaginar um cenário idêntico em Portugal.

17 Mar 2020 | 21:30
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Mudou-se para Madrid, Espanha, em meados de 2015, longe de imaginar que, praticamente cinco anos depois, estaria num dos maiores focos da Europa da pandemia da Covid-19. Nascido em Sátão, Viseu, Filipe Coelho é hoje informático na Daimler AG, o grupo da Mercedes-Benz, e está a trabalhar a partir de casa desde sexta-feira. A empresa fechou portas por tempo indeterminado e, tal como o português, outras cerca de 700 pessoas estão em isolamento profilático.

Com Espanha em estado de alarme, decretado pelo governo de Pedro Sanchéz por um período de 15 dias, Filipe Coelho revela, numa entrevista exclusiva à TV 7 Dias, o ambiente que se vive na capital de ‘nuestros hermanos’ Ruas vazias, supermercados com acesso limitado e polícia em cima dos que não optam pela quarentena. Mas, acima de tudo, é a descaracterização total de um povo que mais choca Filipe Coelho. «Quase que tentam suster a respiração quando passam ao nosso lado, não encaram nos olhos, tentam desviar-se o máximo possível…», assume o português numa conversa imperdível.

 

Veja a mensagem enviada por Filipe Coelho à TV 7 Dias!

 

 

TV 7 Dias – Está em regime de teletrabalho ou continua a deslocar-se para o seu local de trabalho?

Filipe Coelho – Estou a trabalhar a partir de casa. Como a área de Informática nos permite um pouco trabalhar em qualquer sítio onde estivermos, existiu essa possibilidade na minha empresa. Trabalho na parte informática da Daimler AG, o grupo da Mercedes. Neste momento, aqui em Espanha, pelo menos, cem por cento dos trabalhadores [desta empresa] estão a trabalhar a partir de casa.

Cem por cento?!

Sim, o escritório está fechado. E estamos a falar de 700 pessoas…

Está em regime de teletrabalho desde quando?

Já estou desde sexta-feira.

Foi uma decisão decretada pelo governo espanhol ou a empresa antecipou-se a essa medida?

A empresa foi um bocadinho reativa, não propriamente proativa. Na segunda-feira da semana passada, o governo disse que a partir de quarta-feira todas as escolas, universidades, colégios iam fechar. Por consequência, todos os pais ficaram logo alarmados, porque tinham de ficar em casa com os filhos. Há duas semana que a empresa já vinha dizendo para todos levarem o computador para casa, porque não se sabia o que ia acontecer no dia seguinte. Desde quarta-feira, a empresa começou a dar como opção, principalmente para as pessoas que têm filhos ou que tenham alguém aos seus cuidados, ficar a trabalhar a partir de casa. Depois, desde quinta-feira, quando foi decretado o estado de alarme, a empresa disse: ‘Todos para casa. Vamos fechar a empresa.’

Esta é uma medida que tem vindo a ser aplicadas a outras empresas?

Todas as empresas em que é possível trabalhar a partir de casa – no geral, no setor da informática, isso é possível – disseram para as pessoas o fazerem, mas nunca houve uma obrigação. Foi sempre opcional. Só desde quinta-feira é que foi já quase como uma obrigação.

Mas, na quinta-feira, ainda foi para a empresa.

Sim, mas a maior parte das pessoas já não foi nesse dia.

Tem notado as ruas mais vazias desde que foi decretado o estado de alarme em Espanha? As imagens que tem vindo a mostrar, pelo menos, indicam isso.

Neste momento, estou ao lado de uma janela e não vejo ninguém. Não há ninguém na rua. Aqui, as pessoas estão a sentir bastante medo. Os números estão a subir muito, quer os de infetados quer os de mortos. Já vamos, pelo menos, em 500 mortos. Então, não há praticamente ninguém na rua. Ainda esta manhã fui ao supermercado e havia três ou quatro pessoas que estavam com os seus cães na rua ou que iam para o supermercado, como eu. Mas, em jeito de passeio, não havia ninguém.

 

 

Consequentemente, o tráfego de carros também diminuiu.

Nota-se mesmo que há muito menos trânsito. Ontem [segunda-feira, dia 16 de março], o governo espanhol estimou que havia um decréscimo de 80% nas pessoas que usavam os transportes públicos, que continuam a funcionar de forma normal, porque há quem não pode deixar de ir trabalhar. Nas pessoas que usavam carro, também houve um decréscimo na ordem dos 75%.

Que medidas têm sido implementadas em Espanha?

A polícia está a tentar identificar todos os sítios onde existam aglomerados de pessoas, isto principalmente no centro da cidade, na zona mais turística. A polícia tem passado com altifalantes a dizer para as pessoas ficarem em casa, terem cuidado e estarem a pelo menos dois metros de outras pessoas. Pedem ainda para se usar máscaras e luvas, lavar as mãos… Se virem uma pessoa a correr, a andar ou em bicicleta, a polícia vai logo perguntar o que essas pessoas estão a fazer e recomendam diretamente que vão para casa.

Os polícias fazem-no protegidos com o uso de máscaras?

Sim, a maioria sim. Mas, mesmo quando estão a falar com as pessoas, eles ficam a dois metros de distância delas. E já não é só a polícia dita normal, mas também a polícia municipal e militares.

Filipe CoelhoO acesso aos supermercados também é limitado a um número de pessoas.

Não podem entrar todas as pessoas. A maior parte dos supermercados até já tem umas fitas desenhadas no chão para que as pessoas aguardem a dois metros de distância de outras. Também não podem ir duas pessoas da mesma família, simultaneamente, ao supermercado. Por exemplo, eu e a minha namorada não podemos ir ao mesmo tempo ao supermercado. Tem de ir só um.

Tem ideia de quantas pessoas podem estar num supermercado ao mesmo tempo?

Não sei ao certo, mas há um número específico que é controlado. Se esse número exceder, as outras pessoas têm de ficar fora à espera e aguardar, então, a dois metros de distância entre si.

Além dos supermercados, o que continua aberto?

As únicas coisas que estão abertas são farmácias, supermercados e sítios que façam comida em serviço de take away – não os restaurantes ditos normais.

Portanto, só se pode andar na rua se for para ir a um desses locais.

Exatamente. Mais nada. Não se pode andar na rua, não se pode ir correr, não se pode ir passear com os filhos, não se pode fazer nada. Eu, por exemplo, vivo numa urbanização privada e, no meio dela, há um espaço que, na maior parte das vezes, é usado para os miúdos irem brincar. Agora, não se pode utilizar esse espaço. Ninguém vai para lá.

Há outras medidas a serem implementadas?

Já se fecharam as fronteiras terrestres. Neste momento, só podem entrar em Espanha cidadãos que vivem cá, senão todas as fronteiras são bloqueadas. Exceção para os transportes de mercadorias, para não haver problemas nos supermercados.

O espaço aéreo continua a funcionar?

Continua, mas, como Espanha, agora, é um foco muito grande de casos de contágios com o novo coronavírus, muitos voos são cancelados. Não existem voos diretos para Itália e há já entre 65 a 70 países que proíbem os voos de e para Espanha. A maior parte dos países para onde ainda se estão a fazer voos, as pessoas têm de ficar em quarentena assim que chegam ao destino.

 

«As pessoas quase que tentam suster a respiração quando passam ao nosso lado»

 

Há pouco falou nos supermercados e aqui está a haver uma corrida a esses locais. Aí também? Há falta de produtos?

Não notei que faltasse muita coisa. Existem prateleiras vazias, mas muito poucas, na verdade. Hoje, por exemplo, não havia café em cápsulas. Queria comprar pastilhas para a máquina de lavar louça e também não havia. Mas a maior parte das coisas há. Há todas as frutas, há carne, há peixe. Isso não falta, mas, sim, nota-se que existem pequenas coisas que, se calhar, não fazem tanta diferença no nosso dia-a-dia mas que, neste momento, não existem.

 

 

No início desta conversa, disse que notava que as pessoas estavam com medo. Em que é que sente isso?

Mal se saia de casa e se pise um passeio, as outras pessoas dão um passo ao lado e tentam não encarar… Os espanhóis são muito alegres, que falam com toda a gente e que fazem muito barulho em todo o lado aonde vão. O que está a acontecer é que as pessoas estão completamente apagadas. Ninguém fala com ninguém. Quase que tentam suster a respiração quando passam ao nosso lado, não encaram nos olhos, tentam desviar-se o máximo possível… Quando voltei do supermercado, abri a porta da minha urbanização e estava uma senhora que vinha a três, quatro metros atrás de mim. Segurei-lhe a porta para ela passar, como é normal. Ela esticou o braço, segurou a porta e disse-me: ‘Vai indo, vai indo.’

A descrição que me está a fazer não é só de medo, é de pânico.

É um bocadinho… Há muitas situações em que acredito que seja isso.

E o Filipe como está a viver esta situação? Com medo, apreensão?

Pânico e medo, não. É mais, se calhar, receio. Segundo dizem, se as pessoas sãs apanharem o novo coronavírus será parecido com uma gripe normal. Para mim, o maior problema é não poder ir a Portugal, nem ver ninguém da minha família, porque poderia contagiar se, de alguma forma, eu estivesse infetado. De resto, é ficar em casa. Estamos aqui resumidos a 60 metros quadrados e não podemos sair daqui. Isso também me custa muito.

Estar fechado em casa, nas circunstâncias normais, não é um problema. Quando é uma ‘obrigação’, a sensação é outra. Como tem gerido isso?

Está a ser um bocadinho complicado. Durante a semana, estamos a trabalhar e estamos ocupados, mas notei bastante isso no fim de semana, porque não sabia muito bem o que fazer. A ideia foi tentar encontrar qualquer coisa de que goste – ler, ver televisão, jogar… – para passar um bocadinho o tempo.

 

Os números da Covid-19 em Espanha, Itália e Portugal

 

Até esta ao final da tarde desta terça-feira, estavam confirmados em Espanha cerca de 11 mil casos de pessoas infetadas com o novo coronavírus. Dessas, há a lamentar 509 vítimas mortais e aproximadamente mil curadas. É o segundo país europeu que mais gera preocupação, estando apenas atrás de Itália, onde mais de 30 mil pessoas já foram diagnosticadas com esta infeção e aproximadamente 2500 morreram.

Em Portugal, a propagação do novo coronavírus (ainda) não atingiu estes valores. De acordo com o mais recente boletim epidemiológico da Direção-Geral de Saúde (DGS), feito esta terça-feira, 17 de março, são já 448 os casos confirmados de infeção no nosso país. São mais 117 doentes do que na segunda-feira, tratando-se, por isso, de uma subida de 35,3%. Neste momento, há 323 casos a aguardar o resultado das análises laboratoriais. Uma pessoa morreu pela Covid-19. Três já recuperaram do vírus.

 

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Texto: Dúlio Silva; Fotografias: reprodução redes sociais

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