«Foi um erro». 5 perguntas ao Diretor de Programas sobre a polémica de neonazi na RTP

José Fragoso assume o erro quanto à presença de um neonazi no programa A Nossa Tarde, mas lembra que os programas que dirige «não vasculham o passado de todas as pessoas» que surgem em antena.

26 Nov 2019 | 18:50
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A presença de Nuno Cláudio Cerejeira, neonazi condenado por vários crimes, no programa A Nossa Tarde foi de tal forma polémica que motivou reações da apresentadora do vespertino da RTP1, Tânia Ribas de Oliveira, e da produção do formato. Até a Fundação Ronald McDonald, instituição da qual a comunicadora é madrinha e que apoia Cerejeira e a mulher, pais de trigémeos, se veio justificar quanto ao caso.

A Direção de Programas, liderada por José Fragoso, manteve-se em silêncio. Até agora. À TV 7 Dias, o timoneiro da estação pública admite que «foi um erro» a ida ao programa do condenado a prisão por crimes de ofensas corporais, envolvido no homicídio de Alcindo Monteiro, em 1995, um dos mais mediáticos crimes de ódio da história recente e no qual também esteve envolvido o líder de extrema-direita Mário Machado.

Fragoso reforça que a presença de Cerejeira n’A Nossa Tarde adveio da Fundação Ronald McDonald, mas lembra que a instituição «não anda a investigar» o passado dos beneficiários. Nem a instituição nem a RTP: «Mal estaríamos se todos os convidados que passam pelos nossos programas fossem objeto de uma investigação.»

 

TV 7 Dias – O que tem a dizer sobre a presença de um neonazi n’A Nossa Tarde?

José Fragoso – Esse é um assunto que a Tânia e a produção do programa já explicaram. Foi um erro…

Mas assume o erro?

A equipa já o assumiu. Estes erros podem acontecer. Quando trabalhamos em programas em direto com convidados, corremos riscos e podemos cometer erros no sentido em que, se soubéssemos previamente de uma coisa, ela não teria acontecido. E este é um caso evidente em que uma coisa que se passou não devia ter acontecido. Agora, a verdade é que a forma como o processo decorre isenta… [interrompe] Estamos a falar de um tema específico, estamos a falar de convidados que até nos chegam por via de terceiras entidades.

 

 

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Mas o programa tem uma equipa que averigua as histórias.

Tem, mas a verdade é que muitas vezes estamos a fazer um programa em direto com pessoas que chegam e que vêm para falar de um determinado tema e não se anda a vasculhar propriamente o passado de todas as pessoas. Li muitas coisas sobre a questão das tatuagens, por exemplo, de pessoas que começam, digamos, a delirar sobre determinado assunto.

Porque é que diz isso?

Quem conhece a forma como os programas de day time são feito, [sabe] que há um grau de confiança muito grande nas organizações, nas entidades com quem trabalhamos, que são entidades que não têm culpa alguma e que não andam a investigar. Mal estaríamos se todos os convidados que passam pelos nossos programas fossem objeto de uma investigação.

Aqui não era preciso uma grande investigação.

Mesmo até fazendo uma grande investigação, muitas vezes passam-nos pormenores.

Então acha que se fez um grande alarido com este caso?

Não, acho que o alarido é natural e o que nós temos de fazer foi aquilo que se fez: dizer muito claramente que tinha sido uma falha e que não devia acontecer de novo. Ninguém tem mais consciência disso do que as próprias pessoas que estão envolvidas no processo, como, aliás, ficou claro desde o início. Claro que gostaríamos de não cometer este tipo de erros e de não ter este tipo de falhas, mas a verdade é que quem trabalha nestes contextos está sujeito a essas falhas.

 

 

Retira-se algum ensinamento de episódios como estes?

Não é preciso retirar ensinamentos, porque as pessoas têm noção de que há situações que podem ser mais trabalhadas. Mas volto a dizer: não há nada que o garanta. Nós trabalhamos com dezenas de convidados ao fim de um dia. São centenas de convidados ao fim de um mês. Ao fim de um ano, são milhares de pessoas que passam pelos nossos programas.

Que são alvo de uma pesquisa.

Há sempre uma pesquisa. Nem é para investigar o passado da pessoa. Há uma pesquisa sobre o que as pessoas fazem. Mas há situações, como foi o caso, em que a pessoa até vem por terceiras pessoas. É um caso em que há uma participação por via de uma outra entidade. Portanto, há falhas que podem acontecer, mas que não devem acontecer.

 

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Texto: Dúlio Silva; Fotografias: Pedro Pina/RTP e Impala

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