EXCLUSIVO: Documentário The Weekly revela segredos da eleição de Bolsonaro

A nova série documental do Odisseia, revela arma secreta que foi determinante na eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. A TV 7 Dias entrevistou Jason Stallman, produtor executivo de The Weekly.

11 Nov 2019 | 21:30
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No primeiro episódio de The Weekly, A Toca do Coelho, que o Odisseia transmite a 12 de novembro, às 23h00, os repórteres Max Fisher e Amanda Taub mostram a forma como o YouTube influenciou a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. A TV 7 Dias esteve em Madrid, Espanha, com Jason Stallman, editor e produtor executivo da série documental do prestigiado jornal norte-americano The New York Times. Stallman, que era jornalista de Desporto, embarcou na aventura de construir uma série que mostra que se pode fazer jornalismo de excelência em tempos conturbados. E levanta o véu sobre o episódio de estreia.

«Temos uma equipa que está constantemente a reunir com os jornalistas da redação para falar sobre histórias nas quais estão a trabalhar. E, numa reunião com o Max e a Amanda, eles explicaram-nos que, nos EUA, deu-se grande relevância à forma como o Facebook foi utilizado como arma na eleição de Donald Trump, em 2016. Eles contaram-nos que, na fase inicial da investigação que estavam a fazer no Brasil, a forma como o Youtube estava a ser utilizado [para influenciar a opinião pública] era ainda mais alarmante do que o que vimos nos EUA. Isso interessou-me porque achávamos que a influência do Facebook nas eleições norte-americanas de 2016 tinha sido o maior fenómeno deste género», explica Jason Stallman.

Em A Toca do Coelho, podemos ver como youtubers de extrema-direita como Nando Moura, que tem 3,3 milhões de seguidores, angariam pessoas com discursos de ódio, xenofobia, discriminação e, claro, elogio a Jair Bolsonaro. «À medida que eles iam filmando, a reportagem ganhou uma dimensão cada vez maior. E levou-nos a outros temas, como vírus zika, e outras camadas muito complexas da sociedade brasileira».

Veja o trailer da série:

 

Desconfiança em relação aos jornalismo «é preocupante»

 

Em Portugal, formatos como Polígrafo, na SIC, dedicam-se a ajudar leitores e telespectadores a distinguir o que são notícias falsas e propaganda da verdade. No entanto, existem cada vez mais cidadãos desacreditado no jornalismo. Será que é esta uma batalha perdida?

«Esse é um pensamento assustador mas não há dúvida que há cada vez mais pessoas desconfiadas de várias instituições, incluindo dos media. Mas não tenho a certeza se existem assim tantas que acreditam piamente que o New York Times e os seus jornalistas escrevem mentiras», afirma Jason Stallman. «Nós vemos, nos EUA, quando avançamos uma notícia em primeira mão, a Fox News [canal de notícias de índole tablóide e que apoia Donald Trump] dá seguimento apesar de, convenientemente, decidirem quando é que as nossas notícias são falsas e quando são verdadeiras», continua. 

Nos últimos anos, o The New York Times tem apostado não só nos conteúdos online (dos 4,7 milhões de subscrições paga, 3,8 são de produtos digitais) mas também na expansão para outras plataformas:  podcasts – The Daily é o podcast de notícias mais ouvido do mundo – e programas de televisão, como o documentário The Fourth Estate e The Weekly.

Serão estas formas de aproximar cidadãos cada vez mais desconfiados e exigentes dos jornalistas? «Espero que sim! Sabemos que há pessoas que gostam de ver um bocado dos bastidores, de ver como os jornalistas trabalham e essa é parte da razão pela qual The Daily tem tanto sucesso. Mas também temos noção de que isso em demasia desencoraja os telespectadores e começa a parecer demasiado narcisista», diz o produtor de The Weekly.

Ao contrário do documentário The Fourth Estate, realizado por Liz Garbus e que mostrava os bastidores das redações do New York Times no período que sucedeu a eleição de Donald Trump, The Weekly não se centra tanto no jornal em si, mas sim nas histórias. Um ponto de honra que Jason Stallman explica. «Se estivermos a fazer bem o nosso trabalho, a história será sobre Bolsonaro e o Youtube, será o Estado Islâmico, o sistema de saúde nos EUA e não como fazemos o nosso trabalho. Se começarmos a incorporar demasiado do nosso processo de trabalho nos episódios, como se fosse sobre nós, torna-se problemático».

Numa era em que jornais e revistas lutam para manter público pouco disponível para pagar por notícias, questionamos Jason Stallman sobre o que fazer para levar as pessoas a preferirem conteúdos pagos. «Essa é a pergunta de um milhão de dólares (risos)! O nosso instinto, pelo menos na redação, é que se continuarmos a fazer coisas realmente boas, as pessoas vão querer ler e ver mais. Em suma, temos de fazer coisas muito boas: boas imagens, boas gravações, boa escrita, uma apresentação inteligente… tudo o que faça que as pessoas pensem ‘uau, isto é fantástico! vou voltar a ver!’».

 

«Trump tem reconectado muita gente com as notícias»

A primeira temporada de The Weekly é transmitida às terças-feiras, no Odisseia. Depois do episódio de estreia sobre a eleição de Jair Bolsonaro, a série documental do NYT retrata, entre outros temas, a morte de um casal norte-americano no Tajiquistão, a tomada de posse de Donald Trump,  contas falsas do Facebook usadas para extorquir dinheiro e a crise de consumo de opióides nos EUA.

Jason Stallman mostra-se esperançoso numa segunda temporada que, tendo em conta a atualidade política norte-americana (há eleições presidenciais em 2020), terá forçosamente episódios sobre este tema. «Será inevitável. Mas também já os Jogos Olímpicos em Tóquio… é difícil dizer. mas, se tivermos de fazer 30 episódios em 2020, alguns teriam de ser sobre as presidenciais».

O New York Times, bem como a generalidade dos media norte-americanos, beneficiaram em termos de audiências e vendas com aquilo que é apelidado de Trump Bump; ou seja, o público mostrou maior apetite por conteúdos noticiosos desde a campanha presidencial de 2016 que culminou com a eleição de Donald Trump e os subsequentes escândalos. E se Hillary Clinton tivesse sido eleita, como teria sido? «Não sei. É difícil imaginar o mundo sem os últimos 3 anos! Referiu há pouco que existe uma aparente crescente desconfiança em relação aos jornalistas. Mas acho que, ao mesmo tempo, a presidência de Trump nos EUA e a ascensão de outros líderes musculados com tendências autocráticas têm reconectado muita gente com as notícias», conclui Jason Stallman. 

Reportagem: Raquel Costa, em Madrid | Fotos: Canal Odisseia

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