Doente há quatro meses: Jornalista da RTP “enfiada em casa” com “defesas em baixo”

Alberta Marques Fernandes fala pela primeira vez sobre a sua ausência dos noticiários da RTP3 por motivos de saúde. Em confinamento, a jornalista louva o trabalho dos pares.

13 Fev 2021 | 9:40
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Rosto familiar para quem acompanha as tardes informativas da RTP3, Alberta Marques Fernandes afastou-se da televisão pública no final de setembro do ano passado. E há uma razão para isso. “Estou doente desde o final do verão”, revela, em exclusivo à TV 7 Dias, a jornalista, que evoca o “direito à privacidade” para não revelar de que padece.

Sublinha várias vezes, no entanto, que “não é uma doença grave”, apesar de esta a “obrigar a um tratamento prolongado, que vai durar, provavelmente, até ao verão”: “O tratamento deixa-me com as defesas em baixo, entre outras coisas, o que significa que tenho de estar muito mais resguardada do que as pessoas normais. Não completamente, claro. Posso muito bem sair à rua. O que tenho é de ter cuidado com a minha saúde. Estarei ótima na rentrée, se Deus quiser.”

Alberta Marques Fernandes garante: “Doença suporta-se bem”

Com um discurso pautado pelo positivismo, Alberta Marques Fernandes prefere olhar para a doença que a obriga a estar “enfiada em casa” com a devida ponderação. “É uma doença que se suporta bem. Os efeitos secundários da medicação, às vezes, são um bocado aborrecidos e chatos, mas aguentam-se perfeitamente. Há muita gente com a mesma coisa e com coisas piores… Digo-lhe uma coisa: nesta altura, é preciso relativizar tudo. Temos o país a viver uma situação de catástrofe humanitária. Estamos em guerra. Neste momento, estou mais preocupada com o meu país e com o meu Serviço Nacional de Saúde (SNS) do que comigo. Sinceramente…”, desabafa, garantindo que o seu afastamento foi gerido com “muita tranquilidade” dentro da RTP.

E agradece “à administração, aos diretores, a todos os colegas de redação, aos colegas de estúdios, aos colegas de régie e aos colegas de produção”. “Quase todas as semanas recebo mensagens e telefonemas com miminhos e saudades”, afirma. Algo que a conforta “muito”: “É sinal de que não sou um número na RTP. Sou mesmo muito acarinhada na RTP. E também dou muito carinho.”

Talvez por isso sinta que está agora a receber o que sempre deu. “Sou muito divertida e bem-disposta no meu local de trabalho. Então, os meus colegas mandam-me mensagens a dizer que sentem falta das minhas brincadeiras na redação. Fico feliz e muito contente. Eu continuo bem-disposta e otimista. O que tenho são imensas saudades de trabalhar.”

“Sei que muitos jornalistas estão a trabalhar em exaustão”

Ponte ideal para falar “do período excecional na história que estamos a viver em termos jornalísticos”. Com 53 anos celebrados recentemente, dos quais perto de 30 são dedicados ao jornalismo, Alberta Marques Fernandes encara a pandemia como um “desafio imenso” para os seus pares.

“Os jornalistas também têm estado na linha da frente e as pessoas não falam sobre isso. Os jornalistas também estão a colocar as suas vidas em risco. Os jornalistas estão a ir aos sítios aonde mais ninguém vai com medo. Vão os jornalistas e os repórteres de imagem. Estão na linha da frente do combate à pandemia com informação credível e correndo risco de vida nesta guerra. Tenho o maior orgulho em todos os meus colegas”, diz, para logo a seguir denunciar: “Sei que muitos estão a trabalhar em exaustão. Há colegas que estão em casa por várias razões, que estão doentes ou que estão com doenças crónicas e que, por isso, não podem ir trabalhar. Portanto, a redação está a trabalhar com muito menos gente e está a responder a uma situação excecional. Os meus colegas são uns heróis.”

E salvaguarda-se: “Obviamente que os médicos, os enfermeiros, os administrativos, os assistentes hospitalares, os bombeiros, os polícias e a Proteção Civil também o são.”

Várias horas em frente á televisão pode originar livro

Salientando a gravidade da situação, o rosto da Informação da RTP encara a realidade na perspetiva de telespectadora… “praticamente sempre com um olhar de jornalista”. “De vez em quando, deixo-me envolver pessoalmente em situações… É impossível não me envolver com certas histórias, não me chocar, não me sensibilizar com certas histórias que os meus colegas contam”, assume.

Aliás, é à frente de um televisor que a jornalista tem passado uma considerável parte do seu tempo. “Nunca tive tanto tempo para olhar para a televisão como espectadora. Tem sido um exercício muito interessante. Tenho tirado algumas notas sobre a televisão”, refere, preferindo, contudo, não partilhar com a TV 7 Dias as conclusões que tem retirado desse exercício.

Mas aponta: “Estou a analisar a programação e o entretenimento dos três canais generalistas. Sozinha, de uma forma completamente amadora. Estou a analisar também as diferenças e semelhanças dos canais de notícias do cabo. Os canais, os pivôs, as formas de apresentar… É muito interessante, porque nunca tinha tido tempo para fazer isto de uma forma tão sistemática como tenho feito. Ainda por cima estamos num período excecional, em que aconteceram coisas excecionais… Tem havido programas de entretenimento feitos de uma forma que ninguém imaginava que se poderiam fazer. A televisão teve de ser muito criativa por causa da pandemia. Está a reinventar-se.”

Alberta Marques Fernandes admite mesmo que essas reflexões podem dar origem a uma obra: “Não prometo nada, mas já escrevi tanta coisa… Quem sabe, irei escrever um livro sobre esta minha experiência.”

“É com as pessoas que amo que me deslumbro todos os dias”

A par das muitas horas enquanto telespectadora, Alberta Marques Fernandes encontra na filha, Luísa, de 20 anos, o conforto para ultrapassar a doença. E, juntas, têm partilhado conhecimento. “A minha filha é o meu orgulho. Está no terceiro ano de Direito. É uma boa aluna e, como ela tem aulas online, estou a tirar o curso de Direto com ela”, ri-se, acrescentando: “Somos só duas em casa e, portanto, ouço as aulas. Como são coisas que me interessam, vou ouvindo e vou acompanhando o estudo dela. Claro que ela está num nível em que já não apanho muitas coisas, mas acompanho-a.”

Constatando “não ser capaz de estar parada”, mesmo na luta contra uma doença, a jornalista tem sido bafejada com o “muito” carinho do público, que lhe pede o regresso à antena da RTP3. “Mas é normal”, relativiza, justificando-se: “O meu coração fica cheio e quente, mas não fico deslumbrada com isso. As pessoas gostam de dizer bem e tratar bem os outros, graças a Deus. E eu sou bem tratada. Que bom.”

Nunca se deslumbrou? “Quando era miúda [risos]. Agora, deslumbro-me com a maravilha da vida. Deslumbro-me todos os dias com a minha filha, os meus irmãos, as minhas cunhadas, os meus sobrinhos maravilhosos, os meus amigos maravilhosos… É com as pessoas que amo que me deslumbro todos os dias”, observa.

Texto: Dúlio Silva (dulio.silva@worldimpalanet.com); Fotos: Arquivo Impala e reprodução redes sociais

 

(artigo originalmente publicado na edição nº 1769 da TV 7 Dias)

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