Duarte Grilo: «Elencos são repetidos até à exaustão. E nem sempre com atores»

Em entrevista à TV 7 Dias, o ator Duarte Grilo faz uma reflexão sobre a realidade da sua profissão e assume que teve de aceitar entrar num jogo em que nunca tinha considerado participar.

08 Fev 2020 | 13:20
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A novela da TVI Mulheres e as séries da RTP1 Aqui Tão Longe, Miúdo Graúdo, Sul e Luz Vermelha são apenas alguns dos projetos em que Duarte Grilo tem podido ser visto na televisão portuguesa ao longos dos últimos anos. Mais recentemente, participou em Alma e Coração e Terra Brava, novelas da SIC, e na sequela de Conta-me Como Foi, que a estação pública transmite com o mesmo nome nas noites de sábado.

Contudo, foi sobre o telefilme Rapaz do Tambor, realizado por Filipe Henriques, que o ator falou com a TV 7 Dias. Integrado no Projeto Trezes, iniciativa levada a cabo pela RTP e a produtora Marginalfilmes, que vai resultar na adaptação de 13 contos de diferentes autores ao formato de telefilme, também eles dirigidos por 13 realizadores distintos, Rapaz do Tambor conta ainda no elenco com Miguel Damião, Sandra Santos e «duas crianças que estão incríveis» nos seus papéis, afiança Duarte Grilo.

A conversa começa centrada neste telefilme mas depressa foge para outros temas, nomeadamente para a forma como hoje em dia se olha para a profissão de ator. E as críticas são incisivas. «Há duas profissões em que dão a cara por outras pessoas: atores e famosos. Uma coisa é ser ator, outra coisa é ser famoso.»

No Projeto Trezes, contudo, essa distinção não acontece porque a escolha de elencos é feita, segundo o próprio, «com base na meritocracia». «As pessoas são escolhidas por aquilo que fazem e pelo que seu trabalho diz sobre elas, não por aquilo que as pessoas dizem sobre elas.»

 

TV 7 Dias – Se tivesse de apresentar Rapaz de Tambor, como o faria?

Duarte Grilo – É um filme sobre a família, passado no final dos anos 50, início dos anos 60, quando o início da revolução comunista começava a ganhar proporções. Como é costume, vou desestabilizar as coisas e fazer o papel de mauzão [risos].

É habitual?

É muito habitual.

Mas isso incomoda-o de alguma maneira?

Aceito com naturalidade. Ou sou polícia, ou sou ladrão.

E prefere ser polícia ou ladrão?

Eu gosto de boas personagens que, além de personagens, se possam tornar em pessoas. É disso que gosto.

Nesta, qual foi o maior desafio?

Encarar uma profissão e uma metodologia de trabalho da qual eu não estava minimamente próximo, que é a da PIDE. Eu sou o inspetor Santos Silva. Sou aquele tipo de inspetores que toma decisões e que fala à vontade mas que não suja as mãos. Portanto, tem um nível de cinismo elevadíssimo. Tentar dizer as coisas mais cruéis com um sorriso na cara foi um desafio enorme.

Por não ter vivido essa época, houve alguma preparação especial para o papel?

Houve. Todos os meus familiares são militares e viveram com intensidade a Revolução de 25 de Abril e, então, houve bastante pesquisa [com eles]. Curiosamente, vi bastantes documentários, vi bastantes coisas sobre a PIDE. Entrevistas a pessoas que tinham sido presas, a inspetores da PIDE que se reformaram…

Foi ouvir os dois lados da história.

Exatamente. Mas foi um trabalho mais virado para a pessoa: «Como é que aquela pessoa pode ser uma pessoa?!».

 

Veja as primeiras imagens de Rapaz do Tambor na galeria!

 

Havendo poucas produções de época a ser feitas em Portugal, é mais desafiante para um ator este tipo de projetos?

Ajuda mais, porque voltamos para um mundo de fantasia, onde aquilo tudo se torna real.

Mas não é difícil tornar a fantasia em realidade? Não se tende a cair para algo muito fantasioso?

A realidade vem da veracidade com que se diz as coisas e com que são feitas. Imagine estarmos precisamente a ter esta conversa mas com tudo isto pintado de amarelo [aponta para as paredes em seu redor] e nós vestidos de unicórnio. A conversa teria exatamente a mesma seriedade e exatamente a mesma intensidade. Estávamos a olhar-nos nos olhos e a falar sobre estas coisas de uma maneira muito natural. Apesar de o mundo e a época serem uma coisa fantasiosa, a verdade está naquilo que as personagens dizem, nas situações e na maneira como elas vivem.

A caracterização e a cenografia não ajudam logo um ator a entrar na personagem?

Muito! É um salto incrível, é um salto absolutamente gigante. Por isso é que é uma coisa que gosto muito de fazer. Se eu sei que vou filmar a um lugar, dois ou três dias antes vou lá. Ver como está o ambiente de equipa, espreitar, ver como é que funciona, como é o ambiente… Assim, quando lá estou, já estou à vontade.

Quinze dias, como aconteceu aqui, não é pouco tempo para se filmar um filme?

Muito pouco tempo, muito pouco tempo…

Esse continua a ser um problema em Portugal.

É, mas às vezes, num projeto assim, tem de haver adaptação dos dois lados. Neste projeto, a RTP aposta em 13 realizadores num ano – se calhar, muitos deles não filmavam há muitos anos -, sem repetir elenco uma única vez, dando, assim, oportunidade de trabalho a muitos atores… A equipa, se calhar, repete por uma questão de estabilidade do projeto, para haver uma certa organização. E isso sentiu-se perfeitamente. E houve dias em que até se conseguiram fazer cenas extras, o que é ótimo, porque mostra que a máquina estava bem oleada. Estávamos todos a remar para o mesmo lado, todos em sintonia. E isso foi ótimo.

E como olha para o projeto em questão?

Só tenho pena que não se possa repetir o elenco [risos]. Por mim, se for a pensar no meu ego e na minha individualidade. Mas é um projeto fantástico. E esta produtora, pelo que me parece, não tem uma ambição de grandes estrelas. Tem a ambição de contar boas histórias com bons atores. Então, será pouco provável vermos aqui grandes estrelas do nosso Instagram e das nossas telenovelas. Se calhar algumas das telenovelas, que não é desprimor nenhum.

Isso é uma crítica?

[Pausa] Como é que eu vou explicar? Não é uma crítica… Em equipa que ganha, não se mexe, mas acho que neste caso, como estamos a falar da televisão do Estado, eles funcionam muito bem enquanto entidade pública. Este é um dos grandes exemplos disso mesmo. Repare: a produtora não pode repetir atores em 13 telefilmes. Nem um! E, se virmos outros canais de televisão, os elencos são repetidos e repetidos e repetidos até à exaustão. E nem sempre com atores.

Isso é frustrante?

Não é frustrante. Tem de se aceitar essa realidade.

Conforma-se?

[Hesita] Acho que devemos estar conscientes e satisfeitos connosco próprios e de consciência tranquila. Costumo dizer sem desprimor absolutamente algum que, para mim, há duas profissões em que dão a cara por outras pessoas: atores e famosos. Uma coisa é ser ator, outra coisa é ser famoso.

As duas não coexistem?

Coexistem, como é lógico. É lógico que um ator muito, muito, muito competente, de alguma maneira ou de outra, vai alcançar a fama.

O mediatismo.

O mediatismo. Exatamente. Temos vários exemplos em Portugal de atores absolutamente brilhantes que trabalham lá fora com muita regularidade e que são muito bem vistos que, se calhar, não se prestam a esse mediatismo.

Mas isto não é um jogo?

[Pausa]

Há quem opte por não jogar?

Há quem opte por não jogar, sim. Eu, por exemplo. Nos últimos anos, fui uma pessoa bastante infeliz porque não decidi jogá-lo desde sempre. Decidia: ‘Não, não. Eu sou um ator e vou fazer as coisas que acho que têm qualidade’. Mas, nos últimos anos, confesso… Quem me dera estar aí a fazer presenças e coisas. [Porque] A questão económica também é muito importante. Agora, se estou em paz comigo? Estou. E entretanto consigo arranjar um equilíbrio… ‘Ok, se é um bocadinho isso que as pessoas querem, os Instagrams e essas cenas’…

Faz-se cedências?

Claro que se faz cedências.

Mas sem ir contra os seus princípios.

Claro. Eu também tenho Instagram e não vou lá dizer que acordo de manhã, como isto e faço aquilo. Tento que a coisa seja o mais profissional possível, com alguns momentos de descontração da minha vida. E, sim, que não seja tão focado em promover coisas.

Que não seja tão uma plataforma de trabalho.

Exatamente. Mas que seja uma plataforma de visualização, porque quem não é visto não é lembrado. Em Portugal e nos outros países. Aqui, cada vez mais. As pessoas que eram atores eram as pessoas famosas do Instagram, as que tinham mais ‘likes’ e com mais seguidores… Felizmente, de há cinco, seis anos para cá, as coisas estão a deixar de funcionar assim. Não sei se alguma vez funcionaram assim como regra, mas convenhamos que basta ligar a televisão… Acho que agora está a mudar um bocadinho.

Esse discurso é de um certo desencantamento com a forma como, em determinados casos, se faz televisão. São projetos como este que o fazem acreditar na televisão?

Sem dúvida. Projetos como estes e com pessoas como estas, numa produtora em que o trabalho é feito com muita seriedade e as pessoas são escolhidas com muita seriedade e com base na meritocracia. [pausa] Atrevo-me a arriscar que, nesta produtora, não há grande espaço para vedetismos. As pessoas são escolhidas por aquilo que fazem e pelo que seu trabalho diz sobre elas, não por aquilo que as pessoas dizem sobre elas.

 

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Texto: Dúlio Silva; Fotografias: RTP reprodução redes sociais

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