«É muito assustador não saber quando é que o mercado se regenera», alerta Herman José

Fechado na sua casa, na zona de Azeitão, na zona da Arrábida, Herman José gere a sua equipa à distância, mas, sem espetáculos, fala-nos num «abalo económico» que é muito assustador.

15 Abr 2020 | 19:50
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Numa longa conversa via Skype, que pode assistir na galeria, o humorista conta-nos como está a viver este período de quarentena por causa da Covid-19. Herman não esconde que tem «a felicidade de trabalhar no campo. A minha casa é em Lisboa, mas a minha fábrica é em Azeitão há muitos anos. Tenho os meus colaboradores à distância por isso não tenho contactos diretos», diz.

Neste período de confinamento só sente mesmo falta dos seus espetáculos ao vivo, já que se mantém ativo na televisão com o Diário de uma Quarentona, que estreou a semana passada na RTP e que vai para o ar à quarta-feira.

Este processo de construção tem, contudo, algumas dificuldades e desafios acrescidos. «O teletrabalho dá sempre muito trabalho e escrever um guião de 50 minutos, onde não podes ter pessoas a interagir umas com as outras, onde tem de ser tudo feito via Skype ou telefone… Portanto, a própria ficção está condicionada a isso. É o exercício mais difícil que eu já aceitei na minha vida, mas ao mesmo tempo o mais estimulante de todos, porque me mantém ocupado e a trabalha», relativiza.

Herman José fala em «abalo económico» por causa da quarentena

A perda de receitas com a sua vida na estrada é que o preocupam. «Do que eu sinto verdadeiramente falta é dos espetáculos ao vivo. Por causa do público – adoro estar com as pessoas e é a parte principal da minha atividade – e pelo abalo económico que isso me dá, porque a minha vida estava toda estruturada, como a da maior parte das pessoas que faz estrada

Herman assume que 80% da sua faturação está assente em espetáculos e que não é fácil essa gestão. «Eu, tal como 90 e muitos por cento das empresas tem de fazer uma grande ginástica para manter os postos de trabalho, para não entrar em pânico. Tem muito que se lhe diga.», refere.

Ainda sobre o tema, mais do que o presente é o apresentador não saber quando tudo voltará ao normal. «É muito assustador não saber quando é que o mercado se regenera, sobretudo um mercado que depende de pessoas num sítio, umas em cima das outras a assistir a um espetáculo. No meu caso e no dos restaurantes a situação é um bocadinho mais assustadora.»

Mãe do humorista está a «adorar esta fase»

Quem se mostra feliz com esta situação é Maria Odette, a mãe do humorista, de 87 anos, que se encontra a viver com ele, ainda que numa casa independente, que o próprio Herman mandou construir há largos anos, para que os pais pudessem estar consigo.

A rir, o humorista conta que «a única pessoa que eu conheço no Mundo que está a adorar esta fase é a minha mãe. Outro dia apanhei-a ao telefone com uma amiga e deu-me uma vontade de rir tão grande… Dizia ela: ‘Isto está a ser maravilhoso. Eu para mim estou num El Dourado’. Ou seja, para ela como eu a trouxe e a tirei da sua independência e a trouxe aqui para ao pé de mim, onde ela se mantém independente», prossegue.

De seguida explica os motivos dessa mesma independência. «Tive o bom senso de há muitos anos fazer um apartamento independente, em cima da garagem, para os meus pais, agora para ela. Ela tem a vida dela e ela vem-me visitar ou ver uns filmes. Mas mantemos esta relação elegante de ninguém interferir na vida de ninguém, só que ela está acompanhada todos os dias e deixou de pensar na culinária: limita-se a sentar e a usufruir.»

«Quem tem mais idade sofre mais com a reconstrução»

O estado de emergência ainda se mantém em vigor, mas Herman já antecipa o período que se avizinha de recomeço. E se as vítimas da Covid-19 são os mais velhos, as consequências desta paragem também irão recair sobre eles.

Herman não tem dúvidas que «o ser humano tem sempre a capacidade de reconstruir melhor. Precisamos é de uma coisa que é de tempo. Por isso é que quem tem mais idade sofre mais com a reconstrução, porque não tem tanto tempo para esbanjar.»

Para exemplificar, Herman recorda a saída das duas grandes guerras e um evento mais próximo aos portugueses: o período da descolonização, dos anos 6070: «Todos os portugueses que vieram das Áfricas com 30, 40 anos, refizeram as suas vidas, os que vieram com 60 e 70, uns morreram de tristeza, outros morreram com os copos e muito poucos conseguiram refazer a vida. Há esse fator idade que é decisivo na maneira de viver a reconstrução pós-Covid-19.»

Texto: Luís Correia; Fotos: Impala e D.R.

 

 

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