Entrevista a Raminhos: a doença, a morte da mãe e o internamento da terceira filha

Diagnosticado com transtorno obsessivo-compulsivo desde a infância, o humorista, de 39 anos, relata como aprendeu a lidar com a doença. À TV 7 Dias, fala ainda abertamente sobre a morte da mãe.

01 Jan 2020 | 17:20
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(entrevista originalmente publicada na edição nº 1705 da TV 7 Dias, de novembro de 2019)

 

TV 7 Dias – Depois de O Melhor do Pior, está de volta às salas nacionais com O Sentido das Coisas… e Isso. De que se trata?

António Raminhos – É o sentido das coisas e isso… Já fiz quatro solos. O primeiro, há muitos anos, chamava-se Qual É a Piada e era puro stand up. Depois fiz As Marias, que era stand up que já tinha uma mensagem por trás. O último há quem diga que foi uma espécie de catarse. Este espetáculo vem já nesse registo, não é bem storytelling, mas eu gosto que as pessoas saiam com alguma coisa para além de piadas. Se alguém no final de um espetáculo me disser que, de alguma maneira, o espetáculo alegrou o seu dia, não só pelas piadas, mas que o levou a pensar em alguma coisa e que o ajudou a compreender que não está sozinho em determinada situação, isso para mim tem muito mais valor. E, então, vem nessa sequência.

Corresponde então às histórias que relatou sobre a sua vida em O Melhor do Pior?

Este fala da minha mãe, mas já do ponto de vista do meu próprio crescimento enquanto pessoa e miúdo que passou por várias situações. E sempre que falo publicamente da ansiedade ou dos transtornos da ansiedade, percebo a quantidade de pessoas que sofrem e que passam pelas mesmas questões. Quero que as pessoas percebam que há um sentido para tudo.

Mas ainda há muita dificuldade em falar abertamente sobre o tema?

Então não há? Há dois tipos de pessoas que sofrem transtorno de ansiedade. Há aquelas que sofrem realmente um transtorno de ansiedade e que não falam disso porque se sentem marginalizadas, ou culpadas, de algum modo, e acham que os outros não dão valor àquilo que estão a sentir, e sofrem com isso. E depois há uma geração muito trendy, que é quando aquela malta gosta de dizer: «Oh my God, eu não posso falar disto senão a minha ansiedade tipo fica superalta e tenho de tomar medicação.» Quem fala assim, não sofre de ansiedade, sofre de outra coisa.

Quando lhe foi diagnosticado?

Sofro desde pequeno, mas só dei um nome aí por volta dos meus 20 anos, que foi quando, já no desespero e com a Internet, comecei a ler coisas sobre os meus sintomas. Procurei um psicólogo que me fez o diagnóstico. Fui a um psiquiatra e fez-me o mesmo diagnóstico. A partir daí, comecei a fazer o meu trabalho. Tomei medicação, que já não tomo. Deixei de fazer psicoterapia, mas fiz durante muitos anos, e deixei de fazer para abordar outras terapias, mas sempre com o consentimento do meu psicólogo.

 

«A coisa da qual mais me orgulho é de ter dito aos meus pais que os amava enquanto estavam os dois conscientes»

 

Por que razão acha que desenvolveu esta patologia?

A maior parte de nós vem de uma família disfuncional. Há alguns que têm a sorte de ter uma família que os apoia, e é mais ou menos feliz, e há outros que são a maior parte de nós. Eu acho que a família é como uma microempresa onde nós somos os trabalhadores, mas na realidade queremos ter a nossa própria empresa, mas depois temos os nossos pais – que são os nossos administradores – e que não nos podem despedir até uma certa altura. E as famílias funcionavam neste registo, muitos de nós sentiram-se desacompanhados, e foi aí que se foram desenvolvendo estas patologias.

Tem orgulho da sua família?

Sim, a coisa da qual mais me orgulho é de ter dito aos meus pais que os amava enquanto estavam os dois conscientes. Disse-lhes que não me arrependia de nada daquilo que eles tinham feito por mim, com todas as dificuldades.

Os seus pais eram conservadores?

Não. Os meus pais fizeram aquilo que sabiam. Às vezes não tem a ver com o ser castrador, mas não saber fazer as coisas de outra maneira. A minha mãe teve uma vida superdifícil. Teve quatro filhos, um deles morreu aos 15, com deficiência profunda. Depois nasci eu. O meu pai estava sempre ligado ao trabalho, porque era a maneira que ele sabia de dar amor, fazia tudo para que nada nos faltasse.

Ser pai de três e viver com quatro mulheres. Como é?

Tenho uma piada que é: tenho quatro mulheres em casa, quando todas tiverem o período, não tenho uma semana por mês que se aproveite. Se se coordenarem, vai ser uma semana espetacular. Meto férias.

E que pecador foi?

Sempre fui um gajo tranquilo. Não cheguei a dealer, mas podia ter sido. Era puto de bairro, mas sempre fui atinado. Mas como é que fui atinado, tendo em conta o ambiente em que vivia? Se calhar por influência dos meus pais, que me davam liberdade e responsabilidade. Mas também por mim, que não tinha o chip de virar dealer.

Mas teve os seus momentos de rebeldia?

Sim, parti uns vidros. Fugi uma ou outra vez da Polícia por estar a jogar à bola até às tantas, devia ter aí uns dez ou 11 anos. Lembro-me também que uma vez, com os amigos, fizemos uma fogueira, à vontade, com uns três metros de altura e começámos a atirar latas de spray lá para dentro. Depois apareceram os bombeiros, Polícia e nós desaparecemos.

Quais são os seus receios como pai?

Ser pai é a pior e a melhor coisa do Mundo. A melhor porque é um tipo de amor que não dá para descrever. Ao mesmo tempo é a pior coisa porque passas a ter medo de tudo, sobretudo eu, que vivo muito num registo de ansiedade, tenho o medo das doenças… Faço o melhor possível para que, quando morrer, elas me recordem com um sorriso. Podem ter saudades, aliás muitas vezes têm saudades da minha mãe e ficam de lágrimas nos olhos, mas digo-lhes para sorrirem e para pensarem na avó com uma ideia feliz.

 

«Tenho muitos amigos ligados à comédia que sofrem de ansiedade e de questões do foro psicológico»

 

Fala da sua mãe por forma a perpetuar a sua memória?

Não. Só falo quando elas querem falar. Elas não se vão esquecer. Um dia será uma memória, mas agora é ainda algo muito presente, e de vez em quando falo da minha mãe. Neste espetáculo tenho uma piada superagressiva, que é uma coisa parva que me surgiu, do género: ‘Costumo deixar as minhas filhas na minha sogra, e na minha mãe não dá porque o cemitério à noite está fechado.’ A Maria Rita não achou piada nenhuma, ficou mesmo ofendida.

Encontra no humor uma forma para aligeirar o lado mais negro da vida?

As pessoas que estão muito ligadas ao entretenimento têm, de alguma maneira, um lado obscuro, e eu costumo dizer que para fazeres comédia tens de ter tragédia. É na tragédia que consegues aligeirar as coisas. Às vezes, nos períodos mais ansiosos e obsessivos, era quando criava as coisas mais engraçadas, ou que me conseguia refugiar, porque a minha cabeça ia para outro lado. Tenho muitos amigos ligados à comédia que sofrem de ansiedade e de questões do foro psicológico. É aí que se refugiam.

Estar em palco é uma terapia ou causa ainda mais ansiedade?

No início causa muito. O escrever, o testar, saber se funciona ou não, são períodos horríveis. Fico superdesorientado e aparecem muitas obsessões, ideias e pancadas, durmo mal e ando mais irritado. Mas a partir do momento em que isto começa a engrenar, fica mais soft.

Há quantos anos está com a Catarina?

Há 20 anos. Ela viu o meu crescimento em todos os aspectos.

Como foi para a Catarina acompanhá-lo em todos os processos?

Tenho muitas dúvidas de que qualquer outra mulher tivesse a paciência que ela tem para os momentos que passou. Outra gaja já me tinha mandado à merda, sobretudo com as questões de ansiedade, que foram coisas muito pessoais e intensas. Houve alturas muito difíceis, em que ela não sabia o que fazer. Tanto que ela foi ao meu psicólogo para perceber como me podia ajudar.

Mas o que acontece num momento de ansiedade?

O transtorno obsessivo-compulsivo é a doença da dúvida, é um estado que te coloca dúvidas irreais. Eu sei que aquilo que estou a pensar não faz sentido, mas não consigo deixar de o fazer. Há um impulso que não controlas que te leva a ver outra vez. O problema é que isto aumenta a ansiedade. Eu vivo mais num registo que é o chamado puro obsessivo, não tenho tanto essas coisas de mexer, mas é muito mental.

Passou por um processo de aceitação que o levou a melhorar?

Sim. Primeiro há a psicoterapia e a terapia de exposição, que é o enfrentar os medos. Às vezes pegava num croissant, ao pequeno-almoço, e ficava a olhar. Se encontrasse alguma coisa, que na minha cabeça não fazia sentido naquele croissant, podia ser massa queimada, pensava logo que podia ser um foco de contaminação e já não o comia. Se deixasse cair algo no chão, não era capaz de apanhar, soprar e comer. Uma pessoa não faz isso porque é porco, mas se quisesses fazer podias fazê-lo, não ias pensar que ias apanhar alguma coisa, agora eu não fazia com medo da contaminação.

O que fez para ultrapassar esses receios?

Fiz terapias. Andava com pacotes de bolachas todos os dias, atirava-as para o chão e comia depois. As primeiras vezes foram horríveis. Era como se estivesse a morrer naquela altura. Isso causa revolta. Mas tenho a sorte ou a predisposição para enfrentar as situações e, com muitos altos e baixos, fiz o meu trabalho, com muitas recaídas, que ainda tenho.

 

«A minha mãe disse-me que estava muito cansada daquilo tudo e já estava mais do que preparada para se ir embora»

 

O nascimento das suas filhas causou ainda mais ansiedade?

Aumentou! Projetas muitas coisas nelas.

Como lidou com o facto de ter a sua mãe internada ao mesmo tempo que a sua filha recém-nascida?

É engraçado que para situações reais, seja de morte ou de stress, sou muito pragmático. Em vez de exteriorizar perante essas situações, lidava bem, mas depois ia pensar noutras parvoíces que compensavam isso.

Na gestação da sua terceira filha foi detetado algo irregular…

Supostamente teria um problema, mas que nunca se revelou em nada, e não nos davam garantias de nada. Não se sabe se ficou internada por influência disso. O certo é que ficou internada por uma bronquiolite, mas, como havia essa condição especial, houve algumas reservas e durante três semanas ficou internada. Foi um recuar ao passado [N.R.: Recordar a morte do irmão com deficiência profunda], mas lá está, não havia grande coisa a fazer. A Catarina estava lá todos os dias, eu ia lá visitá-las, saía de lá e ia visitar a minha mãe, depois ia para casa cuidar das outras duas.

O que fez para ajudar a sua mãe?

Ia visitá-la quando podia, ficava lá com ela e conversávamos. As pessoas quando chegam a essa altura atingem um certo grau de tranquilidade. A minha mãe disse-me que estava muito cansada daquilo tudo e já estava mais do que preparada para se ir embora. A minha mãe esteve quatro meses nos cuidados paliativos e, no fim, já não era a minha mãe. Foi tudo muito rápido. Ela fez anos a 4 de julho [N.R.: de 2017], estivemos todos juntos, e dois dias depois piorou rapidamente. Foi internada e a partir daí foi sempre a piorar. Cheguei a receber chamadas a dizer: «A mãe não passa de hoje.»

E como se prepara a família para o pior?

Nós não ligamos a uma data de coisas a que a maior parte das pessoas liga. Não ligamos ao facto de termos uma grande casa, ou o que for, até porque eu, até aos meus 28 ou 29 anos, vivi praticamente com 600 ou 700 euros.

Na altura em que era jornalista?

Precisamente. Era uma grande merda. Pedia dinheiro aos meus amigos e aos meus pais. A minha ambição nunca foi ter isto ou aquilo. O dinheiro não me diz nada. Ajudo quem posso e quando posso. Acredito que a vida não se trata só deste plano e isso traz muita tranquilidade… mas medo também, porque se vivo da ansiedade, eu tenho medo de morrer todos os dias.

Esta Mensagem É Para Ti obteve bons resultados televisivos. Vai haver uma segunda temporada?

Acho que há hipótese de haver uma segunda temporada, pelos resultados e pelo feedback das pessoas, que querem contar a sua história e fazer surpresas.

 

Texto: Telma Santos; Fotografias: Helena Morais e reprodução redes sociais; Agradecimentos: Sfizio

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