EXCLUSIVO! «Há atores a passar fome». Como a pandemia empobreceu (ainda mais) a Cultura

Filipe La Féria revela à TV 7 Dias que há vários atores e técnicos a lutar contra graves dificuldades financeiras. No caso do Teatro Politeama, não vai haver salários para 57 trabalhadores em maio.

08 Mai 2020 | 18:00
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«A Cultura foi a primeira área a fechar e será a última a abrir.» Esta frase repetiu-se vezes sem conta nas últimas semanas, com a classe artística unida pedindo soluções à ministra Graça Fonseca, aquela que tutela o parente pobre do País, cujos trabalhadores lutam há vários anos por um por cento do Orçamento de Estado.

A situação, claro, agravou-se com a pandemia da COVID-19. Os teatros, por exemplo, poderão reabrir a 1 de junho, mas com limitações. Limitações essas que, em muitos casos, impedem os empresários de voltar à rotina, por mais diferente que seja da que tinham há dois meses. E há mesmo salas de espetáculo em risco de fechar, como é o caso do Teatro Politeama.

Em entrevista à TV 7 Dias, o empresário Filipe La Féria, de 74 anos, expõe a cenário em que se vê envolvido e que já não lhe vai permitir pagar salários aos mais de 50 profissionais que integram a companhia que dirige. As dificuldades financeiras por que alguns destes, mas também outros atores e técnicos portugueses, passam são tão graves que culminam na fome.

A olhar para o amanhã como «um enorme ponto de interrogação», o encenador suplica por alternativas apresentadas pela ministra da Cultura, a quem já enviou «duas cartas»… que não tiveram direito a resposta.

 

«A situação é muitíssimo grave»

 

TV 7 Dias – Esta sexta-feira, no Você na TV! (TVI), o Filipe La Féria colocou uma questão à ministra da Cultura. No final, pediu a Graça Fonseca que «pense nos [teatros] privados» e que fale convosco.

Filipe La Féria – O teatro estatal, subsidiado, já tem uma rede. Nós, privados, somos trapezistas sem rede que caímos no chão e morremos. Os problemas do teatro privado são muito, muito, muito graves. O Teatro Politeama, por exemplo, não tem subsídios.

O que agrava ainda mais a situação.

Agrava muitíssimo mais, porque nós não temos nada a que nos agarremos. Alguns trabalhadores estão em lay-off, mas são poucos, porque a maior parte dos atores e técnicos trabalha com recibos verdes e muitos deles até nem descontaram, portanto, agora, não têm direito a qualquer apoio. A situação do teatro é muito, muito, muito dramática. É mesmo no limite! Por exemplo, nós até distribuímos comida a algumas pessoas.

Que trabalham no Teatro Politeama?

No Politeama… No teatro português, já há atores e técnicos a passar fome e o público não tem conhecimento algum disso. Há atores com muitíssimas dificuldades. Há quem ajude com alimentos… A situação é muitíssimo grave.

Essa situação não é denunciada porque há vergonha e receio na exposição?

Também. Mas isso é natural e humano. As pessoas não gostam… Ainda noutro dia vi uma senhora numa fila para obter alimentos e ela não queria ser filmada, porque também há dignidade. É natural que as pessoas não queiram revelar a situação real em que vivem.

 

«Há a possibilidade de fechar o Politeama»

 

Que apelo fez a Graça Fonseca?

Fiz um apelo à senhora ministra da Cultura para falar connosco. Nós, empreendedores, que trabalhamos sem qualquer auxílio do Estado, temos muitas questões para fazer. Por isso é que, de manhã, falei na lei do Mecenato, que é inexistente em Portugal. O Ministério da Educação… Há 22 anos que faço gravações de peças dedicadas à infância e juventude. Neste momento, podíamos ser muito úteis para dar Cultura às escolas, agora que a maior parte delas contacta com os seus alunos através de um computador. Há muitos caminhos através dos quais o Estado nos pode ajudar neste momento.

Deixe-me voltar atrás. Pediu à ministra da Cultura que falasse convosco e ela respondeu: «Costumo falar com eles.» Esse diálogo tem ou não acontecido?

Olhe, já escrevi duas cartas à ministra da Cultura e não obtive resposta…

Portanto, Graça Fonseca poderá estar a falar mas não com todos.

A ver se me explico bem… Há teatros do Estado, que vivem dos dinheiros públicos, pago por todos os contribuintes. Mas há os outros, os teatros privados. Eu estava a falar desses. Estava a falar do Politeama, do Maria Vitória…

E com esses não tem havido qualquer diálogo?

Não, não tem havido. Pelo menos comigo não houve qualquer diálogo. E era esse apelo que eu fazia. E o que eu quis pedir não foi que se distribuísse dinheiro. Eu quero trabalhar, não quero que me dêem esmolas. Há outros caminhos! A televisão pode ser um meio para ajudar estas empresas. A rádio… Eu comecei a minha carreira na rádio, onde havia sempre teatro. Há sempre uma grande confusão no público, que não percebe que uns são filhos e outros são enteados. É preciso pensar nos empreendedores, nos privados.

As alternativas de que fala não existem, pelo menos para já. Em junho, será possível reabrir os teatros, mas com limitações. É exequível no caso do Politeama?

É impossível… Como é que se quer que um teatro com 680 lugares, como é o caso do Politeama, venda até um quarto da sala? Isso dá para um teatro que tem subsídio. Nós trabalhamos em função do bilhetes que vendemos. Portanto, torna-se completamente impossível. Nem que eu faça monólogos! E há outro problema: a segurança dos atores. Eu não posso aproximar atores em cena… Os atores vão representar de máscara?! Não pode ser.

Portanto, o Teatro Politeama não vai reabrir a 1 de junho.

Não. Como é que eu posso abrir o Politeama vendendo um quarto da sala?! É impossível.

Deixe-me fazer-lhe uma pergunta concreta: a possibilidade de fechar o Politeama está em cima da mesa, caso a situação se mantenha como está hoje?

Claro que está… Há a possibilidade de fechar o Politeama e muitas outras empresas em Portugal.

E como é que o Filipe tem tentado contornar esta situação?

O que tenho feito é propor algumas coisas à televisão… Propus agora uma coisa à Câmara [Municipal de Lisboa]… Pequenas coisas, pequenos paliativos. Mas não são suficientes para ter o teatro aberto.

 

«Neste mês, já não tenho dinheiro para pagar a 57 pessoas»

 

Desde quando é que o Politeama está fechado?

Desde o dia 8 de março. Há dois meses, portanto. Tínhamos um espetáculo em cena, A Rainha da Neve, que tinha bilhetes esgotados para março e abril. No dia 8, foi o último espetáculo de Severa, que esteve um ano em cena. E estávamos a ensaiar Laura – O Musical, sobre a vida da grande atriz Laura Alves.

Que está suspenso por tempo indeterminado.

Precisamente. Era um grande musical, com um elenco com mais de 40 pessoas, entre cantores, atores, bailarinos, músicos… É um espetáculo muito difícil de pôr em cena com estes condicionalismos.

Tem a trabalhar consigo quantas pessoas?

Cinquenta e sete.

Como é que se mantêm salários de 57 pessoas sem qualquer retorno financeiro através da bilheteira?

É impossível… Consegui pagar à companhia, mesmo sem ter trabalhado, em março e abril. Agora, neste mês, já não tenho dinheiro para pagar. É terrível. Foi como lhe disse há pouco: somos trapezistas que trabalham sem rede e, portanto, estatelamo-nos no meio da pista…

O Filipe é um homem do Teatro, que deu e dá a sua vida ao teatro e que investe tudo aquilo que tem no teatro. Deixando de parte o lado de empresário, como está a viver tudo isto?

Estou a viver com muita apreensão porque, de facto, é uma situação inesperada e impensável. E sobretudo porque tenho uma filha, tenho netos… Também penso qual é o mundo que lhes vamos deixar. Não posso dizer que estou otimista, nem nenhum de nós pode dizer isso. A situação é muito grave.

Vive-se um momento de incerteza, sem saber do amanhã.

Temos de viver dia a dia, porque o amanhã, para nós, é um enorme ponto de interrogação.

Que questões práticas colocaria ao Ministério da Cultura?

Há muitos caminhos que não passam por distribuir dinheiro, como já disse. Sei que somos um país pobre, portanto, haverá enormes dificuldades. Tomara ao Estado ter dinheiro para a Saúde… [Na Cultura,] Há outros caminhos, há outras formas de dar trabalho às pessoas. Através da televisão, do Facebook… O Teatro Politeama, por exemplo, tem transmitido os seus espetáculos no Facebook há algumas semanas. Nós já ultrapassámos o milhão e meio de pessoas! O My Fair Lady ultrapassou os dois milhões de pessoas! As pessoas gostam da Cultura. O que seria deste tempo se as pessoas não tivessem um livro para ler, uma peça de teatro para assistir pela Internet, um filme para ver e música para ver?! O que seria?! As pessoas têm sede de Cultura, sobretudo nestes tempos difíceis.

Passar as suas peças em televisão poderia ser uma solução.

Estão a ser passadas.

Mas as que passaram não geram qualquer retorno financeiro para o Filipe, porque já tinham sido compradas pela RTP.

Não. Não recebemos dinheiro porque, de facto, já tinham sido adquiridas pela televisão.

Para concluir: o Filipe não procura dinheiro, mas soluções.

Exatamente. É isso que peço à ministra da Cultura. Que fale connosco e que connosco descubra caminhos, porque estamos todos nesta enorme catástrofe. Estamos todos no mesmo barco.

 

Texto: Dúlio Silva; Fotografias: Arquivo Impala

 

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