«Foi terrível»! Graciano Dias fala sobre regresso a Amar Demais após morte de Pedro Lima

Aos 38 anos, Graciano Dias estreia-se como protagonista de uma novela num «projeto muito especial» que, há três meses, sofreu um «embate muito violento». «A nossa profissão é de risco», alerta.

26 Set 2020 | 15:50
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TV 7 Dias – Em 2020, estreia-se como pai e tem em mãos o primeiro papel de protagonista de uma novela. Este é o melhor ano da sua vida?

Graciano Dias – É um dos melhores. Creio que todos os anos têm sido bons e trazido desafios novos. Agora, este ano foi diferente, dado tudo o que o aconteceu: a COVID-19, ser pai, ser protagonista de uma novela… Portanto, foi um ano de grandes questões. O facto de o Gabriel ter nascido foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. E, por acaso, aconteceu em 2020. Não creio que seja o melhor ano, mas o início de uma nova era.

Amar Demais tem um sabor ainda mais especial tendo em conta as adversidades que a equipa teve e tem de ultrapassar?

De facto, este projeto é muito especial. Tudo o que foi acontecendo trouxe uma força, uma união, uma magia… Também trouxe muita tristeza, muita mágoa e muito sofrimento pela perda de colegas [N.R.: Pedro Lima e Fernanda Lapa] e as circunstâncias em que pelo menos um deles partiu. Para nós, esse foi um embate muito violento, talvez o mais violento de todos. Isso uniu-nos ainda mais. Penso que ele está connosco todos os dias.

Está a falar concretamente de Pedro Lima. Sente que está convosco de que forma?

O Pedro era uma pessoa muito especial, muito educada, muito dedicada. E creio que isso passou para nós. Tornámo-nos muito mais educados uns com os outros, respeitamo-nos muito mais, somos mais sensíveis quando alguém parece estar menos bem. É logo invadido de perguntas: «Está tudo bem? Precisas de alguma coisa?». Essa união era uma característica do Pedro e passou para nós.

Passou-se a olhar para os outros?

Já olhávamos, mas começámos a olhar com outra atenção. Porque a nossa profissão é de risco. Lidamos com sentimentos 12 horas por dia, todos os dias.

Na altura, disse não ser capaz de compreender a morte de Pedro Lima. Já consegue lidar com o assunto?

Consigo lidar com o assunto, mas continuo sem compreender e acho que jamais irei compreender.

Como é que se regressa ao estúdio onde, três dias antes da morte, Pedro Lima tinha estado?

Foi terrível. Nessa semana, gravámos as cenas mas era praticamente como se não estivéssemos lá. Para mim, o sábado e o domingo foram muito complicados. Só quando chegámos ao estúdio e chorámos uns com os outros é que percebemos que precisávamos de trabalhar e de estar unidos pelo Pedro.

O Graciano e o Pedro eram amigos?

Éramos amigos no trabalho. Tínhamos uma coisa em comum: o surf. Ele chegou a ir surfar à Nazaré, de onde também vêm as minhas origens. Falávamos muito de ondas e tínhamos uma relação muito pura, com amigos em comum, como o [António] Pedro Cerdeira. Quando estávamos juntos, parecíamos três crianças [ri-se]. Acredito que isso seja amizade.

Foi ele a primeira pessoa a ligar-lhe quando o Graciano foi escolhido para ser o protagonista de Amar Demais.

Foi incrível. Deu-me apoio e disse-me: «Prepara-te. Vais sentir a pressão e ver o quão difícil é conseguires conciliar a qualidade com a velocidade e a carga de volume de trabalho. Estou aqui para te ajudar. Conta comigo.» Isto num momento em que eu estava mergulhado em textos e bastante confuso. Nesse dia, abriu-se uma porta para mim, ganhei mais força.

«Não vamos trabalhar para o sucesso»

 

Com a pandemia, aprendeu-se uma nova forma de fazer ficção.

No início, fazia-nos muita confusão ensaiar com máscara, porque não vemos a cara do ator, só os olhos. E, para construir a cena logo no ensaio, era muito complicado. Muitos de nós até entrámos em conflito. Achámos que não seria possível ensaiar com máscara, mas fomos insistindo. De repente, percebemos que havia outra forma de comunicar: olhar-nos nos nos olhos e ouvir de outra forma.

Uma novela perde verdade com a falta de contacto físico entre os atores?

Perde alguma verdade, mas o que estamos a fazer é reunir cenas em que é fundamental ter contacto e os atores nelas envolvidas fazem um teste à COVID-19 uma semana antes para, depois, serem feitas. Há coisas que se conseguem contornar, há outras em que é impossível. Um abraço de alegria por causa de uma notícia tem de ser um abraço, não pode ser outra coisa.

O Zeca, a sua personagem, é um homem com uma história inimaginável.

Ele foi criado por mulheres e, portanto, é um homem que tem a força das mulheres, uma força diferente que todos os homens deveriam ter. E o Zeca é um apaixonado, que é capaz de dar-se como culpado por um crime que não cometeu para salvar a vida da mãe. É condenado a 21 anos de cadeia e sai ao fim de 16. As pessoas vão começar a conhecer o passado do Zeca, porque é que ele é assim, o que aconteceu e o que vai acontecer… É uma espécie de Robin Hood, que só está feliz quando os outros estão felizes.

Ele tem algo de condenável?

Não, porque o Zeca é a personificação da justiça [risos]. Portanto, é um homem que não é rancoroso nem vingativo. Mas as circunstâncias de vida e a ligação com os outros seres fazem com que ele não seja só o bonzinho. Tem a força de uma mulher, carácter de leão, personalidade, determinação… Não é apenas um doce caramelo sentado num sofá a sonhar com um mundo apaixonado [risos].

Há Zecas na vida real?

Há, claro que sim. Há pessoas boas, muito boas. Mas, depois, vivem num meio onde muitas vezes são corrompidas por outras e muitas vezes são manipuladas por isso.

Pensa nas audiências?

Não. Uma coisa que os nossos diretores de atores, o Cassiano [Carneiro] e o Vitor Hugo, nos falaram no início foi: «Não estamos a fazer uma novela de sucesso. Estamos aqui para fazer o nosso trabalho o melhor que sabemos e vamos aprofundar isso». O sucesso pode ou não vir depois. Mas não vamos trabalhar para isso. Senão não estamos a trabalhar para as personagens nem estamos a aprofundar aquilo que nós queremos fazer.

«Por amor faço tudo»

 

Pegando no slogan de Amar Demais, o que faz por amor?

Tudo. Por amor faço tudo. Escondo os meus sentimentos mais tristes para que os outros sejam felizes, abdico de estar com o meu filho durante a semana para poder ir trabalhar e me dedicar, por amor, ao trabalho, para depois matar saudades dele ao fim de semana com um amor ainda maior… Faço tudo.

Como começou a sua história de amor com a Deolinda?

Já nos tínhamos cruzado algumas vezes e nunca tinha havido uma faísca. A Deolinda é mais nova do que eu – temos uma diferença de nove anos. Nunca imaginámos que fosse possível, um dia mais tarde, olharmos um para o outro e dizermos: «Vamos ficar juntos» [risos]. Descobrimos do nada e estamos juntos há dez anos.

O casamento está nos planos?

É algo de que já falámos e que já dissemos que, talvez, aconteça um dia. Às vezes, começamos a imaginar como é que poderíamos casar-nos e que podíamos fazer uma coisa diferente. Parece que vamos sonhando e adiando. Mas, no fundo, também sentimos que estamos casados. Com esses sonhos, enquanto idealizamos o casamento, parece que nos casamos todos os meses [risos].

Dois meses depois do nascimento do Gabriel, o que já aprendeu sobre o amor de um pai por um filho?

Eu ainda não acredito… Às vezes, estou com o Gabriel ao colo, fico a olhar para ele e digo: «O que te posso ensinar?». E todos os dias vejo que é ele que me ensina.

O quê?

A forma como ele evolui ensina-me a olhar para mim quando eu era bebé e, então, vejo-me nele muitas vezes. Estou a descobrir-me e a descobri-lo também enquanto ele nos ensina. Mas há uma sensação de, muitas vezes, ainda não saber o que isto é.

Pegando nas suas palavras, «não é um mundo perfeito» aquele em que o Gabriel nasceu. Que imperfeições são essas que não nos permitem alcançar esse cenário utópico?

Nós sabemos muito bem que o mundo não é perfeito e procuramos, cada um de nós, tentar colocar uma pedra no sítio certo. Mas é horrível aquilo que muitas vezes vemos nas notícias… Nós nem imaginamos como é que o ser humano é capaz de fazer tantas atrocidades. Mas, o que nos vale, além desse mundo imperfeito, é todo o outro lado que tem a ver com o amor, a grandeza, a humanidade e a simplicidade de cada um de nós.

Texto: Dúlio Silva (dulio.silva@worldimpalanet.com); Fotografias: Marco Fonseca

 

(entrevista originalmente publicada na edição nº 1749 da TV 7 Dias)

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