Grande entrevista a João de Carvalho: “Pensei que morria de ansiedade”

João de Carvalho já começou as gravações da próxima novela da SIC e não esconde ser muito difícil contracenar em tempo de pandemia, pois sente falta do toque e do abraço.

31 Dez 2020 | 14:20
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Afastado das novelas há quase uma década, João de Carvalho, com 65 anos, regressa agora à ficção na próxima novela da SIC, com nome provisório de “Serra”. Na trama, o ator será Moisés, o administrador e dono de uma empresa e sócio de Carlota, personagem de Sofia Alves.

“Fiquei muito contente com o convite. A minha personagem é engraçada e diferente do que costumo fazer. Gravar na Serra da Estrela também é ótimo. É uma zona de que gosto muito, até tenho lá casa, e tem aquelas paisagens muito bonitas que vão enriquecer a história. Para mim, é especial gravar naquela zona, que conheço muito bem. Acredito que o público vai gostar”, afirma.

E acrescenta: “Já comecei a gravar e as pessoas vão ver-me de outra forma, a que não estão habituadas. Não tenho estado parado, mas há muito tempo que não fazia uma novela. Fiz um filme há pouco tempo com o Diogo Morgado, que ainda nem estreou por causa da COVID-19, mas acho que a última novela foi o ‘Feitiço de Amor’, na TVI.”

Na trama, faz par romântico com Custódia Gallego, e o ator não esconde que gravar com a atual realidade de pandemia é muito diferente em relação à última novela que fez. “Para mim, é muito difícil, sou um comunicador, um emocional com as pessoas. Faz-me muita impressão este afastamento, os ensaios fazemos sempre com a máscara na cara. Falta o abraço, o beijinho na cara, o agarrar a mão… há coisas que me fazem muita falta no estúdio. Tenho cenas de amor e não sei como as vou fazer a um metro de distância. Temos que encontrar uma forma de não comprometer a história, mas não é fácil”, assume, esperançoso de que “nos próximos meses” apareça uma vacina: “Acredito que isto vai passar. Nós, seres humanos, temos uma capacidade muito grande de superar estas situações. Já houve outras pandemias. Quantas pessoas ainda morrem com uma pneumonia?”

Por precaução, o ator já fez vários testes à COVID-19 e sempre com resultado negativo: “Já chumbei o ano, tive quatro negativas. Vou fazer teste serológico para tirar as dúvidas e se sou imune como o meu pai. Já estive em contacto com pessoas que tinham e não apanhei.”

 

João de Carvalho: “É desolador ver as cadeiras vazias”

 

Além das gravações da novela, João de Carvalho está em cena no Auditório Eunice Muñoz, em Oeiras, com a peça “Kaká e Jojó”, ao lado de Victor Espadinha. E também a pandemia está a afetar bastante este projeto. “O recolher obrigatório e as limitações estão a afetar-nos imenso. Todos nós temos já mais tempo de domicílio que o Ricardo Salgado. Estreámos e só fazemos espetáculos às quintas e sextas-feiras.”

E a receita está longe de ser a esperada. “As pessoas vão dentro do possível, temos algum público porque as pessoas percebem as dificuldades dos atores. Não é só pelo dinheiro da bilheteira, mas é bom para o ator ver uma casa cheia. É desolador ver as cadeiras vazias”, assume.

No entanto, considera que “o teatro sempre esteve em crise e que esta é a altura de os lutadores não deixarem morrer a profissão. E há muitos, graças a Deus. É pena que quem trata da cultura não perceba isso.” Sobre a peça, garante: “A comédia é muito engraçada. Tenho a certeza de que se estivesse em cena noutra altura, ia ser um sucesso e tínhamos sempre a sala cheia…”

 

“Suicídios têm aumentado”, alerta o ator

 

João de Carvalho não tem dúvidas de que os portugueses “precisam mais do que nunca” de rir, de alguém “que os distraia”. “Estão constantemente a ser bombardeados com notícias negativas, começa a tornar-se neurótico. Há pessoas que se transformam com isto, pessoas que com máscara passam a ser completamente intransigentes. Isto vai deixar marcas, mas vai ter que ser controlado de alguma forma e, depois, vamos tratar da cabeça das pessoas”, diz o ator, que se mostra muito preocupado com o futuro.

“Depressão não tenho, mas sei o que é um ataque de ansiedade por causa do confinamento. Há pessoas que podem estar muito tempo em casa e se sentem bem. Não sou animal de estar muito tempo trancado. Gosto da minha casa, mas gosto de saber que posso sair. Agora, dizerem-me que não o posso fazer causa-me ansiedade. Fui parar ao hospital e pensei que me ia embora. Em vez de morrer com COVID-19, pensei que morria de ansiedade”, revela, temendo pelos efeitos secundários de toda esta realidade.

“Os suicídios têm aumentado, na minha profissão por exemplo. Os psicólogos vão ter muito trabalho. Assusta bastante, mas tenho fé de que isto vai passar”, conclui.

 

Texto: Neuza Silva (neuza.silva@impala.pt); Fotos: Arquivo Impala

 

(artigo originalmente publicado na edição nº 1761 da TV 7 Dias)

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