Hélder Reis faz revelações sobre passado: “Passei do convento para o cabaret”

Faltou pouco para ser padre, mas depois de 12 anos no seminário, deixou tudo para trás. Hoje assume que é “francamente um melhor apresentador” do que seria sacerdote.

05 Dez 2020 | 16:20
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Hélder Reis dá entrevista exclusiva à TV 7 Dias, recordando o passado ligado à religião e todo o percurso até chegar à televisão.

Começou a fazer televisão sem qualquer tipo de expectativa. Há 20 anos, quando começou, pensou que algum dia seria uma das caras de um canal?

Hélder Reis – Não. Quando comecei, estava na idade da expectativa. Estava nos 20, tinha saído do seminário à procura do “onde é que vou ser feliz” e quando o Manuel (N.R.: Luís Goucha) me convidou para ir para A Praça da Alegria como empregado de mesa, eu só queria ser o melhor empregado de mesa da altura. Era o único (risos). Ensaiei imenso em casa com a bandeja de um lado para o outro. E o meu propósito era fazer uma boa figura. Claro que o meu papel era mais do que isso, era assistente do programa, fazia uma ligação da régie com os apresentadores. Para mim foi ótimo porque me ia dando uma certa bagagem de bastidores. E via o Manuel trabalhar, que para mim é a referência televisiva. Eu servia café e laranjada e as pessoas diziam-me: “O Hélder vai longe, ainda vai ser apresentador.”

Nunca pensou nisso?

Não. Não sou muito deslumbrado. Quero é ser feliz e na altura eu queria ser feliz a ser bom empregado de mesa, assistente de programa. Acho que quanto menos expectativas alimentarmos, melhor. E hoje em dia cada vez mais acredito nisso.

Se na altura em que já estava no mundo da televisão, nunca pensou em apresentar um programa, muito menos aquele menino de 14 anos quando entrou no seminário pensava nisso…

Nunca na vida. Nunca pensei e graças a Deus também nunca me deslumbrei com isso. Para mim, o meu trabalho é algo que tem alguma exposição e tento cultivar muito a humildade nele. Quando estava no seminário, aos 14 anos, ainda queria ser padre. Aos 20 queria ser outra coisa qualquer que me satisfizesse imenso e não sabia bem o que era. Mas ainda bem que descobri.

Foi por volta dos 20 que saiu do seminário…

Sim, com 22, acho. Saí um pouco antes de ser padre. Só faltava a paróquia. Passei do convento para o cabaret (risos). O seminário é tudo menos televisão e a televisão é um cabaret de alegria. Luzes, palco, músicos… é um espetáculo. Sempre gostei muito de espetáculo, portanto…

O dia em que deixou o seminário foi o melhor e o pior momento da sua vida?

Foi… Foi mesmo! Foi o melhor porque descobri o que é que eu não queria. É uma sensação tão boa como descobrir aquilo que se quer. Portanto já sabia que não era aquilo, por isso foi ótimo. Foi péssimo porque os meus pais reagiram muito mal. Foi muito complicado lidar com eles face à decisão, mas eu estava tão feliz com a escolha certa.

Mas como é que sabia que essa era a escolha certa?

Sabia que era a certa porque me sentia feliz. E consegui dizer: “Não quero continuar no seminário. Vou sair”. Não sabia o que queria fazer, mas sabia que não queria aquilo. Isso deu-me a certeza plena e indubitável do que eu não queria fazer.

Teve então de recomeçar.

Sim, tudo do zero. Acabei a minha tese de licenciatura em Teologia, fui trabalhar para Serralves como vigilante e rececionista, e depois acabei a tese e fui para a televisão.

Todo esse percurso desde que saiu do seminário deu-lhe bagagem para o que foi construindo aos poucos neste meio da comunicação…

Sim, muito. Primeiro o meu curso de Teologia. Foram seis anos. É um curso muito denso e intenso e com uma bagagem cultural e universal muito interessante. Deu-me muito! As línguas, o facto de ter estudado grego, hebraico, hermaico, latim… Fez-me perceber muitas coisas, muitos universos, muitos mundos…

Um padre também lida com as alegrias, as tristezas, as emoções… Tem o dom da palavra também, tal como um comunicador…

Sim, um padre é um comunicador, só não tem câmaras de televisão à frente. Quer dizer, agora há (risos)… Eu tinha um professor de Teologia que dizia que a Eucaristia era como que um teatro: tem um palco, tem um texto, um guião… Tudo aquilo tem uma componente cénica muito forte. E eu sabia disso também. No seminário trabalhamos muito isso. Trabalhamos a voz, a postura, a nossa capacidade coloquial, portanto, dá muito jeito para os dias de hoje.

Quis aprofundar o conhecimento na comunicação.

Tive de fazer jornalismo, tive de me formar também na área. Sentia-me um bocado coxo (risos).

Em entrevista, o Hélder disse que gostava de ser o melhor empregado de mesa, mas quando foi estudar comunicação também o fez pelo mesmo motivo: queria ser o melhor.

Ainda agora quero. Quero ser sempre o melhor, mas não fico frustrado por não ser. Não tenho aquela obsessão perfecionista. Houve uma lição que levei para a vida. Estudei canto com uma professora alemã, daquelas puras e duras e então, às vezes enganava-me no início da canção e ela dizia-me: “Hélder, se se engana no início esqueça e continue a canção, senão toda a canção vai correr mal”. E é verdade! Se eu me enganar numa pergunta no início do programa, ou no nome do convidado, se ficar preso naquele erro, tudo o resto vai correr mal. Temos de dar a volta e não estar a pensar no erro que fizemos. Temos é de pensar no bem que podemos fazer à frente. Eu quero ser sempre o melhor, mas não estou preso a isso. Se eu não conseguir ser melhor do que sou agora, está tudo bem. Pelo menos tentei.

E tem-se sentido o melhor?

Tenho-me sentido bastante bom, honestamente. Digo isto com humildade e seriedade, porque também tenho trabalhado muito para sê-lo.

O Notícias do Meu País, da RTP, é o programa da sua vida?

Não sei, acho que o melhor da minha carreira está ainda para vir. Nos meus 45 anos, ainda acredito muito nisso. O Notícias do Meu País é um marco profundo na minha carreira porque era um programa muito exigente de se fazer, porque estive cinco meses a gravar fora de casa, porque a minha mãe na altura já estava doente e eu não sabia se voltava e ela não estava, porque senti o que é ter saudades e o que é trabalhar fora do nosso País. Partilhei histórias muito dolorosas. Tive de criar um balanço emocional muito forte. Foi um programa muito intenso e é um ótimo produto televisivo.

E o que gostava de fazer mais a nível televisivo?

Gostava muito de ter um programa de entrevistas com um grau elevado de intimidade e não necessariamente com figuras públicas. Um programa de histórias de vida, de honrar os portugueses. Temos gente incrível neste País, que faz coisas pelos outros e pelo empreendedorismo.

E o Hélder acaba por ser uma dessas pessoas, porque a juntar à televisão, tem a música, a escrita, a agricultura…

(risos) É verdade! Lancei há uns meses o livro Nação Valente. Escolhi esse nome porque foi escrito antes e durante a pandemia e foi promovido pós-pandemia. Queria dar uma força, uma injeção de otimismo a Portugal. Acaba por ser um guia de viagem para que não tenhamos sempre necessidade de ir ao telefone. Escrevo para toda a gente porque quero mesmo honrar Portugal com este livro.

E a música? Tem uma banda, os Pólen…

Agora com a COVID-19 estamos um bocado em standby. Tínhamos acabado de gravar um tema novo e um videoclip, mas decidimos pôr a música em standby. Continuamos a compor, a escrever temas novos e vamos ver.

Expressa-se de forma diferente através da música?

Sim, gosto muito de comunicar e tendo várias ferramentas de comunicação, chegamos a mais pessoas. Eu ali no palco, quando estou com os Pólen, interpreto, sou provocador, tenho menos filtros do que tenho de ter na televisão, porque ali eu sou um tipo de palco. As nossas letras são em português e por vezes com alguma provocação. Isso dá-me outra liberdade e brinco imenso e danço… É uma outra comunicação para um outro público.

E na agricultura, como faz essa comunicação?

(risos) Por acaso também comunico na agricultura. A empresa nasceu há cinco anos. Os meus produtos chamam-se Valle das Corujas. É uma empresa que comunica coisas com as quais me identifico muito. Fizemos questão de ter a empresa numa aldeia pequenina que se chama Mascarenhas, em Mirandela. A nossa comunicação é, essencialmente, para que as pessoas reduzam a quantidade de açúcar e consumam mais produtos de colmeia, porque apesar de ser um açúcar, é um açúcar mais saudável. Quero comunicar uma forma de viver mais saudável.

Como há tempo para todas estas atividades?

Com organização. Estive 12 anos no seminário e nós tínhamos horário para tudo. Da hora de acordar à hora de deitar. Havia tempo livre, mas mesmo esse tempo tinha horário. Portanto está em mim. Eu hoje quando for para a cama sei tudo o que vou fazer amanhã. Não sou o freak da organização, mas tenho as coisas planeadas e rodeio-me de uma equipa que me ajuda muito na organização.

Este ano, apesar de estar a ser muito bom a nível profissional, teve uma perda grande no início do ano (N.R.: morte da mãe). Como é que um homem de fé olha para a morte? O facto de ter estudado no seminário fez com que olhasse para a morte de uma forma diferente?

(pausa) Não, não me fez olhar de forma diferente. Devia fazer, mas não. Estudei e preparei-me que assim fosse, mas a realidade, no meu caso, foi outra. Apesar de a minha mãe ter 86 anos e ser insuficiente renal há muitos anos, que sabíamos que a qualquer altura podia ter um desfecho, nunca estamos preparados para perder e para lidar com a ausência. A minha mãe para mim é, e será sempre, a referência da minha vida. Perdê-la é perder a referência. A fé deveria dar-me alguma compensação, que está num lugar melhor, a olhar por mim… Isso é o que os padres e a igreja dizem. E eu digo: a verdade é que a minha mãe não está comigo e esta ausência ninguém substitui.

Como se colmata essa ausência?

Vivificando-a. Sabia que a minha mãe adorava ver-me na televisão, na Praça da Alegria. Todos os dias quando estou a apresentar o programa, antes de sair, eu tenho a fotografia da minha mãe junto ao Santo António e digo: “este também é para ti”. Foi uma lutadora, uma resiliente. Sempre que me queixava ela dizia: “Leva leve”. Tenho de dignificá-la naquilo que ela me ensinou.

Alguma vez pôs a fé em causa?

Muitas vezes. Ter uma fé com dúvida, para mim, sempre foi uma coisa muito construtiva. Não me assusta nada que a fé não compense a ausência da minha mãe. Agora dizerem-me que ela vai para um sítio melhor, isso a fé ainda não me deu.

O seu sucesso é dedicado a ela?

Sim. Tenho uma grande necessidade que tudo o que corra bem na minha vida possa dizer… este é para a minha mãe. Acho que não há uma hora em que não pense nela.

Perdeu-se um bom padre e ganhou-se um excelente apresentador, escritor, músico, agricultor?

(risos) Tecnicamente eu ia ser um bom padre, mas na fé, na essência, neste acreditar com poucas dúvidas digo, sem problema, que acho que a igreja desce pouco ao povo. Não ia ser um grande padre. Acho que sou francamente um melhor apresentador.

Isso significa que a decisão foi a mais correta?

Saí em 1999 e nunca tive um segundo de “e se…”. Nunca me voltei a ligar à igreja.

Mas frequenta a igreja?

Não! Vou quando está vazia, não vou quando está gente.

Porquê?

Porque estive tempo a mais no seminário. Encontrei o meu lugar com Deus na igreja naquele tempo, que respeito imenso, mas sozinho.

Sente-se mais próximo de Deus cá fora do que no seminário?

(pausa) Sim! Tive momentos muito felizes no seminários e não me arrependo de ter andado lá, deu-me imensa coisa, fez-me um homem diferente. Saí de casa com 12 anos, tornei-me homem muito cedo. Aprendi muita coisa. Sou um bom cidadão porque fui também seminarista.

Se pudesse descrever em apenas uma palavra a sua carreira, que palavra usava?

Perseverança. Tenho sido muito perseverante. Já tive muitas desilusões, muitas expectativas furadas. Às vezes há pessoas que tentam abanar um bocado a nossa carreira, mas eu fui sempre fiel a mim, acreditei em mim e acreditaram em mim. Não deitei a toalha ao chão, nem desanimei. É continuar a trabalhar e preparar cada entrevista com a maior dignidade como se fosse a primeira. Como se fosse a única e a mais importante de sempre.

Texto: Andreia Costinha de Miranda (andreia.miranda@worldimpalanet.com); Fotos: João Manuel Ribeiro

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