Herman José em EXCLUSIVO: «Sair da SIC e ir para a RTP era a única opção possível»

Herman José recebeu a TV 7 Dias nos bastidores de Cá Por Casa, da RTP1 e conversou sobre vários temas que não deixam ninguém indiferente.

09 Out 2020 | 14:35
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Herman José recebeu a TV 7 Dias nos bastidores de Cá Por Casa, da RTP1 e conversou sobre temas da atualizade, como a “guerra” de audiências, o envelhecimento e a morte, entre outros assuntos,  que pode ler na revista que está em banca.

Em baixo pode ler a continuação dessa entrevista, onde o artista fala de saúde mental, das zangas com Maria Vieira e Ana Bola, da forma como a SIC tratou a sua equipa nos anos 2000, entre muitas outras questões.

TV 7 Dias – Como define o seu programa, Cá Por Casa?

Herman José – É o não ir pela lei do menor esforço. Fabricamos um programa de humor dentro do programa, temos convidados, a componente de talk show e a componente de música ao vivo que acho muito importante. Na televisão portuguesa, hoje em dia, não há espaço para música ao vivo. Há muito espaço nos programas de fim de semana, para a música popular, que é sempre em playback e aqui é sempre ao vivo. Há um grande leque de convidados, coisa que não acontece nesses programas. Parece-me muito importante para um canal de serviço público. Não tenho nada contra o que os privados fazem, porque eles têm uma coisa, que é dar lucro aos acionistas. O Cá Por Casa é ter um canal público a fazer outro tipo de televisão, que marca a diferença.

Como olha para esta nova geração do humor?

Olho com encantamento e revendo-me neles quando tinha aquela idade. O César Mourão tem muito a minha escola. Ele nunca escondeu isso. Quando fiz o Hora H, na SIC, ele bateu-me à porta, eu abri essa porta e ele aprendeu muito, muito, muito. Ele faz isto maravilhosamente e está na altura altura certa de o fazer. À medida que o tempo for passando ele fará outras coisas que entenda que deve fazer. Cada idade tem as suas coisas. E quem não pensa nisso é muito infeliz, porque está sempre em perda. O Saramago começou a ser um best seller aos 60 anos. Eu nunca fiz tão bons espetáculos como agora. Os meus melhores espetáculos comecei a fazê-los perto dos 60. Nunca tive tão bom em palco como agora.

Mas nesses espetáculos é o Herman de agora ou inspirado no antigamente?

É este, que tem o domínio dos instrumentos, domínio do material, é um ótimo músico, tem um espólio de coisas passadas fantásticas. Os meus espetáculos ao vivo neste momento, são o melhor que fiz até hoje. O meu auge nesse aspeto está a ser agora a camimho dos 70. É muito curioso. Às vezes dizem-me: “Que bom era fazer de novo o Tal Canal”. Mas não posso fazer a Marilu. Não pode ser um senhor de 60 e tal anos aos pulos… Há alturas e coisas para ser.

«Se um dia me sentir infeliz há uma coisa muito boa chamada médicos e anti depressivos»

Tem-se falado muito de saúde mental… Quando olhamos para o Herman, nunca transmite a dimensão dos problemas. Já sentiu uma tristeza tão grande que o fez ficar muito mal?

Depende o tipo de tristeza, não é? Há tristezas que são domináveis, que têm a ver com as situações do dia-a-dia e que todas as pessoas vão, de uma maneira ou de outra resolvendo. E depois há outra, que é aquela que não se domina, que são as depressões. A depressão é uma coisa terrível, a morte de uma pessoa de quem se goste muito e de quem se dependa, o final de um romance… Esse tipo de coisas, eu felizmente não… A coisa mais forte que tive foi a morte do meu pai, que felizmente consegui que tivesse alguma lógica porque ele já ia a caminho dos 80.

Mas acredito que já tenha ficado em baixo com alguma destas situações…

Nos problemas pragmáticos do dia-a dia,  sou muito alemão a pensar neles. Não sou nada dramático. Assumo, sofro com eles, mas não me ponho como uma carpideira. Nada disso. Sou super frio. E em relação às outras coisas, acho que sou igual aos outros seres humanos. E se um dia me sentir infeliz há uma coisa muito boa chamada médicos e anti depressivos que fazem milagres. Às vezes basta um comprimido que desligue a ânsia, para se ver a vida com outra serenidade. É para isso que a medicina evoluiu, para que a utilizemos sem complexos. As pessoas acham que quanto menos tomarem, mais puras e saudáveis estão a ser, o que é um puro disparate.

E nas desilusões com amigos, também é muito alemão?

Aí ainda sou pior… Porque estou sempre à espera do pior. Espanta-me é quando as pessoas são boas e quando são queridas.

«Fomos muito maltratados pela SIC»

E no caso da Maria Vieira? Estava à espera do pior?

No outro dia, curiosamente estávamos à mesa com os colegas e por causa do comício do Chega, veio à baila a Maria Vieira. Todos nós fomos unânimes em achar que ela tem todo o direito em gerir a sua vida como entende. Por que é que ela há de sem diferente na necessidade de dar satisfações às pessoas que passaram pela vida dela? Está completamente no seu direito. Acho de uma sobranceria ridícula dividir-se a humanidade em “boa” e “má” e depois os bons estão do lado de cá, criticam os malvados que estão do lado de lá. O mundo não é a preto e branco. Cada um tem o direito e as suas razões para tomar as atitudes que toma. As atitudes da Maria têm tido, obviamente um preço porque são muito marcantes. É mais fácil a pessoa não tomar atitude nenhuma e passar pelos pingos da chuva. Isto para dizer que no nosso grupo, não lhe temos qualquer animosidade. A única coisa que torcemos é que ela seja feliz com a sua opção, que esteja perto da sua felicidade na opção. Imagino que para uma atriz é doloroso neste momento não estar a trabalhar.

Têm falado?

Não, não. Da mesma forma que não falo com outras pessoas. Passam-se meses que não falo com o Vítor de Sousa que adoro. A classe artística não é propriamente uma família que se contacte. Eu adoro a Maria Rueff e durante as férias passa-se tempo em que não falamos. Não há obrigações de estarmos em contactos. Da mesma forma que não falo com outras pessoas… Não é um caso à parte, a Maria.

E a Ana Bola? Como está a vossa relação?

Há muitos muitos anos que está tudo bem. Tivemos um pequeno desaguisado em 2007. Já lá vão 13 anos e teve também a ver com o cansaço da altura em que se vivia, porque fomos muito maltratados pela SIC na altura e andávamos todos muito desesperados. Foi na altura do Hora H.

Tem mágoa em relação à SIC?

Não, não tenho mágoa nenhuma. Tive uns anos absolutamente notáveis. Aqueles primeiros quatro, cinco anos foram de glória absoluta e depois talvez devesse ter recuperado a minha lógica RTP um bocadinho antes. Acho que tive tempo demais fora.

Ir da SIC para a RTP foi melhor opção que tomou?

Para mim era a única opção possível. Eu não podia fazer o trabalho em que acredito na lógica concorrencial das privadas. Verdadeiramente, o meu produto não é para ser feito em constante concorrência e em contra relógio a ver quem é que chega à frente e quem não chega.

«Sou muito, muito bom no palco e sou muito intergeracional»

E se o Cá Por Casa terminar?

Espero que assim que houver vacina e assim que eu volte aos espetáculos, a televisão volte a ter o lugar que sempre teve, que é quase de um extra, não é? Porque eu antes do confinamento, devia ser dos artistas portugueses que mais espetáculos fazia.

Então gosta mais dos espetáculos do que da televisão?

Acho que se complementam. Adoro fazer televisão e os espetáculos não substituem a alegria de estar a fazer um programa, mas são muito importantes. Para mim é-me terrivelmente importante o privilégio de poder voltar à estrada. Preciso mesmo. É verdadeiramente fascinante e é naquilo que sou melhor. Sou muito muito bom no palco e sou muito intergeracional. Tenho noção que é realmente aquilo que eu faço melhor.

Se olhasse para trás que conselho dava aos Herman dos anos 80 e 90?

Fazia uma lista de coisas a evitar. Não era gigantesca, mas era uma lista… Não repetia erros.

Sente-se numa fase feliz da sua vida?

Neste momento para recuperar a felicidade faltava a vacina para a Covid. Enquanto se mantiver este estigma não me posso considerar uma pessoa feliz. Cansa-me. Porque é uma coisa que está connosco todos os dias. Não poder abraçar, não poder beijar… é-me muito evasivo e eu tenho a felicidade máxima de viver no campo, onde não se sente tanto. Se eu não vivesse no campo ia passar muito mal.

Que convidados gostaria de ter no Cá Por Casa?

Nacionais, nenhuma de especial. Internacionais? Centenas.

Nem a Cristina Ferreira?

Faria imenso sentido se ela não tivesse um contrato exclusivo.

O que gostava de lhe perguntar?

Não tenho qualquer tipo de tabus com ela.

Texto: Andreia Costinha de Miranda; Fotos: Helena Morais

 

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