Herman José em grande entrevista: “Já tive a minha fase Cristina Ferreira”

Numa conversa sem tabus, Herman José fala de Cristina Ferreira, da guerra das audiências entre as estações privada, dos projetos futuros, do envelhecimento, da morte e de arrependimentos.

18 Out 2020 | 16:10
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TV 7 Dias – Já estão a gravar o “Cá Por Casa”, da RTP1, em estúdio, mas o confinamento devido à COVID-19 veio interromper o ritmo de trabalho…

Herman José – Sim. Escrevia o guião, cada ator fazia o seu papel e era muito giro porque parecia que estávamos uns com os outros. Eram programas de 40 minutos. Fizemos cinco “Diários de uma Quarentona” e correram lindamente.

A altura da quarentena serviu para que aprofundasse outras áreas, como, por exemplo, o Instagram…

Nunca considerei as redes sociais um instrumento de trabalho, era só um passatempo, uma brincadeira.

Mas é também uma forma de cativar público mais jovem…

Nunca me preocupei com essas histórias das gerações. Acho um erro tremendo o pensamento bacoco de “vamos fazer coisas para jovens”. Quando são boas, são intergeracionais.

E como se faz 15 segundos de humor no Instagram?

É muito engraçado, porque é um exercício muito infantil, mas ao mesmo tempo uma prática. Começámos aos poucos a formatarmo-nos para o timing. Lembro-me, quando era novo, que ficava espantado quando via as notícias nos EUA. O timing das pessoas. Elas não eram chatas. Resolviam uma pergunta em duas frases e depois fechavam. E em Portugal ainda não chegámos a essa fase. As pessoas falam e falam e andam ali às voltas. Não têm ainda o dom da síntese. E esse dom da síntese nos 15 segundos é um desafio muito giro e é didático.

Podemos até comparar este tipo de humor com o d’”O Tal Canal”?

“O Tal Canal”, para a altura, já era um programa rapidíssimo. Na altura, quando ainda se faziam sketches de oito ou dez minutos, já “O Tal Canal” tinha 20 pontos de alinhamento. Nesse aspecto, acho que fui muito à frente do meu tempo e tenho algum orgulho nisso, porque há muitas coisas onde estive à frente do meu tempo.

Tem saudades de ver a televisão um pouco “mais à frente”?

Não, tenho saudades é dos momentos bons de outras épocas, mas não há nenhuma grande época para a qual voltasse. Voltava era a não cometer erros que cometi em certas épocas.

Como por exemplo?

Negócios. Um artista não pode ser negociante. Por volta dos 40, quando se tem sucesso, achamos sempre que vamos ser grandes empresários. Não vamos nada! Vamos só criar dores de cabeça.

Então arrepende-se de ter aberto o Café Café…

Fui completamente idiota em aceitar fazer parte da sociedade. Como foi uma estupidez ter-me rodeado de alguns profissionais nos quais confiei demais. Não se pode confiar totalmente nas pessoas. Tem de haver o chamado controlo de qualidade, portanto tenho alguns desgostos. Tive um tipo que me roubou muito e foi condenado… Se eu tivesse tido um bocadinho de atenção, não teria acontecido…

De que forma olha para a televisão hoje em dia?

Já tive a minha fase Cristina Ferreira, quando fui para a SIC, em 2000, e não tenho nem saudades nem inveja, porque já não teria saúde para tão grandes responsabilidades. Por isso é que sou tão feliz na RTP. Também acho que há uma altura e uma idade própria, e disse isso à Cristina. Há uma idade própria para a pessoa se ralar. É precisamente a fase em que ela está. A saúde aguenta, a pele está ótima, os cansaços são superados…

E como é que vê o crescimento de Cristina Ferreira e do que está a criar na TVI?

Nós não dominamos sozinhos os processos… A mim saiu-me a sorte grande quando um dia o Governo aprovou a televisão privada e o José Eduardo Moniz me pôs a ganhar lindamente na RTP para eu não ir para a televisão privada. Fui, nessa altura, usufrutuário de certas circunstâncias. E foi por isso que, de repente, na televisão passei a ser pago disparatadamente, porque ia nascer a concorrência. A Cristina está no epicentro de uma “guerra” entre dois canais. Aconteceu-lhe o que me aconteceu, porque, tanto num lado como no outro, há pessoas em luta para tornarem o seu negócio um negócio líder. E a pessoa vai atrás das propostas e dos encantamentos. E ela teve o seu mérito. Construiu na SIC um espaço líder interessantíssimo, é uma grande e incansável trabalhadora e, neste momento, está dentro de uma tempestade que não foi ela quem criou, foi o próprio mercado.

Quem ganha nesta “guerra”? Daniel Oliveira ou Cristina Ferreira?

Aparentemente, toda a gente está a ganhar, no sentido em que o Daniel tem provado extraordinárias capacidades de reação. Não perde o sangue-frio, mantém a competição muito competitiva e muito bem gerida. Por outro lado, a Cristina prova que não tem medo de lutar e que está a usar todas as armas que tem e domina para ser bem-sucedida.

A polémica à volta de Cristina tem a ver com o facto de ser mulher?

Não, tive uma fase parecida nos anos 2000, quando saí da RTP para a SIC, e tive o mesmo tipo de reações. O género hoje em dia já não é discussão, sinceramente.

O Herman foi capa de revistas, mas não houve um “burburinho” com esta dimensão. Não podemos esquecer que hoje existe Internet e redes sociais…

Há sempre uma coisa chamada inveja. Que é completamente humano.

Sentiu inveja em relação a si?

Ainda hoje sinto que tenho de ter cuidados porque sempre que demonstro felicidade a mais há uns anticorpos que se levantam. É engraçado porque antigamente era porque era novo e bonito e, portanto, é o potencial jovem que nos roubaria a namorada ou algo do género. Hoje em dia sinto inveja ao contrário. “Olha este! Já estava na altura de se reformar, de estar careca, de ser infeliz e, afinal, tem cabelo, faz televisão e tem sucesso”. É algo muito humano. Não estou a dizer isto com nenhum ressentimento. A mim, o que me espanta cada vez mais é a bondade. Fico doido com pessoas boas. Apetece-me pegar nelas, emoldurá-las e levá-las para casa.

Se o convidassem, sairia da RTP?

Por nenhum dinheiro sairia da RTP neste momento, porque já tenho uma idade em que nenhum dinheiro me pagaria o desconforto. Eu não posso deixar que estes últimos anos que me faltam sejam feitos a sofrer. Há um momento da vida em que chegamos em que as coisas verdadeiramente importantes não têm preço. A saúde, o dormir bem, a serenidade, a felicidade artística… Quando digo isto não é com desprimor pelo trabalho dos privados, que é das coisas mais difíceis que existe.

Mas recebeu ou não algum convite?

O convite tinha de ser utópico. “Vens para aqui, mas não precisas de ser julgado pelas audiências”. O que é contrassensual num canal privado. Não poderia ser feliz a fazer um programa cujo critério de avaliação fossem números.

Então assiste de camarote a esta guerra de audiências…

De camarote e com interesse. Tanto que uma das coisas que mais me diverte é depois caricaturá-las e pô-las na televisão com os meus queridos colegas.

Como tem sido brincar com este fenómeno nas redes sociais?

Sempre brinquei com gente famosa. Quero que os meus visados se riam comigo e se divirtam a ver. Não quero nunca que o meu humor seja agressivo ao ponto de causar mal-estar nas pessoas.

Se mandasse, o que mudava na televisão em Portugal?

Hoje em dia, a oferta é de tal maneira grande que esse mercado se autorregula. Eu não tiraria nada para mudar, mas há coisas que eu tornaria mais interessantes. Sou viciado no noticiário da NBC. Tem 20 minutos. Os noticiários não precisam de ter duas horas. Acho piada à agilidade da televisão americana. A televisão portuguesa, nesse aspecto, é um bocadinho preguiçosa. Mudaria isso. A televisão portuguesa ficou demasiado dependente das novelas e isso é muito bom para os atores, mas a novela em Portugal tornou-se uma espécie de eucalipto. Seca tudo o que está à volta… às tantas, todo o prime-time está subjugado à novela.

E se tivesse um convite para entrar numa novela?

Já fui convidado para uma novela na SIC, há uns anos. E fiquei muitíssimo lisonjeado com o convite. Era-me impensável fazer na altura, porque com a história dos espetáculos não posso comprometer-me, mas é uma coisa que me vejo a fazer daqui a uns anos. Quando não tiver já cara para apresentar.

Que tipo de papel gostaria de fazer?

Se eu tiver saúde, memória e arte aos 80 anos, vou adorar fazer como faz o Ruy de Carvalho. Um bom avô, um criminoso… Desde que seja servido pela idade que eu tenha na altura…

Está a custar envelhecer?

A passagem do tempo não é uma doença, mas é uma inevitabilidade para a qual nos temos de preparar com muita inteligência.

Pensa muito nisso?

Claro. Obviamente que sim!

Tem medo de morrer?

Nenhum. Não tenho medo de morrer, mas medo do sofrimento e da decadência. Acho que devíamos ter direito a acabar a vida quando quiséssemos.

Que balanço faz da sua carreira…

Para se ter uma boa carreira tem de se ter talento, que eu tenho, uma grande capacidade de trabalho, que eu também tenho, sem dúvida, e uma coisa que nós não dominamos, que é a sorte. Isso nós não dominamos e saíram-me várias sortes grandes na vida. A primeira sorte grande chamava-se Nicolau Breyner, que me arrastou para trabalhar com ele. Outra sorte chamava-se César de Oliveira, um autor que me ajudou imenso. O Carlos Paião seguramente, o Pedro Osório, o José Niza, que impôs “O Tal Canal” quando toda a gente achava que não podia ser. O José Eduardo Moniz nos anos 90, sem dúvida. Mais recentemente, não posso deixar de estar grato ao José Fragoso. É pelas mãos dele que eu venho para a RTP em 2010. Ah! E o Emídio Rangel. Ele adorava-me. Aqueles primeiros anos de “Herman SIC” foram uma coisa inacreditável.

Os anos 80 e 90 foram os seus anos mágicos?

Os anos 90 são geniais. São verdadeiramente especiais.

Como gostava de ser recordado?

É-me indiferente. Eu só me importo com o presente em que eu estiver a assistir. Tenho a certeza absoluta e profunda que nós acabamos quando acabamos. E a partir do momento em que nós acabamos eu quero é que se lixe.

Tem contrato com a RTP?

Tenho, os contratos são renováveis de dois em dois anos, e devemos estar a meio de um deles. Pretendo continuar cá, sem dúvida. Este “Cá Por Casa” é um formato que tem tudo.

O que acharia interessante fazer se este formato deixasse de fazer sentido?

Hoje em dia, com tudo o que vivi, tudo o que conheço e com a experiência que tenho, poderia sempre fazer um belíssimo programa de entrevistas daqueles de final de noite. Não forçosamente na RTP1, até poderia ser na RTP2. Daqueles profundos e longos.

E quem gostava de entrevistar?

Toda a gente! Qualquer pessoa com vida e com interesse pode ser gira.

 

Texto: Andreia Costinha de Miranda (andreia.miranda@worldimpalanet.com); Fotografias: Helena Morais

 

(entrevista originalmente publicada na edição nº 1752 da TV 7 Dias)

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