Hugo Sousa foi pai “muito tarde” e assume: “Ainda não me consegui adaptar totalmente”

Com mais de 20 anos no humor, Hugo Sousa é o novo reforço da novela da TVI “Festa é Festa”, na qual interpreta o papel de um vendedor de frangos que promete agitar ainda mais a Aldeia da Bela Vida.

16 Ago 2021 | 9:03
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TV 7 Dias – Como é que surgiu o convite para “Festa é Festa”?

Hugo Sousa – Recebi um telefonema da Plural a dizer que precisavam de uma personagem para a novela que fosse alguém da área do stand-up e que gostasse de comer e de churrascos. Eu sou a pessoa perfeita para isso. Churrascos são a minha vida. Este trabalho é a minha cara e aceitei de imediato.

Como está a correr a experiência?

Comecei há três semanas, mas depois tive de fazer uma paragem forçada por causa da COVID-19. Depois tive de esperar que o teste desse negativo para voltar. Tive dores no corpo e na cabeça, mas felizmente não passei muito mal.

Que papel interpreta?

Faço o Luís Aves, sou vendedor de frangos da Lusiaves e sou um primo do Bino que veio do Norte trabalhar para esta zona. Tenho umas características muito específicas, digamos que sou um javardão e que digo umas piadas muito más, mas o meu primo adora-me e só ele é que se ri. Mas ninguém acha piada, só ele e eu. Anda a dizer a toda a gente maravilhas de mim, mas depois as pessoas percebem que eu sou um grande cromo. Vai ser uma grande festa.

Como está a ser contracenar numa novela com o Pedro Alves? Ele dá-lhe dicas?

Está a ser muito bom, já o conheço há uns 20 anos. Começámos na comédia mais ao menos na mesma altura e a relação que a minha personagem tem com a dele é muito parecida com a que eu tenho com ele na vida real. Eu insulto-o muito e ele a mim, mando-lhe muitas bocas. Em cada insulto há um carinho. O Pedro Alves é um dos segredos de sucesso da novela. O papel dele encaixa na perfeição nisto.

Já via a novela? Acredita que o humor é a chave do sucesso de “Festa é Festa”?

Já via e gostava bastante. Sem dúvida que o humor é o elemento diferente do habitual. É uma coisa mais levezinha e tem um espírito mais positivo, que acho que é o que as pessoas precisam nesta fase da pandemia. As pessoas querem é rir e ver coisas que as façam felizes.

É a sua estreia numa novela. Gostava de repetir?

É, para já estou a gostar, mas é uma coisa completamente diferente de tudo aquilo que já fiz até agora. Já fiz sitcoms, participações em filmes e a forma como se grava uma novela e a mecânica da coisa é muito diferente. Se surgisse outra oportunidade aceitava, desde que fosse neste registo.

Um papel dramático não aceitaria?

Não, tem de ser sempre virado para a comédia, não fazia sentido fazer um papel mais sério. Eu gosto do rótulo da comédia, foi para isso que eu trabalhei, para ter piada e fazer a malta rir.

A pandemia afetou todas as áreas. Como sentiu isso no stand-up?

Tive dois períodos sem espetáculos, mas entretanto já retomaram, com lotações limitadas. Mas não me posso queixar muito. Há 20 anos que vivo da comédia, não faço mais nada. Tirei um curso superior para a minha mãe ficar feliz, licenciei-me em Desporto e Educação Física. Depois voltei a fazer o que eu gosto. Na faculdade já se podia dizer que era um profissional da comédia. Tinha 23 anos. O último ano foi difícil de acabar porque já andava a fazer espetáculos pelo País e tinha o estágio e a faculdade. Pensei em desistir muitas vezes, mas a minha mãe dizia-me que não podia, tinha de acabar e depois podia fazer o que quisesse. Não me arrependo de ter acabado o curso, as mães têm sempre razão.

Tem alguma referência no humor a nível internacional? E nacional?

Gosto de vários, como o Jim Jefferies e o Dave Chappelle. Quando comecei a fazer comédia foi no “Levanta-te e Ri”, em 2003, e as minhas referências eram as pessoas com quem eu trabalhava, não tínhamos referências na Internet, na altura ainda nem havia YouTube a bombar em Portugal. Eram o João Paulo Rodrigues, Pedro Alves, Fernando Rocha, Francisco Meneses, João Seabra, Carlos Moura, Miguel Sete Estacas

É difícil viver só do humor em Portugal?

Não quero estar armado ao pingarelho, mas para mim nunca foi muito difícil. Tive um bocadinho de sorte por causa do sucesso do “Levanta-te e Ri”, mas depois tive de continuar a trabalhar. Há muitas pessoas que foram lá e nunca mais se ouviu falar deles. Era uma coisa que eu queria muito e dediquei-me a 100 por cento. Tenho 41 anos e comecei a fazer disto vida desde os 23.

Em que fase da sua vida decidiu que este era o caminho?

Na escola eu era uma mistura de acanhado com engraçadinho. Não era muito palhacinho, mas gostava de mandar as minhas bojardas. Desde miúdo que gostava de contar anedotas, logo ao seis, sete anos gostava de provocar o riso às pessoas. Mas aos 16, 17 anos nunca imaginei que podia viver só disto, não havia muitos humoristas na altura, só o Herman José, o Nicolau Breyner ou o Raul Solnado. Hoje em dia os miúdos já dizem que querem ser como o Ricardo Araújo Pereira ou o Bruno Nogueira.

Já viveu alguma situação desagradável por alguém se sentir ofendido com as suas piadas?

Sim, já tive algumas situações. É normal que quem ande à chuva se molhe. Já tive algumas vezes em que as pessoas se sentiram ofendidas, mas nós aceitamos isso. Faz parte do trabalho de humorista, como um jogador de futebol falhar um golo, acontece sempre. Aceito isso bem.

Há algum tema que seja tabu nos seus espetáculos ou tudo pode ser ironizado?

Há assuntos que não toco porque não são o meu estilo, não gosto de fazer piadas de atualidade, nem de futebol. O futebol é um assunto que eu não gosto muito e as pessoas ficam muito chateadas e ofendidas. Às vezes é pior falar de futebol do que das mães deles. Gosto muito de contar histórias e fazer humor de observação.

A sua família costuma assistir aos espetáculos?

De vez em quando os meus pais assistem, mas eu não gosto muito. Fico constrangido porque sei que a minha mãe não gosta de determinadas coisas. O meu target não são senhoras de 60 anos e sei que a minha mãe fica incomodada com os palavrões. Quando ela está num espetáculo, eu nem preciso de estar a vê-la para saber o tipo de reação que ela está a ter. Acaba por interferir um bocadinho.

Tem uma filha com um ano. O que mudou desde que foi pai?

Mudou muita coisa. Tenho muito menos tempo para fazer as minhas coisas, incluindo para trabalhar em casa. Era bom não ter horários para escrever e criar, e agora é tudo à vontade da Maria Francisca, ela manipula tudo, coitadinha. Fui pai muito tarde, aos 40 anos, e parece que uma pessoa cria hábitos durante tanto tempo e aparece uma criança lá em casa que baralha aquilo tudo. Confesso que ao final de um ano ainda não me consegui adaptar totalmente, mas ando a trabalhar para isso. A minha mulher é dez anos mais nova do que eu e trabalha como dentista. Também tem a vida dela. Tentamos conciliar, entre nós e os meus pais, para a minha avó. Ainda não temos a coisa totalmente adaptada. Em setembro ela vai para o infantário e até lá temos de ter muita paciência. Mas adoro ser pai.

Há alguma figura nacional a quem gostasse muito de fazer um roast?

Já fizemos dois: ao José Castelo Branco e ao Toy. Ao Rui Reininho fizemos um que não foi transmitido e foi muito fixe. Ao José Carlos Pereira, porque não? O espírito do roast é o homenageado levar muito pontapé e muito murro, mas se eles encararem aquilo na desportiva é na boa. Eles no final também podem “limpar o sebo” aos outros quando pegarem no microfone. No final ficamos todos amigos, é uma brincadeira. Gosto muito do formato do roast. O Toy estava a adorar aquilo, já o Castelo Branco parecia apático.

Uma das suas colegas nesses roasts foi a Ana Garcia Martins, mais conhecida por A Pipoca Mais Doce. Já conhecia o talento dela para o humor?

Conheço a Ana há muitos anos e não me surpreendeu porque este tipo de humor é a cara dela. Ela já faz isso nas redes sociais. Esteve muito bem.

O humor é a solução para todos os problemas?

Para uma dor no joelho não, mas para muitos é. O humor faz muito bem à saúde mental.

 

Texto: Neuza Silva (neuza.silva@impala.pt), Fotos: Arquivo Impala e Divulgação TVI

 

(entrevista originalmente publicada na edição nº 1795 da TV 7 Dias)

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