Inês Lopes Gonçalves: «Com a maternidade, tem-se muito menos certezas! E mais medos»

Leia a segunda parte da entrevista de Inês Lopes Gonçalves à TV 7 Dias, na qual a apresentadora fala dos gémeos, cujos nomes não revela, e da possibilidade de se casar com o companheiro de uma década

20 Abr 2019 | 22:50
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A RTP é mais do que uma sala de estar para Inês Lopes Gonçalves. É como uma segunda casa. Mas foi numa sala de estar da sua segunda casa que a apresentadora e locutora de rádio aceitou falar. Naturalmente. Sem rodeios. Descomplicada. De mão na cabeça, encostada ao sofá – sinais, ou não, das poucas horas de sono.

E privilegiada. Privilegiada por aprender semanalmente com Filomena Cautela no 5 para a meia-noite (RTP1). Privilegiada por ser a irmã mais nova do Traz prá Frente (RTP Memória), mas que impõe regras, apesar da idade. E privilegiada por, mesmo com tantos projetos em crescendo na antena da televisão pública, conseguir conciliá-los com a paixão pela rádio.

Eis Inês Lopes Gonçalves. Mãe de gémeos e sem pressa para repetir a experiência. Trinta e sete anos e sem medo dos 40. À conversa com a TV 7 Dias.

 

Veja aqui a primeira parte da entrevista.

 

O país ficou a perder com menos uma jornalista ou a ganhar com uma comunicadora em várias vertentes?
Olhe, boa pergunta que me faz! [Longa pausa]

Faço-lhe outra pergunta: tem saudades do jornalismo?
Às vezes, tenho. Não é uma coisa que eu diga perentoriamente: ‘Ah, ainda bem que deixei’. Acho que esse lado convive em mim hoje em dia.

Mas tem saudades do quê?
Olhe… Sabe que às vezes temos aquela ideia de ‘ah, aquilo no meu tempo é que era bom’. E, às vezes, não é o tempo que era bom, nós é que éramos mais jovens, ou mais felizes, ou mais… Eu tive uma sorte inacreditável de começar a ser jornalista na Rádio Renascença, que era uma escola de rádio e jornalismo fora de série, com pessoas muitíssimo boas. Portanto, se a minha experiência no jornalismo, no início, tivesse sido outra, se calhar não estava a falar com este saudosismo e com este encanto. Não sei se tenho algumas saudades do jornalismo ou da época muito feliz em que vivi o jornalismo. Mas acho que estou melhor aqui onde estou.

 

Filomena Cautela? «É fora de série»

 

E a rádio continua a ter um encanto…
[Interrompe] Sempre.

… que não encontra na televisão?
Ah, ok! É completamente diferente. A rádio é muito mais imediata. É imediata em tudo: na maneira como a ouvimos e na maneira como a fazemos. A rádio precisa de muito gente, a televisão precisa de muita ]arrasta a palavra] gente. Talvez seja mais impessoal. É mais postiça, talvez. Eu própria ainda estou a aprender muito. E aprendo imenso com a Filomena, que ela nisso é fora de série. Fora de série mesmo! Ela sabe fazer televisão muitíssimo bem, de uma forma que as pessoas nem têm noção. Ela consegue aperceber-se de tudo o que se está a passar à volta dela: as câmaras, a luz… Coisas em que, em todas as semanas, fico a olhar, a tentar registar mentalmente e a achar que nunca vou ser capaz de ser assim. São muito anos disto. Quanto à rádio… Levantamos um botãozinho e dizemos ‘bom dia’. Só temos a nossa voz e uma orelha do outro lado. E isso é muito quentinho. Não é comparável.

Deixar a rádio não faz sentido para si neste momento?
Para já, não me faz sentido algum.

 

«Não vivia obcecada com a ideia de ter filhos»

 

A que cheira a tua infância?
A que cheira a minha infância? Que bela pergunta! Cheira-me a pão com marmelada. Cheira-me a pão com marmelada e a sopa da escola. O cheiro a sopa da escola, que era uma coisa boa… Eu, ao contrário da maior parte das crianças, adorava a escola. Sempre adorei. Sempre. Pelo convívio com as outras pessoas.

E o pão com marmelada vem de onde?
O pão com marmelada era uma constante, porque, se não estávamos em casa da minha avó, a marmelada da minha avó vinha até nós. Ela estava em todo o lado. Cheira à casa da minha avó em Braga, também. Cheira a rua.

Avó materna ou paterna?
Avó materna. Passava todas as férias lá.

E já voltou a sentir esses cheiros na idade adulta?
Acho que esses cheiros de infância não se repetem muito. Mas o da sopa, às vezes, sim. O cheiro dos corredores do colégio, que foi uma altura super feliz da minha vida. Vibrava tanto com a escola.

Era uma ótima aluna?
Não. Não era má… Gostava da escola porque aquilo era muito fixe, tinha pessoas, tinha amigos. Ficava numa excitação. Na véspera de as aulas começarem, eu mal dormia de contente que ficava por ir para a escola. … Era aquela clássica aluna. Levava recadinhos para casa que diziam: ‘Se não falasse tanto nas aulas, poderia ser muito melhor aluna’. Acho que isso resume bem o meu percurso escolar [risos].

Já me disse que era péssima em datas. Se lhe perguntar qual é a mais importante, consegue dizer-me sem hesitar?
A data mais importante da minha vida… [pausa] Obviamente que o nascimento dos meus filhos, em 2015, foi uma data muitíssimo importante na minha vida. E provavelmente uma de que não me vou esquecer [risos]. Convém!

Sempre foi um sonho ser mãe?
Não era um sonho, uma coisa obsessiva, mas era uma coisa que eu… Como tenho [dois] irmãos mais novos – e a minha irmã é bastante mais nova do que eu – sempre convivi com fraldas e chuchas lá em casa.

Tinha um instinto maternal com a sua irmã [13 anos mais nova]?
Tinha, tinha. E, mesmo em relação aos bebés dos outros, sempre gostei muito deles. Mas não vivia obcecada com a ideia de ter filhos. E agora, desde que tenho filhos, percebo imenso as pessoas que não querem ter filhos. Percebo perfeitamente. Isto é muito duro [ironiza e ri-se]. Não durmo há quatro anos, sou uma pessoa privada de sono. Não devia responder a perguntas sobre isso até eles dormirem uma noite toda [volta a rir-se].

 

Nome dos filhos? «Gosto de os manter arredados desta vida»

 

Quando lhe disseram que ia ser mãe de gémeos [fruto da relação com o músico Ivo Costa]…
… Ah, achei ótimo! ‘Que giro, que divertido!’

Não teve medo?
Não! Olhe a inconsciência! Achei que ia ser super divertido. Tenho sempre um pouco a mania de que consigo tudo e controlo tudo e acho que nada me confrontou mais com a ideia de que não, não está tudo controlado como quando os meus filhos nasceram. Às vezes, as coisas fogem da mão e fogem do controlo. Com um filho, pelo que dizem, já é assim, com dois a coisa sai um bocado dos carris. Mas é muito giro. E ser mãe de rapazes é muito giro e um grande desafio também.

Eles são gémeos falsos, certo?
Falsíssimos. Completamente diferentes.

O que é que cada um tem de si?
Um deles tem uma característica… Coitadinho… Ai! Tem muito mau feitio quando tem sono e quando tem fome, que é uma coisa em que saiu muito à sua mãezinha [risos].

Como é que eles se chamam?
Preferia não dizer… Gosto de os manter arredados desta vida, porque eles têm direito à sua própria existência. Depois logo veem se querem ser mais ou menos filhos desta mãe [risos].

E o outro, o que tem de si?
O outro herdou as parecenças físicas. Mas ainda estou a descobrir. E há uma coisa muito engraçada nos gémeos: uma pessoa conseguir olhar para eles como seres individuais que são.

Esse é o maior desafio da maternidade?
Sim. Acho que precisamos muito de olhar para os nossos filhos e lembrarmo-nos de que eles são pessoas. Isto pode ser uma frase palerma, mas acho que não.

E que não são uma parte de si, no caso.
Precisamente. Têm a sua própria existência. E os filhos, às vezes, não são aquilo que nós gostaríamos. Nós passamos muito tempo com uma espécie de filtro nos olhos e não olhamos… E eu tento fazer um esforço para ver os meus filhos.

Sempre teve essa noção ou só a adquiriu depois de ser mãe?
Só depois de sermos pais e mães é que nos apercebemos disso. Quer dizer, desde que eles nascem que nos dizem coisas. Eu, se calhar, é que não ouvi muitas coisas que eles me disseram quando nasceram. E, se calhar, podia ter tido mais atenção, só que nós vamos cheios de ideias feitas, com os ouvidos cheios daquilo que nos dizem.

 

Casamento? «Não é uma coisa com que sonhe»

 

Com a maternidade, tem-se mais certezas ou mais medos?
Eh pá, muito menos certezas! E mais medos.

Que certezas e medos são esses?
Tenho a certeza de que uma pessoa nunca mais dorme muito bem. Isso é certo. Medo… de tudo [risos]. De facto, quando uma pessoa tem filhos, o medo é algo que passa a fazer muito parte do dia-a-dia. Medo de não estar, de não conseguir, de não ser suficiente, de não estar à altura de. A ideia é ir tentando ultrapassar isso no dia-a-dia.

Sente que mudou a partir do momento em que foi mãe? Houve um clique?
É uma mudança muito grande na vida, [mas] não mudei imenso. Acho que sou um bocadinho a mesma pessoa, não acho que tenha mudado muito.

E repetir a experiência?
Calma [prolonga a palavra]! Vamos com calma. Não sei. Para já, não. Estamos bem assim.

E casar-se, pensa?
Não, também não penso.

Estão juntos há quantos anos?
Dez, 11.

Não pensam em oficializar a relação?
Não. Assim de repente, não é uma coisa com que sonhe.

Nunca sonhou com o casamento?
Não. Quem sabe um dia. Nunca digo que não a nada. Quem sabe um dia nos encontremos mais tarde e eu esteja com dez filhos e casada… pela terceira vez [risos]. Não faço ideia. A vida dá tantas voltas.

 

«Sou um bocadinho obcecada pela antecipação»

 

É uma mulher mais racional ou emocional?
[Pausa] Bela pergunta [nova pausa]. Acho que vou ter de responder mais racional. Acho que sim…

Previne mais do que remedeia?
Antecipo mais do que… Não é tanto remediar, mas sou um bocadinho obcecada pela antecipação. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Seja preparar-me muito para uma determinada coisa, ou sofrer muito por antecipação por essa coisa também.

É assim também na profissão?
Um bocado. Sobretudo, na profissão.

Pronta para enfrentar os 40? Com medos ou receios?
Não, não penso muito nisso. Claro que a pessoa vai começando a andar e a perceber que afinal não é imortal. Ainda não comecei a ler coisas assim [pega na agenda e afasta-a do seu campo de visão], o que é um ótimo sinal. A idade – é um bocado aquele clichê – está na cabeça. Às vezes, também está nas pernas. E nas costas [risos]. Mas não penso tragicamente sobre isso. Não tenho nada aquela ideia de que vou fazer 40 anos e estou acabada. Eu quero acreditar que não, porque… Bolas! Há tantas coisas fixes para se fazer.

E o futuro adivinha-se risonho?
O presente é muito risonho. Portanto, espero que o futuro seja às gargalhadas.

 

Texto: Dúlio Silva

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