Inês Lopes Gonçalves: «Já está na hora de o presidente Marcelo ir tirar selfies ao ‘5’»

Inês Lopes Gonçalves concede uma entrevista exclusiva à TV 7 Dias, ela que se tem revelado uma das apostas mais consistentes da RTP no entretenimento.

11 Abr 2019 | 22:20
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A RTP é mais do que uma sala de estar para Inês Lopes Gonçalves. É como uma segunda casa. Mas foi numa sala de estar da sua segunda casa que a apresentadora e locutora de rádio aceitou falar. Naturalmente. Sem rodeios. Descomplicada. De mão na cabeça, encostada ao sofá – sinais, ou não, das poucas horas de sono.

E privilegiada. Privilegiada por aprender semanalmente com Filomena Cautela no 5 para a meia-noite (RTP1). Privilegiada por ser a irmã mais nova do Traz prá Frente (RTP Memória), mas que impõe regras, apesar da idade. E privilegiada por, mesmo com tantos projetos em crescendo na antena da televisão pública, conseguir conciliá-los com a paixão pela rádio.

Eis Inês Lopes Gonçalves. Mãe de gémeos e sem pressa para repetir a experiência. Trinta e sete anos e sem medo dos 40. À conversa com a TV 7 Dias.

 

«Sou a prova viva de que podemos fazer muitas coisas diferentes»

 

É locutora das manhãs da Antena 3, coapresenta o 5 para a meia-noite, conduz o Traz prá Frente, é mãe de gémeos… Quantas horas tem o seu dia?
Horas, propriamente, não tem. Tento é definir bem as coisas de maneira a que, quando for hora de ir buscar as crianças, é hora de ir buscar as crianças, por exemplo. Mas uma pessoa está sempre a trabalhar, inevitavelmente, até pelo tipo de trabalho. Este não é tipo de trabalho que se possa deixar encerrado no local de trabalho, ir para casa e não pensar em mais nada. Mas eu gosto tanto daquilo que faço que acabo por não sentir muito essa divisão entre o que é o trabalho e o que não é o trabalho. O meu dia tem muitas horas, sim, sobretudo as quintas-feiras. É muito difícil. Acordo cedo todos os dias e à quinta-feira só me deito perto da uma e meia, duas da manhã.

É fácil conciliar tudo?
Ora bem, não é fácil, obviamente. Tem de haver alguma ginástica, tem de haver algum apoio familiar para conseguir equilibrar as coisas, E organizo-me. Sou muito organizada, no sentido em que estou sempre a escrever, a fazer listas. Preciso sempre muito desta agenda [Inês pega na agenda com a qual surgiu para a entrevista].

Nas suas várias ocupações profissionais, a comunicação é algo que as une. Quando vai às finanças e lhe perguntam o que faz, o que responde?
É uma boa questão. Comecei por ser jornalista, então, era fácil responder. Hoje em dia, fico meio… O que vou dizer? Que sou radialista? O que é que sou? Locutora, apresentadora, não sei bem.

Sente que vivemos numa sociedade em que nos ‘obrigam’ a ser só uma coisa?
É verdade que talvez vivamos numa sociedade em que as pessoas têm tendência a rotular mais, mas já fiz tantas coisas que sou a prova viva de que podemos fazer muitas coisas diferentes. Assim num plano quase utópico, imagino sempre que ainda vou ter tempo para fazer muitas outras coisas e de me dedicar a muitas outras áreas completamente diferentes. Até porque não previ muitas das coisas que me aconteceram.

Não sonhava com isto quando era criança?
Não vou dizer que o meu sonho era ser veterinária e que acabei aqui, até porque há provas que me poderiam contrariar nesse sentido. Tenho uma redação escrita na escola, para aí no quinto, sexto ano, a dizer que quando fosse grande ia ser jornalista. Dizia, nessa composição, que eu ia entrevistar o Presidente [da República]! Era uma criança já com grandes ambições [risos].  Acabei por chegar aqui, talvez até numa fase tardia. A brincar, a brincar, estou a caminho de fazer 38 anos.

 

«Que a vitória de Conan Osíris sirva para lançar sementes para o futuro»

 

E participar no Festival da Canção, primeiro como jurada e depois como apresentadora, era um sonho?
Não, nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Nunca sonhei em estar ali de maneira alguma. Vibrava, obviamente, quando era mais nova, mas depois tive aquela relação típica com o festival, que esmoreceu um bocadinho. Quando voltou nesta nova vida e me convidam para ser jurada, fiquei super entusiasmada. Percebi, quando me explicaram qual era a ideia, que aquilo ia ser uma coisa fixe.

E logo numa edição que fica para a história.
É verdade. Sinto uma pequenina responsabilidade na eleição do Salvador Sobral, ainda que obviamente na final o júri não tenha nada a ver com isso.

Ficou contente com a vitória de Conan Osíris?
Fiquei. Se não servir para mais nada, que sirva para lançar sementes para o futuro, para quebrar barreiras, para esticar um bocadinho mais os nossos horizontes. Não há coisas erradas. Eu já conhecia o Conan Osíris e a música dele há muito tempo e lembro-me da primeira sensação que tive ao ouvir a música dele. Aquilo dizia-me qualquer coisa, mexia comigo de alguma forma, fazia-me dançar, fazia-me querer ouvir mais. Quando percebi que ele ia ser um dos compositores deste festival e ouvi a canção, pensei: ‘Ok, acho que vai acontecer aqui qualquer coisa’.

Sejamos sinceros: a vitória de Conan Osíris já era esperada. Havia vários indícios…
[Interrompe] … Mas era um mistério, ainda assim. É claro que havia um buzz gigante à volta [dele], mas a verdade é que havia um buzz gigante à volta dele de amor e de ódio. Portanto, o que ia acontecer na final ainda era um bocadinho um mistério. Não vou dizer que foi uma surpresa, porque podia acontecer, mas havia essa réstia de que podia não acontecer. Mas foi uma vitória esmagadora e acho mesmo que pode acontecer qualquer coisa em Telavive [Israel, onde decorre, em maio, a edição deste ano do certame]. [risos]

 

 

Acredita que para o ano voltamos a ter a Eurovisão em Portugal?
Acho que sim, acho que sim. Acho que podemos… sonhar com isso.

O facto de Salvador Sobral ter ganhado dá-nos mais esperança de que isso se possa repetir.
Era isso que eu ia dizer. Até o Salvador era um bocadinho aquela ideia de que está muito longe, de que era uma coisa que não acontecia a nós. Depois, ganhámos com aquela canção surpreendente. Depois de ver isso a acontecer, acho que se tornou mais palpável para todos.

 

«O 5 para a meia-noite tornou-se relevante, numa coisa a que as pessoas estão atentas»

 

Já ambos foram ao 5 para a meia-noite, programa no qual está há dois anos e meio. O convite foi uma chapada de luva branca às negas que levou nos dois castings em que concorreu?
Não, não, não vejo nada isso assim [risos]. Era muito mais nova [quando participei]. Não penso muito nisso. Nessas coisas sou muito prática. Se tivesse acontecido, a minha vida hoje, provavelmente, seria completamente diferente, mas não aconteceu. Apareceu agora, nesta altura do campeonato. Enfrento as coisas na altura em que elas acontecem.

Quais são os maiores desafios que o 5 vos traz?
É um programa semanal, [mas] não dá para respirar. Uma pessoa acaba um e no dia a seguir, literalmente, estamos logo a ter uma reunião, cansados, a ressacar do dia anterior e já a pensar no próximo. Os desafios são vários. Acho que 5 se tornou relevante, numa coisa a que as pessoas estão atentas. Estaria a mentir se dissesse que era fácil fazer aquilo com uma equipa que não é muito grande. Temos todos de ser tudo. Temos todos de ser guionistas, temos todos de ser produtores, temos todos de fazer muita coisa. E, depois, creio que também é o desafio de fazer boa televisão, televisão que seja relevante, que seja de serviço público e que puxe um bocadinho a fasquia cá para cima numa altura em que a televisão é uma competição tremenda.

Estamos novamente numa época em que isso se nota muita.
Sim! É uma competição terrível. Um vai fazer cataplana, o outro vai fazer não sei o quê. Um entrevista a irmã, o outro entrevista a prima.

É um sinal particular o 5 ser apresentado por duas mulheres?
Bem, podemos sempre interpretar as coisas de várias maneiras. Acho que não foi pensado ‘Vamos pôr aqui duas mulheres porque fica bem, porque temos de cumprir as quotas’. Sou muito mais pelo mérito do que pelas quotas, ainda que as quotas, infelizmente, às vezes, sejam a maneira que existe de haver uma garantia. Agora, acho que, ainda que não tenha sido pensado, é muito sintomático e acho que é muito bom ter duas mulheres à frente.

 

 

Houve logo entrosamento entre si e Filomena Cautela?
Sim e tem havido cada vez mais. Os últimos tempos, sobretudo, têm sido muito bons. Da mesma forma que o programa se foi ajustando, nós próprias acabámos por nos ir apercebendo da relação de uma com a outra.

De cada uma encontrar o vosso espaço.
Exato. Acho que as nossas diferenças se complementam muito bem. Aquele ar dela mais… de espetáculo e eu de pessoa mais contida, mais irónica, com mais sarcasmo.

Quem é que gostava de ver nesse sofá que ainda não esteve?
Bem, essa pergunta vai sendo cada vez mais difícil. Se me tivesse feito essa pergunta há dois anos, provavelmente teria dito nomes que, entretanto, passaram por lá. Há que dizer que começámos com o Ricardo Araújo Pereira, que é uma das pessoas que eu muito admiro. Já lá tivemos o Bruno Nogueira, já lá tivemos o primeiro-ministro [António Costa], já lá tivemos tanta gente. Assim de repente… Manuel Luís Goucha. Acho que seria um incrível convidado. E Cristina Ferreira, porque não?

 

 

E o Presidente da República?
O presidente Marcelo [Rebelo de Sousa] também. Era, provavelmente, a resposta que eu daria a seguir. Mas também é uma pessoa que eu não sei se tem tempo para isso.

Ele vai a vários programas de televisão…
Exatamente, exatamente [risos]. Mas, sim, já está na hora de o presidente Marcelo ir lá tirar umas selfies connosco.

 

«O convite para o Traz prá Frente foi recebido em pânico»

 

E o convite para o Traz prá frente, de que forma o recebeu?
Foi em outubro de 2015. Não me esqueço mais, porque foi pouco tempo depois de os meus filhos nascerem. Esse convite foi recebido em pânico [risos].

Porquê?
Por achar que podia não estar à altura. Porque os nomes assustam! Júlio Isidro, Nuno Markl, Álvaro Costa, Fernando Alvim… E, além dos intervenientes, por causa da matéria-prima. O que estamos ali a tratar é o arquivo da RTP. São diamantes, a pessoa tem de manusear com algum cuidado. Mas percebi rapidamente que podia divertir-me muito e aprender muito naquele programa. Aquele programa é um luxo. Quantos programas de uma hora com pessoas a conversar à mesa é que temos hoje em dia? E é um sítio onde tenho tido a sorte de ter convidados com os quais, às vezes, até fico meio… Tenho de passar por cima deste fascínio para conseguir estar ali e não parecer uma tontinha fascinada a olhar para eles.

Sente-se a irmã mais nova do grupo?
Sinto-me a irmã mais nova mas que tem uns irmãos meio estroinas e que é um bocado responsável [risos]. Sou aquela irmã mais nova que está ali a aprender com eles e a olhar para os irmãos mais velhos – é uma boa imagem, essa – com muita admiração, mas que, depois, quando está na hora de ir para casa, diz ‘Olhem que a mãe disse que temos de estar em casa às cinco’. Ponho-me muito no lugar de ouvinte, mas depois também tenho o papel de moderadora. Às vezes também tenho de os mandar calar, de dar um murro figurado na mesa.

É difícil?
É muito difícil! É muito, muito difícil, porque toda a gente tem muitas coisas para dizer. Mas aquilo é um programa de televisão, tem 58 minutos, temos mesmo de cumprir os timings.

Há pouco, falava de o 5 para a meia-noite ser apresentado por duas mulheres. No caso da RTP Memória, o facto de a Inês ser um dos seus rostos é um sinal do rejuvenescimento do canal?
Creio que sim. Mais uma vez, não digo que isso tenha sido pensado meticulosamente, mas acho que não há de ser à toa… Basta ver a RTP Memória para perceber, pela programação, pelos mais pequenos pormenores, por aqueles pequenos separadores, que houve esse esforço de rejuvenescimento. E eu vejo isso muito na rua. Claro que há que ter em conta que o mercado da saudade funciona sempre muito bem. O negócio da nostalgia, não é? Não é à toa que, de repente, o vintage virou moda. A memória é uma coisa que nos fala sempre ao coração. Portanto, sim, acho que há um esforço de rejuvenescimento – já bastante consolidado, diria – em que temos o Júlio [Isidro] e a Inês a conviver. Sendo que a Inês também já não é assim tão nova, vamos lá ver. A Inês qualquer dia tem 40 anos [risos].

 

«Também tenho remelas nos olhos e acordo com mau aspeto, como toda a gente»

 

Falou da reação que o público tem na rua. Reconhecem-na mais pelo 5 ou pelo Traz prá frente?
É muito engraçado perguntar-me isso. Para já, não me reconhecem assim tanto quanto isso. Mas, quando as pessoas me abordam, eu faço um micro-exercício de um segundo antes de as pessoas falarem comigo: ‘5 para a meia-noite ou Traz Prá Frente?’. E faço as minhas apostas mentais…

… E corre mal.
E às vezes corre mal! É a prova de que o óbvio não é assim tão óbvio. Porque penso: ‘Ok, a pessoa que tem mais de 60 anos e que vem ter comigo é por causa da RTP Memória’. E, depois, não, é por causa do 5 para a meia-noite. E às vezes pessoas muito jovens vêm ter comigo e eu penso que é porque gostam muito do 5 para a meia-noite. E não. Falam da RTP Memória.

E como é que lida com essa abordagem?
Acho sempre que me vão perguntar outra coisa qualquer [risos]. Se eu tenho lume ou para onde é que fica a rua tal… E depois penso ‘Ah, pois é, apareço na televisão’.

Fica tímida?
Tímida não, porque gosto muito de pessoas e de conversar. Mas acho que se calhar não convivo muito bem com a ideia de… superstar, aquela pessoa muito… Eu sou uma pessoa igual às outras. Também tenho remelas nos olhos e acordo com mau aspeto, como toda a gente. É só o meu trabalho [risos].

O Traz Prá Frente poderia facilmente ter espaço na grelha da RTP1?
Bem, não vou mentir se disser que muita gente já me disse isto. Vamos deixar essas decisões para os seus decisores, para quem tem essas responsabilidades. Obviamente que não vou ser falsa modesta, consigo falar dele com alguma vaidosice. Muita gente tem dito isso, que gostaria de o ver no canal 1.

E a Inês gostaria de ter espaço na televisão para quê?
Eu já tenho imenso espaço na televisão.

Mas não quer fazer outras coisas?
Muitas vezes perguntam-me o que gostava de fazer mais e eu, noutro dia, parei para pensar nisso e cheguei à conclusão de que, neste momento, tenho uma sorte inacreditável. Eu faço aquele que é ‘o’ talk show da televisão portuguesa deste momento – creio que não existe outro – e tenho uma hora por semana para conversar com pessoas. O que é que eu posso querer mais do que isto? Eu acho que às vezes as pessoas pensam ‘e o futuro?’. E o presente?! Está a ser incrível.

 

No próximo sábado, dia 13 de abril, leia a segunda parte da entrevista a Inês Lopes Gonçalves, na qual a apresentadora fala dos filhos, dos desafios que ser mãe de gémeos lhe traz e da possibilidade de se casar com o companheiro de mais de uma década.

 

Texto: Dúlio Silva

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