Intérprete de língua gestual preocupada com comunidade surda durante pandemia

Alexandra Ramos alerta para a fragilidade da comunidade surda durante esta fase. «Quantas pessoas surdas estarão nesta situação? Haverá alguma pessoa surda nos Cuidados Intensivos?», questiona.

24 Mar 2020 | 18:55
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No último Isto é Gozar com Quem Trabalha, Ricardo Araújo Pereira destacou o «trabalho extraordinário» dos intérpretes de língua gestual. Acto contínuo, convidou Alexandra Ramos para sair do habitual ‘quadrado’ no canto esquerdo do ecrã e para se juntar a seu lado. Sucedeu-se um momento em que o humorista pediu a Alexandra Ramos para traduzir várias asneiras.

Uma pausa humorística na seriedade do momento que o mundo atravessa mas que deu protagonismo a um dos papéis mais importantes na transmissão de informação nesta fase: a dos intérpretes de língua gestual que, através do seu trabalho, são os que fazem com que a comunidade surda tenha acesso à informação que é transmitida na televisão.

A TV 7 Dias conversou com Alexandra Ramos. Aos 44 anos, já conta com 30 de intérprete de língua gestual. Trabalha há 15 anos na SIC e também faz serviço de tradução no Canal Parlamento.

Como é que surgiu aquele momento no programa Isto é Gozar Com Quem Trabalha?

Foi um convite, também para reconhecer o nosso trabalho enquanto profissionais e mostrar que as pessoas surdas são iguais às pessoas ouvintes. Não estão limitadas no humor, nas brincadeiras.

Quando o Ricardo Araújo Pereira a desafiou a interpretar os palavrões, o que achou?

Para mim é natural. Sou filha de pais surdos e é uma brincadeira que é recorrente na comunidade surda. Como profissional, tenho de ter o cuidado de, havendo crianças e jovens surdos e ouvintes em casa, não utilizar em modo de gozo. Tive de dar a volta às asneiras. Iniciei mas, depois, pus os ‘pis’. Da mesma forma que as pessoas ouvem, no gesto fiz o ‘pi’.

A Alexandra e outra colega estão a revezar-se na informação e programas de daytime na SIC. Há uma carga maior de trabalho nesta fase?

Estou na SIC há 15 anos. Sempre fizemos entretenimento e, de há cinco anos a esta parte, asseguramos o Jornal da Noite e 3 horas de SIC Notícias. Eu não paro desde dia 2 [de março]. Assim que começou a surgiu o coronavírus, passámos a fazer o Jornal da Noite todos os dias e, passado uma semana, também o Jornal da Uma. Os noticiários dos outros canais generalistas, RTP Madeira e RTP Açores estão assegurados à língua gestual.

«Haverá alguma pessoa surda nos Cuidados Intensivos?», questiona a intérprete de língua gestual

Nesta fase, se a sua função não existisse, teria efeitos completamente devastadores na comunidade surda, que já está por norma mais fragilizada.

Sim, isso é uma preocupação porque o único meio de comunicação que as pessoas surdas têm é através da televisão. Se bem que estaria sempre assegurado na RTP, que é a televisão do Estado. Mas, da mesma forma que nós, ouvintes, podemos optar qual o canal que queremos acompanhar, daí haver essa disponibilidade em todos os canais. E é importante porque, primeiro, as pessoas surdas começam a perceber a realidade da situação.

O facto de terem intérpretes a assegurar os comunicados dos ministros da Saúde e da Administração Interna, do primeiro-ministro, do Presidente da República… Nós, intérpretes, temos o cuidado de parar de traduzir quando os comunicados são feitos porque, entre olhar para uma janela pequena ou para um corpo inteiro, para a comunidade surda que está em casa e tem um televisor pequenino – nem toda a gente tem televisores grandes – nem todos conseguem acompanhar a mensagem.

Mas depois há aqui outra questão: quantas pessoas surdas estarão nesta situação? Haverá alguma pessoa surda nos Cuidados Intensivos? Como é que se faz essa recolha de informação? Uma pessoa ouvinte que está nos Cuidados Intensivos vai ouvindo as vozes. A pessoa surda precisa de um intérprete de língua gestual ou de um familiar para estar ali ao lado. Mas teria de se vestir da mesma forma que o médico porque o contacto está nas mãos! Eu tivesse essa experiência com o meu pai, que foi operado a um pulmão. Estive sempre com ele, tanto nos Cuidados Intensivos como no recobro. A comunicação é necessária porque uma pessoa surda, estando hospitalizada numa situação destas, a olhar para todo o lado e não saber o que se está a passar à sua volta… não há ninguém que explique. E isso faz com que a pessoa surda vá mais depressa. É um isolamento total!

Tem conhecimento de algum caso desses?

Não. Por exemplo, em Ovar. Não sabemos se existem pessoas surdas naquela situação. No meu Facebook não vejo nenhum surdo a dizer que há alguém em isolamento em casa.

Em relação à informação nova sobre a covid-19, os termos técnicos… os intérpretes estão a aprender no momento?

Não. Eu trabalho no Canal Parlamento, tenho essa vantagem de estar por dentro da legislação. Nós temos formações nesse âmbito. As questões técnicas sobre Segurança Social, empresas, nós passamos a informação e depois há um grupo no Facebook em que eles começam a esclarecer-se uns aos outros. Vejo muitos vídeos de surdos a partilhar alertas.

E em relação à linha SNS 24?

Há uma proposta do PAN para terem atenção à linha SNS 24 para a comunidade surda. Existe uma linha de emergência mas não sei se está vocacionada para esta situação. Também já foi feito um pedido de legendagem aos anúncios do covid-19 com caras conhecidas.

[Nota de redação: no site do SNS 24, existe uma área dedicada a pessoas que têm dificuldades auditivas e na fala. Para conseguir chegar ao processo de triagem é preciso criar um utilizador e preencher uma ficha de registo. O diálogo é feito depois através de um chat escrito. Pode aceder a esse site aqui]

Como é que alguém começa a ser intérprete de língua gestual?

No meu caso, aconteceu naturalmente porque os meus pais são surdos. O meu pai foi presidente de algumas associações de surdos, foi um percurso natural. Fiz a licenciatura, o mestrado mas, no meu caso, foi uma coisa natural. Para as pessoas que querem ser intérpretes de língua gestual, existem licenciaturas em Setúbal, Coimbra e Porto e também existem cursos de sensibilização nas associações de surdos que estão acreditados pelo Instituto do Emprego e da Formação Profissional.

Há muitos bons intérpretes que não são filhos de pais surdos, atenção. É preciso, para se ser um bom intérprete, ter contacto permanente com a comunidade surda. Porque os surdos não são todos iguais, comunicam todos de forma diferente. O meu pai tem 70 anos e tem de ter uma comunicação mais tranquila, ao contrário de um adolescente surdo, que tem outro tipo de linguagem, aprende novos gestos… Como nós.

 

Texto: Raquel Costa | Fotos: DR

 

Ligações úteis:
Grupo de Facebook Coronavírus Portugal LGP
Federação Portuguesa das Associações de Surdos
Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa
Centro de Direitos Humanos das Pessoas Surdas
SNS 24 para Pessoas com Dificuldades Auditivas e na Fala

 

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