Joana Amaral Dias e a morte do pai: «Quem é que não morre triste sem a mão de um filho?»

Joana Amaral Dias estava num programa de televisão, incontactável, quando o pai sofreu uma paragem cardiorrespiratória a caminho do hospital. Acabou por morrer. A filha sentiu-se «ausente e inútil».

13 Dez 2019 | 14:10
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Comentadora habitual do programa da TVI Você na TV!, no qual já não surge há algumas semanas, foi ao rival O Programa da Cristina, da SIC, que Joana Amaral Dias foi para falar sobre as polémicas circunstâncias em que se deu, no passado dia 3 de dezembro, a morte do pai, o reconhecido psicanalista Carlos Amaral Dias.

A entrevista começou e terminou com um abraço sentido entre apresentadora e convidada. O início ficou marcado com a psicóloga a frisar o «momento misto» que está a viver: o desaparecimento do progenitor depois de o seu agregado familiar ter aumentado, com a adoção de uma criança.

«Têm sido dias muito complicados. Ainda ontem, um senhor, na rua, veio dar-me os parabéns por ter adotado um menino e os pêsames por ter perdido o pai. E aquilo acabou por sintetizar exatamente o que estamos a passar», lembrou a também comentadora televisiva em conversa com Cristina Ferreira.

O foco da entrevista esteve, de facto, em Carlos Amaral Dias, que perdeu a vida no trajeto que separa a sua casa, no Marquês de Pombal, do Hospital de São José, também em Lisboa. A filha relatou a sua versão dos factos, não escondendo a indignação pelo tempo de espera a que o pai foi sujeito.

«Ele sentiu-se mal na manhã de 3 de dezembro. A auxiliar dele, que estava com ele em casa, chamou logo o INEM. Do Marquês de Pombal ao São José, é um percurso rapidíssimo. Cinco, dez minutos de carro. Chamaram a ambulância às 9h09 e o meu pai chegou ao hospital já passava das 11 da manhã», constatou.

E continuou: «O meu pai morreu no meio da rua, com uma paragem cardiorrespiratoria. No meio da rua! Podes imaginar a nossa dor e o nosso sofrimento. Todas as pessoas têm direito a uma morte digna. E, se ele tinha muitas patologias associadas, não se justifica nunca, em nenhuma circunstância, um homem de 73 anos, como ele era, uma rapariga de 20 ou um senhor de 50 não ter a resposta da emergência médica.»

Joana Amaral Dias contou, então, que a primeira ambulância enviada a casa do pai, «um carro de bombeiros», avariou a meio do curto percurso. «O meu pai ficou no meio da rua, na ambulância», salientou. Uma segunda ambulância foi chamada. Só 40 minutos depois é que lá chegou. Mas «sem um médico e sem sequer equipamento de reanimação», segundo a psicóloga, o que diz não entender dado o historial clínico do psicanalista e o tempo de demora a que já tinha sido obrigado.

 

«Senti-me ausente e inútil»

 

«Estava exatamente a chegar a segunda ambulância» quando o pai não resistiu. E morreu triste, segundo a filha. «Claro que morreu. Quem é que não morre triste sem a mão de um filho ou o olhar de quem ama? Se ele tinha de partir, tinha de partir. Mas uma coisa é partir no meio da rua, numa ambulância que não lhe dá o socorro, em agonia, em aflição e, se calhar, até com consciência disso, outra coisa é morrer em casa ou numa cama de hospital, mas nos olhos de quem viveu, com esse aconchego e com esse conforto», defendeu.

Já Carlos Amaral Dias tinha morrido quando Joana soube de toda a história. «Tinha o telemóvel em modo voo. Estava a fazer um programa de televisão. Quando cheguei, já tudo tinha acontecido e senti-me ausente e inútil. Tudo isso também custa muito a aceitar», assumiu, ele que comoveu Cristina Ferreira quando falou do impacto da morte do pai no seu dia-a-dia: «Ainda não me habituei a usar o passado. Ainda ontem estava a dizer ‘ele vive no Marquês de Pombal’. Não, ele vivia no Marquês de Pombal.»

O INEM já fez saber que abriu um inquérito para apurar as circunstâncias do polémico caso. Joana Amaral Dias prometeu, na SIC, levar esta «batalha» até ao fim. Pelo pai e pelos demais que viveram experiências semelhantes.

 

«A última grande aula do professor catedrático»

 

Joana Amaral Dias referiu ainda os «muitos problemas de saúde» contra os quais o pai lutou na sua vida. O «AVC grave», em 2012, foi o mais preocupante. «Nessa altura, ele ficou com sequelas sobretudo físicas. De cabeça, ele estava porreiríssimo. E continuou a trabalhar, claro que com limitações físicas, porque andava mal. Mas isso também lhe trouxe um agravamento de outras coisas. Ele tinha diabetes, insuficiência cardíaca, cardiorrespiratória…»

O facto de ser «uma pessoa extremamente ativa, muito brincalhona, super trabalhadora, sempre a inventar qualquer coisa para fazer» fez com que o choque fosse ainda maior.

«De repente, viu-se com essas limitações. O lado direito quase paralisado, sem se conseguir vestir, despir ou tomar banho sozinho. Foi uma machadada, uma talhada enorme na sua autonomia, o que, para uma pessoa com estas características, é tremendo. A capacidade de resilência e de adaptação dele foi notável», afirmou Joana Amaral Dias, ela que recebeu do pai, naquele momento, «uma lição de humildade e de auto-superação»: «Foi a última grande aula do professor catedrático.»

 

Texto: Dúlio Silva; Fotografias: Impala e reprodução redes sociais

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