João Fernando Ramos faz relato impressionante do que tem vivido em Israel

Na guerra do Médio Oriente, João Fernando Ramos fala sobre os constantes ataques, as medidas de segurança, a falta de comida e como lida com o medo dos bombardeamentos.

29 Out 2023 | 7:00
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João Fernando Ramos chegou a Israel no dia 9 de outubro – dois após o ataque do Hamas – e, desde então, tem sido os olhos e a voz do conflito entre as forças militares israelitas e o Hamas nos canais de Queluz de Baixo.O comunicador esteve à conversa com a TV 7 Dias, enquanto se dirigia para a fronteira com a Faixa de Gaza para mais um direto, e pintou-nos um retrato do que tem visto, do que tem vivido e do que tem sentido ao ser confrontado diariamente com bombardeamentos, com a chuva de metais devido à destruição de rockets e com o sofrimento humano de quem perdeu tudo num abrir e fechar de olhos.

“As guerras não são coisas bonitas e é sempre chocante ver o sofrimento das pessoas, dos civis que nada têm a ver com isto”, começa por dizer, recordando o dia 10, data em que a cidade de Ashkelon foi alvo de um intenso bombardeamento. “Nós assistimos, em Ashkelon, àquele dia de inferno em que foram lançados centenas de rockets sobre a cidade. Praticamente todas as zonas habitadas foram atingidas. São ataques contra zonas civis. Todas as pessoas que vivem ali em Ashkelon não têm nada a ver com esta guerra. (…) Aquele momento em que a cidade é bombardeada por todo o lado, nós estávamos na entrada de um abrigo e chovia ferro por todo o lado. É uma coisa que jamais vamos esquecer porque é terrível. Para nós foi brutal, imagino para as pessoas que ali vivem”, lamenta. Por este motivo, garante que “há uma grande revolta em Israel e uma grande exigência para haja uma punição do Hamas por aquilo que aconteceu, que magoou profundamente a sociedade israelita e quer-se que esta guerra termine, mas com a garantia de segurança de que não vai haver outro ataque a Israel”.

“Tenho lágrimas como todos os Seres Humanos”

Apesar de, por motivos profissionais, ter de manter a isenção e a seriedade, o jornalista admite que, por vezes, deixa-se levar pelas emoções pois “isto é uma tragédia, a guerra é uma tragédia. São as vidas das pessoas, as casas das pessoas, as crianças, os filhos as mães, Imaginamos sempre que nos pode acontecer um dia a nós. Eu tenho lágrimas como todos os Seres Humanos” e por isso já chorou algumas vezes com as histórias das vítimas destes ataques.

A força para continuar, perante a destruição e a dor, vai buscá-la à necessidade de regressar para junto dos seus. “Vimos por uma semana, mas se calhar ficamos cá por duas ou três. Temos data de partida, não temos data de chegada. Temos que voltar, isso tem de estar sempre na nossa cabeça, direitinhos, sem nenhuma mazela para além da experiência que vamos levar. Não sei quando volto, mas voltaremos”, garante.

O drama dos mísseis e da chuva de metal

Trabalhar num cenário de guerra exige muitas precauções para que o jornalista não se transforme na própria notícia. Segundo João Fernando Ramos, umas das coisas mais importantes, quando se encontram num cenário de guerra, é fazer “de imediato o reconhecimento do terreno, perceber para onde fugir. É, aliás, a norma que tenho com o Lucenio Carvalho [N.R.: Repórter de imagem] e com a Lídia, que é a nossa fixer [N.R.: A guia e tradutora]. Identificar o ponto de fuga é sempre muito importante para o nosso trabalho e tentarmos que esse ponto de fuga nos permita continuar em direto ou que nos permita gravar os ataques se estiverem a acontecer, como aconteceu ontem [N.R.: Domingo, dia 15] na zona de fronteira que estava a ser bombardeada. Nós estávamos em direto e conseguimos ir para o abrigo a tempo. Ou mesmo em Telavive onde, esta semana, estávamos em direto e houve também um ataque e nós conseguimos gravar o ataque porque o abrigo estava ali ao lado e permitiu-nos continuar a gravar”.

Além dos pontos de fuga, algo que não é difícil de encontrar pois “Israel tem muitos abrigos”, é também o equipamento de proteção individual, que levam consigo, que desempenha um papel fundamental na preservação da integridade física da equipa de reportagem. “O capacete aqui é muito importante”, revela, “porque sempre que um míssil é abatido há uma autêntica chuva de ferro. O capacete protege-nos desses pedaços de ferro que vão caindo do céu se não estivermos num sítio completamente abrigado”. De acordo com o jornalista, “isso é muito frequente, ainda ontem, na fronteira, isso aconteceu. Se não tivermos o capacete e não estivermos protegidos, as coisas podem ser complicadas. O colete é para nos proteger mais dos destroços do que de ataques de balas”.

Sem jantar desde que chegaram

Além dos riscos para a saúde, o problema com a alimentação é outra das dificuldades com que têm de lidar no terreno. “Andamos com muita água no carro e meia dúzia de sandes, mas as coisas não duram o dia todo. (…) Não há restaurantes, não há supermercados. Lá vai abrindo uma ou outra loja e, quando vemos comida, compramos. Mas, por exemplo, os jantares, desde que aqui estamos, nunca aconteceram, e o almoço tem sido sandes. O importante é irmos comendo umas barras energéticas durante o dia. Agora, sentar e comer de faca e garfo, já estamos há mais de uma semana em Israel e nunca aconteceu e não sei vai acontecer até ao final desta estadia em reportagem”, que ainda não tem data para terminar.

O que lhes tem valido também, neste campo, é o apoio dos voluntários que prestam auxílio não só aos militares, como também aos jornalistas. É o caso de Avi que abordou João Fernando Ramos quando este se encontrava em direto. Ofereceu sandes à equipa. Esta não foi a única vez que se cruzou com este israelita. “Ontem, curiosamente, ele passou, viu-nos, voltou para trás, foi buscar outra vez comida, trouxe-nos. As pessoas vão-nos ajudando”, até porque, no hotel onde estão alojados, apenas podem contar com uma refeição: “Tem um pequeno almoço suficiente para acordarmos com alguma coisa para comer. Não tem almoço nem jantar. O restaurante está fechado e não se pode comprar, fora do horário do pequeno almoço, nem uma sandes nem uma coca cola”.

“O sono é sempre muito curto”

Alojado em Telavive, o jornalista da CNN Portugal conta-nos que, em clima de guerra, “não se consegue dormir, é uma noite sempre de sobressalto. Há explosões durante a noite, há sirenes que tocam durante a noite e o sono é sempre muito curto. Nunca conseguimos uma noite tranquila de sono, somos acordados sempre pelo menos pelas sirenes, mas faz parte deste tipo de trabalho”. João Fernando Ramos garante que já se sentiu muitas vezes em perigo e que, “cada vez que toca a sirene e há disparos, o coração fica mais apertado”. Contudo, não se pode deixar dominar pelo pânico. “Uma coisa é medo e respeito pelo sítio onde estamos, outra coisa é pânico e temos de evitar o pânico. Temos sido apanhados frequentemente, em direto, em bombardeamentos e temos de manter o sangue frio para relatar o que está a acontecer com seriedade e rigor”, esclarece.

Um orgulho estar no terreno

Foi Nuno Santos, diretor de Informação da TVI, que ligou a João Fernando Ramos para lhe delegar a tarefa de ir fazer a cobertura da guerra no Médio Oriente. A resposta do jornalista não se fez esperar: “Fiz a mala de imediato, conseguimos um voo para cá e foi começar a trabalhar. Foi tudo muito rápido porque era preciso estar cá logo que possível para começar a contar o que estava a acontecer”. Para si “é um orgulho perceber que a operação que montámos está a funcionar. (…) A informação da TVI está a crescer e estamos a disputar a liderança, tendo conseguido liderar telejornais logo no início da operação. Claro que para mim e para o Lucénio Carvalho é uma honra, mas é também uma grande responsabilidade.”

Textos: Carla Ventura (carla.ventura@impala.pt)
Fotos: D.R. e Reuters
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