Juiz com cabeça a prémio

Vive há 18 anos com a cabeça a prémio, por um milhão de euros. Saiba quem é este juiz e porque chegou a este ponto

02 Nov 2017 | 15:16
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O seu nome é ODILON DE OLIVEIRA. Nasceu a 26 de fevereiro de 1949, no Brasil, e dedicou 56 anos da sua carreira à Justiça, combatendo o crime e os traficantes de droga. Juiz na cidade de Ponta Porã – no Estado de Mato Grosso do Sul, junto à fronteira com o Paraguai –, no seu currículo julgou e mandou para o cárcere alguns dos mais importantes e perigosos narcotraficantes do país, entre os quais constam Fernandinho Beira-Mar ou Luís Carlos Rocha, com a alcunha de Cabeça Branca, o maior barão da droga do Paraguai. Além de enviar para a cela os seus cabecilhas, tem vindo a desmantelar organizações criminosas bem estruturadas, dando um imenso golpe no património ilícito obtido pelo tráfico de droga, apreendendo mais de 2,5 mil milhões de reais (cerca de 700 milhões de euros), 282 imóveis, 761 carros de luxo e mais de 27 aviões e helicópteros. 

O facto de agir consoante a lei tem-lhe trazido a gratidão do povo, mas o mesmo não se pode dizer dos criminosos, que há muito querem acabar com este juiz e colocaram a sua cabeça a prémio, o que culminou em vários planos para acabarem com a sua vida. “Bem, a minha cabeça vale bem. Segundo a Imprensa do Paraguai, já chegou a um milhão de dólares. Não sei se vale tudo isso”, graceja.

Quanto a quem oferece este valor, o magistrado não tem dúvidas: “Principalmente, os traficantes. Nós atuamos contra o crime organizado há já muitos anos. Só como juiz federal já tenho trinta anos. E, também no Ministério Público, na magistratura estadual e ao longo deste trajeto, vou adquirindo muitos inimigos, enfrentando-os com um perfil um tanto ou quanto agressivo e confiscando o património. A grande massa é do Brasil e também do Paraguai”, explica. 

 

“Não tenho medo de morrer”

Porém, o preço que Odilon de Oliveira teve de pagar foi muito alto. Há 18 anos que este juiz vive recluso da sua própria Justiça e não pode sair de casa sem ser acompanhado por uma forte escolta policial. No passado, inclusive, foi obrigado a dormir nas instalações do próprio tribunal. Aliás, na moradia onde vive foi montado um posto de comando – com polícias a patrulharem a casa – vigiado por câmaras e artefactos de alta tecnologia. Para sair de casa, Odilon desloca-se sempre num carro blindado e com escolta policial com armamento pesado, algo com que não se consegue habituar, como refere: “Incomoda bastante, pois já vivo há mais de um terço da minha vida nestas condições, dois terços da minha carreira como juiz com escolta policial, 24 horas por dia, há 18 anos, e psicologicamente isso incomoda bastante. Não afeta o trabalho, mas incomoda muito mais saber que, quando estiver aposentado, vou ficar sem essa segurança. Não tenho medo de morrer. O importante é saber administrar esse medo para que não se torne pavor e até aflição. Isso não atrapalha o exercício do meu trabalho. Atrapalha a minha vida particular e social.” 

 

 

 Por isso, nada é deixado ao acaso. Mesmo quando é apenas para ir ao ginásio, ele leva o aparato policial para o interior do espaço. Há quase duas décadas que não vai a lado nenhum sem que a Polícia o acompanhe constantemente. “A minha vida social ficou liquidada. É muito incómodo e ruim. Causa constrangimento chegar a casa de uma pessoa. As visitas são feitas mais à noite e desço do carro acompanhado por aquela escolta armada. Assusta e constrange até o próprio vizinho, que não sabe muito bem o que ali está a acontecer. Agora, socialmente, deixámos de fazer tudo. Antes, eu e a minha mulher dançávamos muito, mas tivemos de parar. A nossa vida resumiu-se à Justiça, a maior parte do tempo, à residência, à academia, ir cortar o cabelo e praticamente nada mais.”

Agora com o seu mandato prestes a terminar, em 2019, o juiz Odilon, segundo está estabelecido, vai perder a escolta policial. Sem ninguém que o proteja, o mais provável é que acabe assassinado a mando de organizações criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) ou do Comando Vermelho. Vendo que está prestes a terminar a sua carreira ao serviço da lei, o juiz afirmou por várias vezes que não terá outra opção a não ser sair do país. Entretanto, tendo por base a sua reputação de incorruptível, Odilon tem pensado igualmente entrar para a política e, segundo as sondagens, tem hipóteses de vencer .

 

Vida em filmes e documentários 

 Pela sua coragem já foi distinguido com diversos galardões e louvores, tendo até a sua história em filme, intitulado “Em Nome da Lei”, realizado por Sérgio Resende e protagonizado por Mateus Solano e Paolla Oliveira. Esta sua coragem está agora a ser passada para documentário/filme, intitulado “Odilon, Réu de Si Mesmo”, produzido pela Your Mama e realizado por LEANDRO LIMA (responsável pelo som de “Cidade de Deus” e “Cidade de Deus 2” ou “Diários de Che Guevara”), que estará completo em 2019.

A TV 7 Dias falou com Leandro Lima, que nos contou onde surgiu a ideia. “Em 2013 li uma matéria que contava a vida do juiz, sobre o quanto se dedicava ao trabalho, e também abordava a falta de privacidade do mesmo, pois já vive há mais de 19 anos com escolta de agentes da Polícia Federal. Meu foco é abordar o quanto o sistema vem amando a Justiça, não só no Brasil, mas no mundo”, explica. Depois de o ter conhecido, Leandro Lima tece rasgados elogios à personalidade do magistrado, mas diz que ganhar a confiança de Odilon foi algo mais difícil. “Fiquei em contacto com ele por quatro anos até que ele me autorizasse a ir com uma equipe filmar. Fomos uma equipa constituída por sete pessoas e ficámos juntos durante uma semana, acompanhando cada passo do seu dia. Foi incrível conhecer o juiz pessoalmente. A nossa relação começou por um contacto telefónico e com o passar dos tempos fez com que pudéssemos confiar um no outro. Atualmente considero-o como um amigo.” 

 O que poderemos ver neste seu trabalho, que ainda está em fase de produção, é o lado mais intimista de Odilon. “Mostrarei a vida do juiz e entenderemos como ele vive no dia-a-dia, as dificuldades da sua esposa para ir à academia, por exemplo… Os filhos, netos… Acompanhei-o ao mercado, ao salão de beleza, a ir buscar os netos à escola, na padaria, mas fomos sempre acompanhados com, pelo menos, três agentes da Polícia Federal fortemente armados.” Quanto ao que lhe acontecerá assim que perder a escolta policial, este é peremptório: “Deve haver uma vingança por parte dos criminosos.” 

 Texto:Eduardo César Sobral

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