«Levava com pedras». A dramática história de vida do FAVORITO do Festival da Canção

Além do bullying, a morte do pai é um dos episódios que marcam a vida de Conan Osíris. Só aos 14 anos é que o artista descobriu o que motivou o desaparecimento do progenitor: a toxicodependência.

15 Fev 2019 | 21:00
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O tema que Conan Osíris, nome artístico de Tiago Miranda, vai interpretar na primeira semifinal do Festival RTP da Canção, este sábado, dia 16, é, à partida, o favorito. Lidera as sondagens na Internet, em blogues especializados no histórico certame de música organizado pela televisão pública e no Festival Eurovisão da Canção, e é, com uma grande vantagem sobre os seus concorrentes, o mais popular no YouTube.

Veja-se: a 24 horas de ser escutado na primeira eliminatória do concurso, a canção Telemóveis já ultrapassou a barreira do milhão e meio de acessos naquela plataforma de vídeos. O segundo com mais visualizações, A Dois, composto e interpretado pelos Calema, fixa-se nas 655 mil. É O Que É (da autoria dos D.A.M.A e na voz de João Campos), Perfeito (composto por Tiago Machado e cantado por Matay) e Igual a ti (de NBC) fecham o top 5 como os únicos, dos restantes 14 em competição, com mais de cem mil acessos.

Mas, afinal, quem é Conan Osíris, que, além de o cantar, é também o criador de Telemóveis? Em entrevista a Rita Ferro Rodrigues, para o projeto Elefante de Papel, o artista com imagem e postura irreverentes revela um pouco da sua história, marcada pela morte do pai na sua infância e pelo bullying sofrido na adolescência.

 

«Só soube que o meu pai tinha morrido por causa da droga aos 14 anos»

 

Os primeiros anos de vida de Conan Osíris, revela o próprio, foram passados «um bocadinho aqui e ali». «Quando nasci, fui para Moscavide, [onde] vivia com a minha mãe e o meu pai, mas, ao mesmo tempo, ficava na minha avó materna», conta o músico. O primeiro embate deu-se pouco tem depois, quando tinha «para aí» três anos: a separação dos pais.

Cinco anos mais tarde, morre o pai de Conan. Contudo, só muitos anos depois é que o cantor descobriu a que se deveu o seu desaparecimento: a toxicodependência. «Houve coisas em que a minha mão me protegeu bué. […] O meu pai não estava lá. ‘Porque é que o meu pai tinha morrido?’ Nunca entendia muito bem as coisas na sua essência. Tanto que ela só me contou que o meu pai tinha morrido por causa da droga quando tinha 14 anos. Ela sempre me protegeu dessa informação».

E continua: «A minha mãe sempre teve bué sensibilidade. […] Em cada ano [que passava], eu tinha mais um bocadinho do puzzle. A cada ano ela ia juntando mais uma pecinha que eu já conseguia digerir. Então, não foi uma coisa violenta.»

 

Sonhava com o pai… sem saber que era o pai

 

Em conversa com Rita Ferro Rodrigues, Conan Osíris partilha um episódio constante nos anos que se seguiram à morte do pai e que lhe ficou cravado na memória. «Lembro-me de ter bué sonhos em que o meu pai aparecia… Eu não sabia que era ele, eu via uma mascote daquelas de desporto – um tigre, um animal qualquer… – e, depois, a pessoa tirava a cabeça desse animal e era o meu pai. Isso causava-me pânico, porque o meu cérebro estava a tentar digerir a inexistência dele

Apesar da tenra idade que tinha quando o progenitor morreu, o artista garante ter memórias dele. «Tenho cenas específicas, tipo ir à caça da formiga de asa. As nossas atividades eram muito estranhas, porque ele morava ao pé do Monsanto e eu só ia para lá em períodos… [pausa] Basicamente, eu ia pouco tempo [para lá], porque depois começavam a acontecer problemas… de ele não ter a cena [refere-se a droga] e de ficar de cama… Era do género: ‘Ei, o pai está doente outra vez…’»

Nessa altura, Conan Osíris não tinha consciência de que a doença era uma adição. «Para mim, era uma coisa abstrata», responde a Rita Ferro Rodrigues. «Era ressaca?», questiona a apresentadora. O músico acena.

 

Nelinho, a figura masculina que marcou a sua vida

 

O intérprete e compositor de Telemóveis foi «totalmente» criado por mulheres e garante que este facto «diz tudo» sobre si. Sobre os homens da sua vida, não lhe restam dúvidas: «A única figura masculina mais forte a quem eu dou bué valor é o meu avô, o Nelinho, que morreu há pouco tempo. Era um dos únicos homens da família que não tinha qualquer parte realmente tóxica [refere-se a adições]». «Ele era o maior», acrescenta.

 

«Levava com pedras na cabeça»

 

Falar da vida de Conan Osíris até à chegada à vida adulta é falar de um «mundo caótico». Na hora de recordar a adolescência, é aos amigos que agradece. «Tive bué sorte em ter aqueles meus amigos no meio daquelas experiências de adolescência. […] A minha vida foi caótica até aos 18 anos, com todas as variáveis possíveis», revela, sem adiantar pormenores e apenas lembrando que estar com os seus amigos, que se mantêm até hoje, era como estar numa espécie de «santuário».

Isto porque, prossegue o artista, a convivência com outros jovens nem sempre foi fácil. Conan Osíris foi vítima de bullying. «Eu andava na escola e era um género de Nossa Senhora… urbana. Estava todos os dias com um ‘hoodie’, com o cabelo até aqui [aponta para a barriga] e com três terços colados uns aos outros. Eu não tinha muita consciência do que é que isto poderia ser, para mim era uma coisa normal, era o meu estilo. A minha vida, todos os dias, era desviar-me, fugir, fingir que não estava a ouvir uma cena, levar um apalpão aqui, um empurrão ali, uma chapada, com umas pedras na cabeça. […] Isso era a minha vida», lembra.

 

«A minha mãe tinha problemas»

 

O favorito à vitória da 53.ª edição do Festival RTP da Canção «não achava que era diferente» dos seus pares, apesar da forma diferente de vestir que tinha em relação aos da sua idade. Este foi, aliás, um assunto que provocou discórdias recorrentes com a mãe. «Tive altos estrilhos com a minha mãe. Tive uma altura em que pensei mesmo: ‘Ou sou eu, ou é ela’. […] Ela queria uma fantasia, que ninguém me fizesse aquilo que as pessoas me faziam, ela queria proteger-me, no fundo, mas não tinha maturidade», considera.

«Pior do que isso: com a vida que ela levava e os problemas que ela tinha, não sobrava espaço para ela ter paciência para eu me vestir assim ou assado», completa, sem especificar os «problemas» a que se refere.

 

 

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Texto: Dúlio Silva | Fotografias: arquivo Impala e reprodução Instagram

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