Luís Castel-Branco recorda passado de violência: “Não tive uma infância feliz”

Num livro intitulado de “Quando Eu Era Pequenina”, Luísa Castel-Branco recorda a violência física de que foi alvo na escola e as discussões dos pais que acabavam com a mãe no Hospital Júlio de Matos.

30 Nov 2020 | 9:40
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Não há nada de que Luís Castel-Branco sinta mais saudades do que os “sonhos que tinha” quando era pequenina. Sonhos esses que se tornaram na sua salvação. Com carinho guarda as memórias dos seus verões, e dos encontros com as amigas, que nesta narrativa dá a conhecer ao leitor como as Raparigas de Lisboa, e ainda de um dos locais mágicos da sua infância. Trata-se da Pedra do Feitiço, que ficava perto da casa da sua avó, na Lousa, onde traçou planos para o seu futuro.

“Sempre sonhei que ia ter filhos, os meus sonhos tinham mais a ver com isso, por ter filhos, também sonhava que ia ser hospedeira, e tenho vertigens que nunca mais acaba. Eram sonhos de liberdade, de sonhar que ia viajar e descobrir o mundo e como seria a realidade. Quantas vezes eu e a minha amiga Margarida, e a minha irmã, morta de medo, coitadinha, saltávamos a janela à noite e lá íamos nós, para a pedra, naquelas noites de calor. Víamos as estrelas como nunca mais vi”, diz à TV 7 Dias.

Neste livro “Quando Eu Era Pequenina”, o primeiro de uma trilogia, Luísa Castel-Branco viaja até à ruralidade dos arredores de Lisboa, nas décadas de 50 e 60, e num relato “arrancado da alma”, fala sobre a sua infância, imatura em sentimentos e cuja alma lhe foi “roubada” muito cedo.

“Tenho aquela noção que tem a ver com a educação católica que tivemos e tenho sempre aquela noção que há gente que viveu muito pior que eu”, frisou a autora, onde define nas 174 páginas desta obra os seus primeiros anos de vida: “Os meus pais fizeram o que podiam, mas a verdade é que não tive uma infância feliz. A minha mãe começou a trabalhar aos 11 anos, ficou tuberculosa e teve que sair de casa da mãe… eu podia dar imensos exemplos de pessoas que tiveram vidas piores, e contudo acabaram por sentir a vida de uma forma diferente. A mim marcou-me profundamente essa noção de que me faltava a infância. Mas, também nunca fui fácil, sempre tive uma personalidade muito forte, sempre fui desde pequena contra as injustiças.”

No decorrer da narrativa fala da relação tempestuosa dos pais. As discussões entre um casal, que trouxe ao de cima tentativas de suicídio, e que terminavam com a sua mãe a ser levada num colete de forças para o Júlio de Matos [NR: hospital psiquiátrico de Lisboa], de ambulância, onde também Luísa ia, por ordem do pai.

“Nem sequer sou capaz de relatar isso como interveniente e fui várias vezes. Eu já perdoei os meus pais por tudo e espero que os meus filhos me perdoem pelas minhas asneiras. Não lhe passou pela cabeça o que é que aquilo significava, e que seria uma coisa que uma pessoa nunca mais na vida consegue esquecer, obliterar da sua memória o que é aquilo não é possível.”

Dessas discussões, uma das suas maiores preocupações era saber se os seus irmãs poderiam ouvir alguma coisa. “Acho que eles vão ler este livro e achar que é tudo mentira porque não se lembram. Quer dizer que cumpri o que devia.”

Apesar do que passou a apresentadora recorda o pai como um homem “especial”. “Ele era exigente principalmente comigo e quando ele morreu, aos 51 anos, tive a noção absoluta que me faltou dizer tudo. Faltou-me o beijo que ele nunca me deu, o abraço que nunca me deu e faltou-me dizer tudo e alguma coisa.”

 

Ensino religioso violento

Na primária estudou num colégio religioso. Nele todas as manhãs os meninos escreviam num caderno preto os seus pecados a pedido da sua professora Emília, ou Emiliazinha para os amigos.

“Eu tinha que inventar todos os dias. Mas, o que é que são pecados? Eu, e seguramente os outros, não sei. Sei que inventava e fazia um esforço enorme para inventar os meus pecados”, contou, revelando o que verdadeiramente a atormentava: “Eu passava a maior parte das aulas encostada… como eu me lembro de ter orelhas de burro na minha cabeça. Aqueles tempos não eram fáceis.” Mas, este não foi o único tipo de violência que sofreu.

O facto de ser canhota trouxe-lhe muitos dissabores e a forma como o colégio lidava com a situação prendia-se em amarrar o seu braço esquerdo ao corpo durante o tempo em quer permanecia na escola. “Era a forma de a pessoa deixar de ser canhota. Era uma violência. Eu era muito mais gaga do que sou hoje e no início não era e fui desenvolvendo a gaguez perante essas coisas, mas era assim desde reguadas.”

Além disso, fala da dislexia e do enxovalho pelo qual passou até descobrir que não era “lerda ou preguiçosa”. “Era disléxica, coisa que naquela altura não existia. Quando descobriram… pois ’tá bem abelha. Ainda hoje sofro imenso de dislexia.”

Um crescimento marcado por várias violências físicas e psicológicas, que a definiram enquanto pessoa. “A pessoa que fui o resto da minha vida é filha dessa infância. Fiz trabalhos que era suposto não fazer, trabalhei nas mais diversas áreas e sempre de cabeça levantada eu estou aqui e aguento com vocês todos. Foi a minha forma de ultrapassar isso. Foi muitas vezes ao fazer as opções por essa liberdade, que para mim é indispensável, que paguei um preço muito alto, mas eu sou intrinsecamente livre, não há hipótese nenhuma de imaginar sequer algum homem mandar em mim, na minha vida é impossível.”

 

A despedida da mãe e o afastamento da família

O País e o Mundo atravessam um dos períodos mais negros da sua história devido à pandemia. A infeção, que continua a alastrar-se pelos quatro cantos do planeta, tem causado o pânico e o terror o que tem deixado a comunicadora “à beira de um ataque de histeria”.

Confinada ao seu lar recorda que, enquanto escrevia este livro a sua mãe morreu, a 17 de julho. Tinha 94 anos. “Graças a Deus que morreu. Já estava com uma sonda a alimentar há quase dois anos, tinha Alzheimer, tinha demência, Parkinson… Eu, enquanto viva não me vou esquecer da minha mãe a telefonar-me para a ajudar, porque estava confusa”, lamentou, temendo como poderá vir a envelhecer. “A partir daí tenho um medo horrível que me aconteça a mesma coisa. Nunca tinha pensado nisso antes. Quando ela começa a confundir-se e percebe que se estava a perder dentro dela foi terrível. Ali tive a noção como a amava.”

Além, disso despedir-se de um ente querido em tempos de pandemia refletiu-se numa violência atroz para si: “Foi horrível o processo da morte da minha mãe, por muito que me tenha despedido dela antes, aquilo foi horrível. Não se pode ver as pessoas…”

Mulher de afetos refere que estar afastada da sua família tem sido bastante doloroso: “Estou-me a passar da cabeça. Os meus filhos não deixam os meus netos estarem comigo, porque sou doente de risco. A minha relação com os meus netos e os meus filhos é tipo drogada. Eu preciso deles como não sei explicar. São a minha razão de vida. Por um lado percebo o medo que eles têm”, exclamou, reforçando: “Isto é um castigo, uma coisa horrível e os números a aumentarem todos os dias, uma pessoa parece que está a ver um filme. No dia em que isto passar vou raptar os meus filhos, e os meus netos, vou levá-los comigo e comê-los com beijos, mas acho que vou ter vontade de abraçar toda a gente na rua, os desconhecidos todos.”

E há quanto tempo não vê os seus netos? “Estive no décimo aniversário do meu neto Simão, o filho da Inês, num espaço enormíssimo, eu de máscara e eles sem me abraçarem. Há pouco tempo a minha filha disse-me que me vinha visitar com o Simão e eu disse não. Recuso-me a estar a dois metros com os dois de máscara. Começo a chorar e não paro. A minha relação com eles é de abraços e brincadeiras, por alguma razão me chamam a avó maluca, não é para ter uma máscara na cara e estar a dois metros de distância. Não aguento. Conheci o meu neto mais novo, o Lourenço, quando tinha quatro meses. Só de pensar nisto tenho vontade de chorar, a minha nora teve o bebé sozinha. Correu tudo bem, era o quarto filho, mas tudo isto para mim é horrível. ”

Ativa, mesmo estando confinada não para um segundo. “Escrevo, tenho sempre as mãos ocupadas, com o crochê seja o que for. Tento sempre ocupar-me para não pensar.”

 

Um ciclo fechado

Devido à pandemia Luísa Castel-Branco viu-se obrigada a abandonar o painel de comentadores da “Passadeira Vermelha”. O anúncio oficial fê-lo em setembro, através de um vídeo publicado nas redes sociais. “Os meus filhos fizeram muita pressão para que saísse da Passadeira, porque tenho duas doenças autoimunes, e portanto era um risco grande. Por outro lado já fazia aquilo há sete anos. Tenho saudades, mas queria muito fazer outro tipo de coisas, mas não vale a pena pensar nisso agora. Agora tenho que escrever os meus livros”, contou.

Textos: Telma Santos (telma.santos@impala.pt); Fotos: Arquivo Impala, Divulgação e Mário Santos/Contraponto Editores
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