Marco Paulo fala sobre o «medo da morte» e os cancros e princípio de AVC que sofreu

Marco Paulo abriu o coração a Júlia Pinheiro e, numa conversa intimista, falou sobre os problemas de saúde que tem atravessado ao longo da vida.

23 Set 2020 | 14:02
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Marco Paulo, de 75 anos, foi um dos artistas homenageados na manhã desta quarta-feira, 23 de setembro, no programa Casa Feliz, da SIC. Apesar de não ter marcado presença no matutino da estação de Paço de Arcos, foi revelada uma parte da entrevista que o cantor concedeu a Júlia Pinheiro e que será transmitida, na íntegra, no programa da apresentadora deste mesmo dia.

Nas imagens, aquele que é um dos grandes nomes da música portuguesa, que luta contra um cancro da mama desde fevereiro deste ano, surge com um visual novo: de cabelo curto e branco. «Gosto de mexer no meu cabelo pequenino», brinca. O artista revela o que disse à cabeleireira, em relação ao penteado: «Quero apresentar-me no programa da Júlia tal e qual como estou. Porque se estou assim, não fui eu que quis. Foram circunstâncias da vida e do momento que estou a atravessar!»

«Quis mostrar que quando o cabelo me caiu fiquei triste, mas o nascimento do cabelo é sinal de que nos estamos a curar, que estamos a ficar bem e que devemos olhar a vida com muita coragem. Há sempre quem esteja pior do que nós», continua.

 

O cancro que Marco Paulo travou em 1996

A certa altura, os dois falaram sobre o primeiro problema oncológico que o artista teve de enfrentar. Estávamos em 1996. «Não sei explicar muito bem o que aconteceu. Sei que o tumor foi tirado aqui nesta zona [lado direito da barriga]. Sentia a perna presa. De noite acordei, às 4 da manhã, levantei-me e a perna [direita] não mexia, estava parada. Subi as escadas de gatas e fui lá cima ao quarto. Bati à porta do quarto dos meus compadres e disse: ‘Estou com uma perna paralisada, não consigo andar’. Eles telefonaram para o meu médico. Nem se pensava em cancro, não se pensava em nada. Às 5 da manhã estava no consultário e ele começou a apalpar», explica.

 

«Comecei logo a pensar nos meus caracóis»

«Não tive cancro nos intestinos nem na aorta. Tiraram-me daqui de baixo [perto das costelas, do lado direito], um tumor que tinha quase o tamanho de uma tangerina. Nessa altura foi tudo diferente. ‘Doutor, vai-me cair o cabelo?’ Comecei logo a pensar nos meus caracóis. Naquela altura era a minha imagem de marca… eu sofri muito no primeiro cancro que tive. Como é que eu ia entrar em palco? Desta vez já tive uma reação diferente. Mesmo careca eu fui ao Porto cantar. ‘Esteja como estiver, as pessoas vão ter de me receber como estou. O cancro não se pega’», continua.

Júlia Pinheiro pergunta se Marco Paulo não temeu ficar sem voz devido à agressividade dos tratamentos. «Preocupava-me. Eu podia ficar sem forças, podia ficar com a voz distorcida. Felizmente não aconteceu, porque eu acho que estou a cantar melhor do que cantava, está mais cheia. Tinha muito medo e tenho muito medo de perder a minha voz», responde.

 

O príncipio de AVC

O artista teve um príncipio de AVC, «em palco, no Coliseu do Porto». «Senti o chão a fugir-me, estava no fim do concerto. Não sabia o que era, estava a perder a visão, deixei de ver as pessoas à minha frente, já estava a terminar. Lembro-me disso. Essa veia devia estar ligada à visão… devia, não sei. De um momento para o outro tive medo», conta.

«Tinha três concertos na ilha de São Miguel [Açores]… não podia andar de avião. Mas fui daqui, veja lá a noção da responsabilidade perante o público. Tentei esquecer-me desta situação, fui com a minha equipa. Eu só via a rua, só via as coisas por olhar para o cabelo dele [do compadre de Marco Paulo]. Eu olhava para o cabelo dele, dava-lhe a mão… era assim que andava no aeroporto, foi assim que fui para o avião e foi assim que eu cheguei a Ponta Delgada. Corri um risco grande, só hoje é que eu sei o risco que corri. Cheguei lá e cantei. Não via ninguém à minha frente. Fiz o concerto normal. No segundo dia voltei a cantar… no terceiro dia voltei a cantar e quando cheguei ao camarim disse assim: Eu já não consigo cantar, já não aguento mais. Foi a última vez que eu cantei. Tinha feito um esforço tão grande e as pessoas não se aperceberam! Mas eu estava a ser um bocadinho ingrato. Nem a minha voz, nem o público, nem as minhas músicas tinham culpa de eu ter esse problema e de estar ali», diz.

 

«Uma pessoa sem um orgão… não é fácil»

Marco Paulo revela que tudo lhe «acontece do lado direito». «Foi a mama, o rim e foi o tumor». No rim apareceu-lhe uma «massa» em 2017. «Não foi um tumor. Mas assustei-me. Depois toda a gente dizia que há pessoas que vivem só com um rim e davam-me assim estas ideias e dava-me um bocadinho mais de confiança. No entanto, depois comecei a pensar que não: uma pessoa sem um orgão… não é fácil. Há muita gente que passa [por isso]», atira.

Em relação ao momento que soube deste terceiro susto, o cantor garante: «Tive medo. À terceira não me safo, mas guardei isso só para mim. Sei que isso vai acontecer, mais tarde ou mais cedo. Quando isso acontecer, cantem, batam palmas, sorriam… porque onde eu estiver, vou receber tudo isso. Tenho muito medo da morte. E fiquei com mais medo depois da minha mãe ter morrido. Nunca esperei ver a minha mãe num caixão. Não consigo entrar num cemitério e faço os possíveis para não entrar. Faz-me muita confusão… saber que agora estou a falar consigo e que, daqui por um tempo, posso estar [morto]… isso assusta-me!»

O braço direito de Marco Paulo «ainda mexe mal, de vez em quando ainda está inchado». «Quero dar força a si, que me está a ouvir. Coragem! Acredite na sua religião, acredite em Deus, em Nossa Senhora, porque Nossa Senhora tem muita força e eu estou cá para o dizer.»

Recorde-se que o cantor terminou, durante este mês de setembro, os tratamentos de radioterapia.

Texto: Ivan Silva; Fotos: DR e Impala

 

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