Marta Fernandes sobre o PÂNICO: «cheguei a fazer coisas em ESTADOS DIFÍCEIS»

Marta Fernandes, que revelou recentemente ter sofrido ataques de pânico durante dez anos, explica como é que lida com esta perturbação psicológica.

22 Mar 2019 | 19:15
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É um transtorno psicológico que afecta milhões em todo o mundo. Tal como milhares de pessoas, Marta Fernandes lidou, durante quase uma década, com ataques de pânico. A atriz explica à TV 7 Dias como descobriu que sofria desta perturbação e de como decidiu enfrentar o problema.

 

Quando é que decidiu admitir que tinha um problema e tinha de procurar ajuda?

Os sintomas de um ataque de pânico são demasiado evidentes para acharmos que está tudo bem. O grande problema do pânico é o medo do medo. Começa-se a ter medo de voltar a passar por uma situação daquelas. Quando começam a ser recorrentes, a fazerem parte do nosso dia a dia, começa-se a achar que é uma doença que tem de ser tratada como outra qualquer. Comecei a procurar formas de me sentir melhor. É um processo muito individual.

Quando é que teve o primeiro ataque de pânico?

Foi em 2008. Depois melhorei. Fui para Madrid, para sair do meu ambiente, das minhas rotinas, para tentar perceber se era cansaço, desgaste. Entretanto engravidei, passei super bem a gravidez. Foi um assunto no qual nunca mais pensei e, depois, voltou a complicar-se quando a Maria tinha mais ou menos dois anos. Voltei a ter ataques com muita frequência.

Com uma criança é muito mais angustiante porque não depende só de si.

É. Essa consciência de que há outro ser que depende de nós e que estamos instáveis provoca ainda mais instabilidade. Depois há a questão hormonal, o cansaço… É possível que eu tenha tido uma depressão pós-parto que não identifiquei imediatamente. Isto tudo acabou por se juntar e começaram as crises mais frequentes. Foi aí que decidi fazer um tratamento porque não havia outra hipótese. Aliei várias terapias, fui percebendo o que funcionava melhor comigo.

Era seguida regularmente por um psiquiatra e um psicólogo. Depois comecei a fazer o meu trabalho individual. Procurei outras terapias, comecei a fazer exercício, mudei a minha alimentação… Tem que se encontrar o equilíbrio. O mais difícil de lidar nos ataques de pânico é com a frustração. Porque é que eu, sendo feliz, tendo tudo o que sempre quis, tendo uma filha incrível, uma família que me apoia incondicionalmente, tendo amigos fora de série e sendo saudável, porque é que eu não controlo esta parte? Por mais que nos digam ‘vais ficar bem’…

Isso, às vezes, até se torna irritante.

Sim. E é difícil de lidar também com o facto de não ser um processo linear. Há altos e baixos. Depois há a parte química, que as pessoas desvalorizam muito. Nós somos química e, às vezes, há químicos que é preciso repor no organismo e há muitas formas de o fazer. Não se podem desvalorizar todas as terapias.

Há algumas correntes da psicoterapia que defendem que não se deve tomar medicação, o que acaba por não se adequar a todas as pessoas…

Esse estigma de que o pânico, a ansiedade, a depressão são questões apenas existenciais é errado! É preciso desmistificar isso. Os medicamentos servem para nos porem numa situação mais confortável em que, depois, sim, tenhamos força para encontrarmos o nosso caminho. Eu cheguei a esse ponto, em que tive de admitir que precisa de uma ajuda mais especializada, de medicamentos, para sair do sítio onde estava.

 

«Era no trabalho que me sentia melhor»

 

 

As pessoas olham para este tipo de questões e pensam ‘é mania’ ou ‘isso passa’.

Exato! Mas a verdade é que a depressão é uma doença crónica, hereditária. Há pessoas que vivem com uma depressão a vida toda… mas há formas de encontrar o equilíbrio. É uma doença crónica como a diabetes, a osteoporose, o colesterol… isto tem de ser visto da mesma perspetiva.

Mas a questão da saúde mental ainda é muito menosprezada.

É, muito! Eu tive a sorte de encontrar os especialistas certos, que me entenderam e que estavam disponíveis para perceber o que era importante para mim. Nós temos de abrir o jogo, não podemos guardar nada na manga.

Porque, às vezes, as pessoas menosprezam o que estão a sentir.

Exato! E não pode ser! Se o médico achar ridículo é porque não é o médico certo.

Houve algum momento em que os ataques de pânico condicionaram a sua vida?

Fui uma privilegiada porque nunca consegui identificar a origem dos ataques de pânico. Não era de trabalho, não era de sítios fechados, não era de pessoas… Era um pânico generalizado que tinha a ver com a concentração de muitos fatores: depressão, cansaço, tudo isso. Nunca condicionou, primeiro porque eu tenho um trabalho em que controlo muito bem os meus horários e o meu ritmo de trabalho. Depois porque era no trabalho que eu me sentia melhor. Estava a fazer digressão [com a peça Uma Empregada dos Diabos] e abri o jogo com os meus colegas. Isso dá uma confiança brutal, saber que estamos com pessoas que nos ajudam caso seja necessário. Depois porque eu sentia-me realmente muito bem a trabalhar.

Nunca teve um ataque de pânico em palco?

Nunca! Cheguei a sentir-me desconfortável… Aqueles sintomas de desconforto às vezes aconteciam antes do espectáculo começar mas, assim que começava, passava tudo. E eu sempre tive o lema, que estava sempre a repetir na minha cabeça ‘o meu medo não é maior do que a minha coragem’. Nunca deixei de fazer nada por causa do medo e cheguei a fazer coisas em estados difíceis, em que me sentia realmente mal fisicamente. O desconforto abdominal, as tonturas, o frio… cheguei a ir ao supermercado, ou a casa de uma amiga, com os sintomas. Mas nunca deixava de ir. Eu chegava e dizia ‘olha, estou a sentir-me mal.’. As pessoas sabiam que eu estava a passar por aquilo, continuava o convívio, sabendo que eu estava naquele estado.

Nunca escondeu.

Nunca! É como chegar a casa de uma amiga e estar com uma grande enxaqueca. E a vida continua.

A sua filha, Maria, tem oito anos. Ela apercebeu-se do que estava a passar-se?

Não, nunca. Já lhe expliquei porque ela já passou por alguns momentos em que sentiu medo e eu já lhe disse que percebo o que ela sente, que também já senti muito medo. A mensagem que tento passar.lhe é a de que o medo não pode tomar conta de nós. Não se pode ter medo do medo. Esse é o maior problema, é quando a coisa se descontrola. Mas ela nunca assistiu porque eu, quando me sentia mal, pedia ajuda. A estrutura familiar e o círculo de amigos é fundamental neste processo. Porque pode ser muito solitário e se a gente se fecha… É um poço. Porque é um sítio muito escuro, não é muito bom para se estar.

 

Texto: Raquel Costa | Fotos: Arquivo Impala

 

 

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