Mulher de António Cordeiro: “Não sei até quando consigo aguentar isto” (EXCLUSIVO)

A cantar “pequenas vitórias”, a mulher de António Cordeiro revela como está o ator depois de uma pneumonia bacteriana que quase lhe ceifou a vida. Os pais ainda não o visitaram na Casa do Artista.

15 Nov 2020 | 12:30
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António Cordeiro tem dado pequenos passos – no sentido literal e no figurado –, mas essenciais para lutar contra a progressão da Paralisia Supranuclear Progressiva, a doença rara, degenerativa e incurável com a qual foi diagnosticado há quatro anos.

O ator, de 61 anos, continua a viver na Casa do Artista, onde tem celebrado “pequenas vitórias” depois de um episódio dramático. Os pedidos de entrevista têm sido muitos, mas é à TV 7 Dias que a mulher, Helena Almeida, decide falar sobre a evolução do caso do ator.

“O António não está pior, o António não está melhor, o António está na mesma. Continuamos na luta em que sempre estivemos”, começa por dizer, sublinhando logo que “a nível cognitivo está tudo bem” com António Cordeiro, até porque a doença afeta “essencialmente a parte muscular”.

E foi esta que o fragilizou quando, no início da pandemia, foi diagnosticado com uma pneumonia bacteriana. Cordeiro esteve hospitalizado 14 dias e “o prognóstico era muito reservado”: “Disseram-me várias vezes que o António não ia sobreviver. Inclusive, disseram-me que, se houvesse uma paragem cardiorrespiratória, não o reanimariam devido à doença dele. Passei os meus dias à porta do hospital.”

E como se ouve que o marido pode não sobreviver? “Não sei, não sei… Vou dizer-lhe: nunca acreditei que isso acontecesse. Não me pergunte porquê, mas algo me dizia que o António ia dar a volta a isto. Não desejo a ninguém as noites que passei em casa”, atira, confessando que passava as noites em claro: “Dormir? O que é isso? Mas quem é que consegue dormir? Às vezes, não sei como é que ainda ando.”

 

António Cordeiro “já consegue ficar de pé”

 

Superado “mais um azar”, António Cordeiro voltou para a Casa do Artista depois de “ter perdido toda a massa muscular”. Consequência da paragem da fisioterapia forçada pelo internamento. “Uma vez que a doença é extremamente oportunista, a parte muscular foi toda abaixo. Indo toda abaixo, o António perdeu a capacidade de andar. De há alguns meses para cá, voltou a fazer neurofisioterapia e já consegue ficar de pé. Agarrado às barras da fisioterapia, o António também já consegue começar a andar.” Mas sempre apoiado por terceiros.

Também a nível de fisionomia, António Cordeiro está melhor, depois de imagens divulgadas em maio, por ocasião do seu aniversário, em que o ator surgia visivelmente debilitado. “Fisicamente, o António não está mal. Até está mais gordinho…”, sorri a mulher, aliviada por o marido também já conseguir ter uma alimentação sem restrições.

“Quando o António estava em casa, eu estava muito aflita, porque ele se estava a engasgar muito. Neste momento, ele não se está a engasgar. Tínhamos de ter o cuidado de lhe dar comida mais passada e, agora, o António está a alimentar-se com a mesma comida que qualquer um de nós come, o que é ótimo”, diz.

 

António Cordeiro avisou: “Vou deixar de falar”

 

Atualmente, a grande dúvida no caso de António Cordeiro prende-se com a fala. Isto porque, explica-nos a mulher, há momentos em que o ator fala naturalmente e outros em que apenas não o faz: “Ainda nem eu, nem a terapeuta da fala chegámos à conclusão da razão pela qual o António, às vezes, não fala. Quando o António precisa de alguma coisa, ele fala. Esta manhã, quando lhe telefonei, fiz-lhe perguntas e ele respondeu-me a tudo. A partir de um determinado momento, já não disse mais nada e fez-me sinais. Perguntei-lhe: ‘Então, acabou a conversa?’. E ele disse-me que sim.”

Helena Almeida recua, depois, ao passado para partilhar com a TV 7 Dias um episódio em que o marido lhe fez saber que ia parar de falar. “Há dois anos, ele disse-me: ‘Vou deixar de falar’. Perguntei-lhe porquê e ele respondeu-me: ‘Porque não tenho a voz que tinha.’ Disse-lhe que nem eu tenho a voz que tinha, como ninguém tem, porque, se vamos para velhos, a voz vai mudando”, relativiza.

Terá que ver com o facto de a voz ser o principal instrumento de um ator? “Acredito que sim. Não que eu tenha perguntado ou que ele me tivesse dito, mas acho que é isso.”

Admitindo que gostaria que, um dia, António Cordeiro regressasse a casa, mas sem saber se isso poderá ser possível, Helena Almeida visita o marido praticamente todos os dias. Salvo raras exceções, chega à Casa do Artista por volta das 11 horas e só de lá sai ao final da tarde.

“Não é norma da instituição. Pedi encarecidamente a todos para me deixarem estar com o António. Foi
um caso muito excecional e agradeço muito por isso”, frisa a mulher do ator, referindo que faz frequentemente testes de despiste à COVID-19 e que, depois de sair da Casa do Artista, se resguarda em sua casa. “Tenho o máximo de cuidado, não só por causa do António, como por todas as outras pessoas que lá vivem.”

 

“Não sei até quando consigo aguentar isto”, diz a mulher

 

Quem ainda não visitou António Cordeiro foram os seus pais. “São pessoas com 87 anos e veem o filho todos os dias através do telemóvel. Se forem ver o filho, não podem tocar nele, não podem beijá-lo, não podem abraçá-lo… Está tudo dito, não está? Eles já me disseram que gostavam muito de ver o filho. Eu disse logo: ‘Eu levo-vos lá! Mas vocês estão na disposição de se sentarem de um lado de uma mesa compridíssima, com ele do outro lado? Não há toques, não há beijos, não há abraços, não há nada’.”

Quando diz adeus à Casa do Artista, Helena Almeida conversa com o ator através de videochamadas. “Não sou a supermulher, não sei até quando consigo aguentar isto, mas, enquanto conseguir, vou fazendo”, afiança, com um sorriso de quem não a derruba, a menos que a acusem de ter despejado António Cordeiro na Casa do Artista, como aconteceu recentemente.

“Só não fui crucificada, porque, de resto, chamaram-me de tudo e mais alguma coisa. Custou-me, porque sabia que era mentira. [pausa] Ninguém gosta de ouvir uma coisa dessas”, lamenta.

 

Texto: Dúlio Silva (dulio.silva@worldimpalanet.com); Fotografias: Arquivo Impala e D.R.

 

(artigo originalmente publicado na edição nº 1756 da TV 7 Dias)

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