Nel Monteiro revela segredos: «Passei muito mal, fiquei muito magro»

O popular cantor recebeu a TV 7 Dias e mostrou o seu império. Entre várias confidências, fala da patologia que o afetou e ainda sobre a filha mais nova, vítima de bullying.

14 Mar 2020 | 19:50
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Chama-se Manuel Teixeira Monteiro, mas é como Nel que é conhecido. Com 74 anos bem cuidados e uma energia inesgotável, o cantor de música popular portuguesa, que há 34 anos anima os mais foliões com os seus caricatos e divertidos temas, aventura-se agora no novo programa da SIC, Amigos Improváveis – Famosos. Na estreia da nova aposta da direção de Programas da SIC, o artista descreveu-se como “um pinga-amor” e diz que ganhou “Euromilhões” quando, aos 39 anos, lançou o êxito Azar na Praia. A canção, que atravessa gerações, constituiu o cartão-de-visita para uma carreira de sucesso.

Na moradia, situada em Albergaria-a-Velha, concelho de Aveiro, onde reside com a mulher, Júlia, a quem carinhosamente chama de Juju, e a filha, Débora,de 17 anos, o artista mostrou a sua verdadeira personalidade. Sem papas na língua, recuou no tempo e fez confidências sobre a sua família. «Tinha sete anos quando entrei para a escola primária e só fiz a quarta classe. Durante as férias, ou aos fins de semana, o meu pai obrigava-me a trabalhar. Os meus pais eram muito pobres e a minha mãe era doente, até que morreu cancerosa e passou muito tempo nos hospitais», lamentou o intérprete, sublinhando: «Trabalhava no campo a apanhar batatas e azeitonas e a cortar uvas. Os meus brinquedos eram as ferramentas do campo. O único brinquedo que tive já era cantor e foi a SIC que me ofereceu: um comboio, porque eu também fui funcionário dos caminhos-de-ferro.»

Homem dos sete ofícios, Nel Monteiro confessa que teve de trabalhar muito para construir o seu império: «Pisei uvas, fiz vinho, azeite, aguardente, fiz estradas, trabalhei na construção civil, pintei casas, trabalhei nos caminhos-de-ferro, na Estação da Campanhã, e assim cresci e me fiz homem, até ir para o serviço militar em 1961.»

Depois da tropa, o músico foi recrutado para trabalhar como empregado de mesa na Messe Oficiais de Pedrouço. Foi aí que a sua vida mudou ao surgir a oportunidade de gravar o seu primeiro álbum, Azar na Praia. «O maestro Jorge Machado ia às vezes comer à Messe. Foi assim que ganhei confiança, até que me desafiou a gravar um disco. Levou-me duzentos e cinquenta contos, era muita areia para a minha camioneta, porque só ganhava 930 escudos. Mas arrisquei e gravei o disco.»

 

«Cheguei a fazer aluguer clandestino»

Ainda antes de vingar na indústria musical casou com a sua primeira mulher, com quem tem uma filha, Felisbela, já
com 50 anos. «Como era muito pobre, quando me casei fui morar para um quarto de uma irmã da minha ex-mulher.
Fomos para aquele quarto, mas como sempre fui um ganancioso e um ‘pobreta’ queria chegar mais longe, então aquele emprego que tinha nos Altos Militares não chegava. Novecentos escudos para pagar o quartito, depois nasceu a nossa filhota, tive de arranjar outras coisas. Então, o que faço? Os nossos soldados do Ultramar começaram a chegar e alguns traziam os seus carros e eu cheguei a comprar alguns carros a oficiais, para vender depois», recorda, recuando novamente no tempo:

«Eh pá, o ganancioso que eu sempre fui… cheguei a fazer aluguer clandestino com esse carro», atira, entre risos, prosseguindo: «Quando acabavam os jantares nos estudos militares, ia para a estação de Santa Apolónia, havia um comboio que fazia Lisboa-Porto-Porto-Lisboa, e eu ia para lá e quando as pessoas iam comprar o bilhete eu abordava-as e perguntava se queriam ir de carro. Dizia: ‘Vim do Ultramar, é para ganhar algum’. Então levava as pessoas ao domicílio. Fazia Lisboa-Porto, e depois no Porto ainda arranjava outra ‘carrada’ para voltar. Havia noites que nem ia à cama. Mais tarde é que dei em cantor.»

Já cantor e com um império e uma vida confortável, Nel Monteiro pôs fim ao seu casamento. «Depois de comprar alguns apartamentos comprei uma moradia, onde vivem a minha ex-mulher e outra filha. Fomos casados durante vinte anos e a relação acabou porque já não nos entendíamos. Tenho muito respeito por ela e pela minha filha, até porque estou a pagar-lhe uma pensão de alimentos e quero que ela dure muitos anos e com saúde, apesar de não ser muita, a minha também nunca foi muita, mas pronto. Não nos entendíamos. É só por isso e quis deixar-lhe tudo e começar de novo.»

 

A descoberta da Hepatite B

Apaixonar-se por Juju foi para Nel Monteiro a razão que o levou novamente a sorrir para a vida. «Andei muito doente, tive problemas físicos gravíssimos, e com ela parece que renasci», disse, explicando que, após o final do matrimónio com a sua primeira mulher, passou por uma prova de fogo quando foi diagnosticado com Hepatite B [N.R.: Inflamação do fígado, que pode ser aguda ou crónica].

«Tenho problemas auditivos. Vivo à custa de um aparelho. Sempre tive problemas de digestão. Já tive Hepatite B, mas tenho alegria», exclama, recordando que, quando descobriu a patologia, o sentimento sobre a incerteza em relação ao futuro atirou-o ao abismo.

«Chorei muito, mas ultrapassei. Caí num espetáculo, já sem forças. Cheguei a cancelar alguns espetáculos, até que a minha médica disse-me que já não sabia o que fazer. Nada fazia efeito, isto sem saber ainda o que tinha. Até que fiz uns exames gerais e fui diagnosticado com Hepatite B», disse, revelando como acabou por superar este período negro.

«Passei muito mal, fiquei muito magro. Houve uma altura em que estava com a minha filha mais velha, Felisbela, e o meu ex-cunhado, que me apresentou depois um médico em Setúbal. Este receitou-me um xarope e ampolas e disse-me para fazer um tratamento durante três semanas em Leiria. Enfiaram-me um tubo no rabo, que estava ligado a um computador, e assim fui desintoxicado. Ao fim de meio ano estava cinco estrelas. Devo a vida a esse médico.»

Nel Monteiro não esquece o dia em que uma queda, em Paris, o atirou para uma cadeira de rodas durante seis meses. «Tenho uma Torre Eiffel na perna direita. São só ferros», conta, com a boa disposição que o caracteriza, explicando o sucedido: «Caí em Paris quando entrei num palco. Andei meio ano em cadeira de rodas. Fiquei lá dez dias, fui operado, vim para Portugal engessado e depois fui fazer um espetáculo ao Algarve. Tive de ir deitado no carro. Depois disso fui para a Austrália em cadeira de rodas. Cheguei lá com a perna toda retalhada. Chorei tanto no avião. Fui logo para as clínicas», teceu.

 

Filha sofre de bullying

Aos 58 anos, voltou a ser pai. Débora, filha da sua relação com Juju, veio fazer as delícias da família. «Ela tem idade para ser minha neta. Às vezes perguntam-me», diz, entre gargalhadas, reforçando que, embora tivesse receio de
voltar a passar pela paternidade, a sua idade não impediu o casal de realizar o sonho de aumentar a família: «Pensei
que não seria capaz nesta idade, mas fiquei muito feliz com o nascimento da minha filhota. Quando morrer vou consolado.»

Apesar da infância feliz, Débora, que está prestes a celebrar 17 anos, não tem tido uma adolescência fácil. «Ela é
minha bailarina. A minha música não é a praia dela, o que é normal. Ela já cantou músicas infantis, mas depois disse-me que queria ser bailarina, e passou a ser uma das minhas bailarinas», relatou, confidenciando: «Por ser filha de quem é e se vestir no palco como qualquer bailarina começaram a fazer pouco dela e fizeram-lhe muitas coisas que ela não gostava e começou a humilhar-se. Não dizia nada em casa. Trataram-na muito mal. Não conseguíamos fazer nada dela, até que se abriu. A minha mulher foi à escola e chamoua GNR.»

Nel Monteiro temeu que a sua filha pudesse pôr termo à vida. «Ela sofreu muito com isso. Pensámos até que ela pudesse pôr fim à vida.»

Na estreia de Amigos Improváveis – Famosos, Júlia não ficou indiferente ao testemunho de uma jovem que se automutilou, tornando público o sofrimento pelo qual a sua filha passou recentemente:
«Partiram-lhe um telemóvel… Ela dizia-me que o tinha deixado cair e um carro é que tinha passado por cima. Cortaram-lhe um pedaço de cabelo. Depois, nas redes sociais, eram aquelas coisas que… Chamavam-lhe de tudo, de tudo», lamentou, contando ainda um episódio que aconteceu quando levou a filha à escola.

«Ela disse-me:‘Mãe, espera aqui comigo, porque eu vou entrar depois de a professora entrar’. E eu vi duas colegas a olharem para ela e a rirem-se. Nesse mesmo dia, no balneário, escarraram-lhe a roupa. Meninos a quem eu dava catequese!», rematou.

 

Aventura a dois!

Ao lado da mulher no programa Amigos Improváveis – Famosos, Nel Monteiro garante que esta será uma experiência para a vida. Já a sua companheira, Júlia, tem alguns receios: «Isto pode ser uma faca de dois bicos, tanto podem
gostar e elogiar ou criticar. Podemos ganhar outros públicos, mas também não é agora, aos 34 anos de carreira, que está à espera de ganhar outros públicos, ele já está com 74 anos. É uma aventura», teceu.

Textos: Telma Santos; Fotos: Zito Colaço

 

(Artigo originalmente publicada na edição 1721 da revista TV 7 Dias)

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