Nininho Vaz Maia: “A minha luta é incentivar os jovens, existe muito talento na etnia”

O Dia Internacional do Cigano celebrou-se no dia 8 de abril. Nininho Vaz Maia, um dos jurados do “All Together Now”, é de etnia cigana e fala sobre a sua luta diária.

10 Abr 2021 | 19:30
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Esta quinta-feira, 8 de abril, celebra-se o Dia Internacional do Cigano. Nininho Vaz Maia, um dos 100 jurados do concurso de talentos da TVI, “All Together Now”, é de etnia cigana e, numa entrevista à Nova Gente, o cantor, de 33 anos, abre o coração para falar sobre a sua luta diária para ser um bom exemplo para a comunidade.

Nova Gente: O Nininho é jurado do All Together Now, como é que está a correr a experiência?

Nininho Vaz Maia: Está a ser uma experiência incrível, rodeado de grandes artistas. Muito talento em Portugal!

Os talentos têm surpreendido?

Muito! Tem sido incrível. Levou-me a dizer que somos um país tão pequeno, mas com tanto talento. Gostava que os outros países estivessem atentos aos tantos talentos que temos.

Como é que reagiu ao convite de Cristina Ferreira para ser jurado do All Together Now?

Pensei primeiro, porque tenho muitos projetos por realizar, tenho aí muito trabalho, mas estou sempre aberto a novas experiências. Também é uma forma de mostrar o meu trabalho, ainda tenho uma grande luta e então claro que aceitei. É bom!

Era capaz de aceitar outro desafio televisivo, por exemplo, participar numa telenovela?

É outro desafio! Estou aberto a isso! Agora depende do papel…

É raro encontrar alguém da comunidade cigana em televisão, acha que a sua participação no programa pode ser um exemplo?

Sem dúvida! A minha luta é essa, é incentivar os mais jovens. Existe muito talento na minha etnia e nesse aspeto espero ser um exemplo.

Porque é que ainda há poucos ciganos em televisão?

Costumo dizer que faz parte. Somos uma das culturas mais fechadas, é por aí. Não lidamos fora da nossa cultura, da nossa maneira de pensar, mas isso está a mudar muito! Penso que somos os que estão a ‘tardar’ mais, mais estamos num bom caminho.

Corre o boato de que o seu filho é concorrente do “All Together Now”, é verdade?

Não! Isso foi uma surpresa que prepararam para mim! Ele foi só como convidado.

Como é que reagiu a essa surpresa?

Fiquei… sem palavras! Só não chorei porque estava concentrado a ouvi-lo e ele cantou muito bem, mas os outros 99 jurados sei que se emocionaram com a atuação dele!

Cantou uma música do pai?

Cantou uma música do pai, composta pelo pai e que eu vou produzir. É uma música que escrevi para o meu filho. Já a queria produzir e agora vou cantá-la com ele, vai sair no meu próximo álbum. “Senti mais preconceito quando entrei no mundo da música do que em criança”

Nascido e criado no Bairro da Curraleira, em Lisboa. Como foi vivida a sua infância?

Foi muito boa, tenho muito orgulho e deixa muitas saudades. Muita coisa já passou, mas relembro com muita saudade.

Filho de pai cigano e mãe não cigana, como é que é crescer com o melhor dos dois mundos?

É bom! Vejo cada vez mais que tinha de ser assim. No mundo da música, acho que é a minha mistura que faz a diferença, neste caso juntar a música cigana com o pop. É o que está a revolucionar a música portuguesa, fazia falta alguma mistura. Digo eu, humildemente!

Na sua infância, sentiu algum tipo de discriminação por ser de etnia cigana?

Na altura, não pensávamos nisso. Nem sequer existia como hoje. Não havia tanto essa conversa de racismo e preconceito. Senti mais preconceito quando entrei no mundo da música, há três ou quatro anos, do que em criança. Também porque estava ali num mundo muito fechado. Quando comecei a abrir as portas, é que comecei a sentir essa diferença.

A cultura cigana ainda é um pouco fechada, mas isso está a começar a mudar? Qual a sua opinião sobre essas mudanças?

Mudou tudo. Posso começar por falar nos projetos que já existem para apoiar e ajudar a nossa comunidade. Já temos advogados, já temos uma percentagem grande de pessoas com o seu negócio, com várias empresas, temos uma estrela no futebol. Também já recebemos muito nesse sentido, já estamos abertos a outras opiniões.

Entrou na adolescência com o seu pai ausente. Como é que é viver uma das fases mais importantes do crescimento pessoal sem a figura paternal?

É sempre muito difícil e complicado, mas tenho uma família muito grande. Tenho 11 tios da parte da minha mãe, 10 da parte do meu pai, primos já perdi a conta. Tenho uma família muito boa, somos muito unidos. Senti falta do meu pai, mas sempre recebi muito carinho.

Essa ausência fá-lo ser hoje um pai mais presente para os seus filhos?

Toda a dificuldade que passei na vida, eu guardei isso e recebo e dou a volta para ver o lado bom. E o lado bom é que faço tudo para ser um bom pai, tenho a certeza que sou um bom pai e faço tudo pelos meus filhos, que acho que é o normal de um pai.

Foi pai pela primeira vez ainda muito jovem, com 19 anos, como é que reagiu à notícia?

Posso dizer que na minha cultura é normal casarmo-nos cedo, sermos pais cedo. Acho que foi bom, agora aos 33 anos já tenho um filho quase adolescente. Já calça quase o meu número! Tem essas coisas boas!

Como é que se define enquanto pai?

Sou rígido. Muito preocupado com o que vem aí, com a adolescência. O meu foco agora está no Cristiano, incutir-lhe a música, o desporto e não tenho dúvidas de que vai ser um bom homem.

Há alguma coisa que tenha feito que não quer que os seus filhos façam, como por exemplo, desistir da escola cedo?

Quando digo que sou rígido, é nesse ponto. Sou chato, estou sempre em cima da escola! Apesar de estarmos todos a atravessar um momento difícil, uma adaptação complicada de horários e computadores. Não quero o mesmo caminho para os meus filhos, sem dúvida. É importante incutir-lhes.

Cresceu no meio de uma família numerosa. Há alguém que o tenha marcado particularmente, alguém que veja como inspiração?

Eu próprio. Sou a minha própria inspiração.

Como é que a família reage à sua fama?

Com muita felicidade e orgulho. Mas vejo que não olham para mim assim. É difícil porque lidam comigo todos os dias, não olham para mim como as pessoas na rua. Mas, sem dúvida, têm muito orgulho.

E da parte da comunidade cigana, qual é que tem sido o feedback?

Agora mais. As primeiras músicas… lá está, a mistura que estou a fazer com a música cigana… é normal, como em todas as culturas, todas as etnias, quando se mistura, estranham. Lembro-me perfeitamente quando se começou a misturar fado com precursão, houve muitas críticas. Diziam: ‘isso já não é fado!’. Quando a Ana Moura e a Mariza começaram, disseram isso. Aconteceu o mesmo comigo, disseram que não era música cigana, mas isso é normal. Mas cada vez vejo mais orgulho e olham para mim cada vez mais como exemplo. Estão a gostar cada vez mais, já me estão a compreender. Faltava esta mistura para mostrar a música cigana, os bons cantores e compositores que nós temos… as nossas letras têm muito sentimento. Tem de se dar o primeiro passo, abrir as primeiras portas, e eu estou cá para isso.

Esteve mais de um ano em prisão domiciliária, como é que é viver privado de liberdade e o que se aprende?

É uma adaptação e nós, no fundo, com o tempo, percebemos que estamos preparados. É dar tempo… é a vida! Mas tudo tem um porquê! Foi aí que descobri a música, fui aí que comecei a compor. Foi aí que me descobri. Ainda estou a descobrir muito, todos os dias descubro uma parte de mim e aprendo a lutar.

Regressar à liberdade, foi um choque?

Nas primeiras semanas, foi! Estava tão habituado a estar sozinho e a estar em silêncio que parecia que estava tudo a falar ao mesmo tempo! Foi mais uma adaptação!
“As pessoas não têm coragem de admitir que são racistas”

O discurso de André Ventura pejorativo em relação aos ciganos tem dado muito que falar. Qual é a sua opinião sobre o tema?

Não percebo nem me interesso por político. Só sei o básico. Desligo-me disso porque acho que vai tudo dar ao mesmo, é tudo à base de interesses. Sempre falei pouco sobre o André Ventura porque, lá está, são interesses. Não tenho dúvida alguma de que o André Ventura é só quem está a dar a cara. Por trás, existe muito poder, muito dinheiro. Ele é só um boneco que dá a cara, não tenho dúvida alguma. É isso que vejo, era isso que lhe diria se o visse. Que ele é um boneco. Não sei se tem filhos, mas essa era a pergunta que lhe faria, se quer criar os filhos com esse ódio, se quer que o filho veja cores e não veja corações. Criar os nossos filhos com ódio e preconceitos é o pior que se pode fazer a uma criança.

Nas Presidenciais viu-se que a extrema-direita ganhou peso. Preocupa-o que exista muita gente a pensar como André Ventura?

Nunca tive dúvidas! Já sabia. Há mais do que nós pensamos e esperamos. Vemos isso pelo exemplo do (Donald) Trump e do (Jair) Bolsonaro. Claro que as pessoas não têm coragem de falar e admitir à frente uma das outras que são racistas e que estão fartas dos ciganos. Mas esquecem-se que nem todos somos iguais! Vou estar a pagar por algo que não fiz? Sendo assi, acho que estávamos a pagar todos. Os meus filhos vão crescer num sofrimento só porque são ciganos? Não me parece bem nem justo! Mas depois, lá está, vem a base de tudo. Que é o dinheiro, que é o poder. Não há muito a fazer, é ter a esperança de que o bem vence sempre e esperar que as pessoas boas que, neste caso, estão no poder, que lutem por nós. E no pouco que pudermos fazer, lá estaremos!

Como tem sido trabalhar em tempos de pandemia?

Confesso que, a mim, mandou-me muito abaixo. Tinha muitos projetos, tinha já os Coliseus marcados. O que mais me afeta é não treinar, fico virado ao contrário. Afeta-me, fico sem força para o resto do dia e para os meus projetos. Há um ano que não lanço nada, tinha muita música por lançar, mas estava virado do avesso e, como muitas pessoas, baixei os braços. Mas foi por pouco tempo, já estou na luta e a produzir músicas para lançar um álbum em breve! Podemos tropeçar e cair, mas ficar lá em baixo, nem pensar! Temos de nos levantar.

Muito se tem falado da falta de apoios por parte do Ministério da Cultura. O Nininho também é da opinião que devia haver mais apoios?

Devíamos ter mais apoio e não podendo darem-nos mais apoio, deviam dar-nos liberdade para dar pequenos concertos, da forma que eles quisessem, mas para que pudéssemos sobreviver. Sei de histórias tristes de músicos que não têm dinheiro sequer para pagar a conta da luz. É triste!

Texto: Mafalda Mourão, Fotos: D.R.

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