Nuno Homem de Sá em grande entrevista: «Não ligo patavina a audiências e não vejo TV»

O ator confessa estar muito entusiasmado com a personagem que interpreta em Na Corda Bamba. «Estou a redescobrir-me enquanto ator», revela Nuno Homem de Sá, que fala ainda do que mudou na sua vida.

31 Dez 2019 | 8:00
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(entrevista originalmente publicada na edição nº 1697 da TV 7 Dias, em setembro de 2019)

 

TV 7 Dias – Há quase 40 anos que faz ficção. Continua a sentir-se motivado?

Nuno Homem de Sá – Estou muito mais entusiasmado hoje, a trabalhar aqui neste projeto do Rui Vilhena, do que já estive noutros, no passado. Estou a gostar mesmo muito desta personagem e até estou a redescobrir-me enquanto ator, que eu pensei que não era possível.

Já esteve em projetos que não gostou?

Não é bem não gostar, é achar que podia ser melhor, ou achar que o enredo ficou esquisito a partir do episódio X porque eles começaram a querer fazer render o peixe. Ou aquelas situações quando a estação faz os cortes dos episódios onde lhes apetece e depois a sequência fica toda sem ritmo e os ganchos que entusiasmam o espectador desaparecem do lugar. Todos esses fatores desanimam bastante.

Como está a ser vestir a pele de Mário Veloso, em Na Corda Bamba?

Fantástico! Esta personagem ronda ali um bocado o ‘cafajeste’, o sacaninha, o mau-carácter, ele também tem um lado muito interessante. É aquele mau-carácter que as pessoas depois até acabam por gostar.

E tem algo a ver com o Nuno?

Talvez os repentes dele. Eu gosto de mudar de registo muito depressa, estar a falar muito sério e, de repente, mandar um berro e fazer uma macacada qualquer ou o oposto.

Há muitos dias chatos na representação?

Há dias em que as cenas são muito carregadas dramaticamente, como por exemplo uma que implique uma violação. Obviamente que ninguém sai da cena de ânimo leve. Há muitas cenas puxadas e estranhas, tipo chorar a morte de um filho, não é nada fácil. A cabeça nunca fica muito boa depois disso.

 

«Não tenho tempo nem paciência para ficar sentado a olhar para um ecrã»

 

E leva esses sentimentos menos bons para casa ou consegue despir-se da personagem?

Depende muito da intensidade do dia, mas, sinceramente, há emoções que ficam sempre. E eu acho importante que o ator fique com essas emoções. Mas acho também importante que o ator consiga ter uma técnica qualquer para limpar isso o melhor que conseguir e fechar a loja para conseguir abri-la no dia seguinte, sem ter de carregar tudo às costas.

O que faz para ajudar em todo esse processo?

Gosto muito de me agarrar à minha guitarra e tocar. Não há nada como isso. Adoro cantar, tocar, faço tudo! (risos) É a minha meditação, uma meditação musical.

Com a perda da liderança nas audiências, da TVI, sente que há uma pressão maior para conseguir números superiores aos da SIC?

Nunca tive ninguém da produção ou da direção a falar comigo sobre audiências, a pressionarem para fazer mais e melhor, isso nunca vi. Eu não ligo patavina, tal como não vejo televisão, não ligo a audiências. Faço o meu trabalho com a maior honestidade e dignidade e depois disso vou à minha vida.

Não vê televisão porque não gosta?

Não tenho tempo nem paciência para ficar sentado a olhar para um ecrã. Isto já acontece há uns anos, mas agora estou assim mais do que nunca.

Mas costuma ver o seu trabalho?

Não, vejo os primeiros episódios só para sentir a personagem e para um limar de arestas que seja necessário, e depois deixo andar.

 

«Claro que me preocupa que a minha filha mais nova veja telenovelas»

 

E os seus filhos veem-no na televisão?

O meu mais velho não vê, de certeza, a minha Joana, a do meio, também deve ter muito mais que fazer. Além disso, eu estou com eles com alguma frequência, por isso não precisam de matar saudades pela televisão. A mais nova, a Sofia, é que é o terror das novelas. Adora! Aliás, tenho de a distrair à hora da novela para ver se ela não se lembra. O problema é que há uma box e ela arranja maneira de ver aquilo.

Preocupa-o que ela veja telenovelas?

Claro que sim, há muitas novelas que não são para a idade dela. Há muitos raptos, torturas e violações, antigamente não havia tanto. Espero que isso já tenha tido a sua era, porque não é pelo choque que vamos agarrar uma audiência. Claro que haverá momentos chocantes aqui e ali, mas fazer disso o ganha-pão da novela não é bom.

Acha que as pessoas estão cansadas desse registo?

Eu diria que sim. Estão cansadas de histórias muito complicadas, com muitas viagens no tempo. Pelo que ouvi falar que se está a fazer na SIC, as histórias simples, humanas e que podiam acontecer a qualquer pessoa, isso tem o seu apelativo e tem dado frutos.

 

Polémica com Margarida Vila-Nova? «Jamais alimento coisas corriqueiras»

 

Não há muito tempo, a atriz Margarida Vila-Nova deu uma entrevista onde afirmava que não queria voltar a trabalhar com o Nuno, alegando que a tinha maltratado. Agora estão juntos no mesmo projeto. As diferenças foram ultrapassadas?

Eu dou-me bem com toda a gente com quem trabalho, não tenho qualquer problema. Se há algum atrito, que é normal, acontece, eu resolvo na hora!

Mas viu a entrevista?

Vieram dizer-me. Mas também ela não especifica nada do que se passou, nem sei de que é que se trata. Eu não tenho necessidade que falem de mim, portanto, jamais alimento novelas paralelas, muito menos coisas corriqueiras que não têm qualquer interesse.

Não há nenhum problema entre vocês?

Que eu tenha reparado, não, em absoluto. Cumprimento-a como cumprimento qualquer colega.

O Nuno alterou alguns hábitos da sua vida. Essa mudança deu-se por alguma razão em especial?

Durante muito tempo, na Imprensa disseram que foi por causa de um sopro que tive no coração. Mas não! O sopro foi-me diagnosticado aos 11 anos e há uns anos fui ver e já não era detetável, acontece. O facto de deixar de comer carne e mudar os meus hábitos alimentares e de vida não teve nada a ver com isso. Teve a ver com a minha necessidade de ser mais aquilo que sou e menos aquilo que eu acho que devia ser.

Sente-se jovem?

Sinto que tenho espírito jovem, enérgico, e acho que isso também mantém a saúde a um certo nível. Se tivermos uma atitude positiva, as coisas acontecem nesse sentido. E eu acredito muito que nós recebemos o que semeamos. E esta converseta é mesmo verdade, eu não acreditava nada nestas coisas. Era um cético de primeira, agora acredito em muita coisa.

O que o fez mudar de opinião?

Foi observar o Mundo em que vivo. Comecei a perceber que estava a dar valor às coisas erradas ou, pelo menos, eu queria dar valor a coisas que não estavam propriamente disponíveis, como, por exemplo, reunir-me com os meus amigos e cantarmos a noite inteira. Isso é uma das minhas imagens de felicidade absoluta. E tive de começar a tomar decisões e a fazer opções de vida para mudar o foco. Por exemplo, as redes sociais, aboli completamente, sou antirredes sociais. Ao fim e ao cabo, foi trazer para primeiro plano as coisas que são realmente importantes. A família, a amizade, a harmonia, a arte, o contacto com a Natureza…

 

«Estou a viver um amor como nunca vivi»

 

E o amor faz parte dessa equação?

Claro, o amor também é muito importante.

Tem namorada?

Já não uso esse termo (risos).

Companheira?

Companheira… hum, faz-me sempre lembrar um bocado os cães ou os gatos…

Então que nome é que lhe quer dar?

(risos) Bem, eu acredito que há pessoas com quem os nossos percursos se cruzam e que fazem parte deles durante X tempo, pode ser muito pouco ou eternamente. Posso dizer que estou a viver um amor como nunca vivi. Mas realmente não tenho muito mais a dizer sobre isso. Foi alguém que conheci, já dura há algum tempo, um aninho. Mas vocês chegam sempre tarde, normalmente quando me perguntam já a coisa está para acabar.

Espero que não seja o caso…

Não, não (risos). Não sei se um dia se saberá ou não quem é, não tem nada a ver com este meio. Estou muito contente, ainda a procissão vai no adro, um dia, possivelmente, as coisas serão mais claras. Mas por agora estamos bem assim.

O que é estar à sua altura?

Uma pessoa que tenha um nível intelectual compatível ou superior, de preferência, que é para eu aprender alguma coisinha. Alguém que tenha um sentido de humor que complemente o meu. Não tem de ser tudo igual. As pessoas iguais são aborrecidas. Alguém que tenha abertura suficiente para tentar compreender o que é isto que se chama Nuno, que tenha curiosidade e que tenha um interesse genuíno na relação, na companhia, na aprendizagem.

E conseguiu encontrar isso?

Isso e muito mais!

É um homem romântico?

Até sou. Adoro um pôr-do-sol, um deitar na relva a ver o céu de mãos dadas. Os beijinhos roubados à beira-rio. Todas essas coisas, sou um bocadinho trouxa por isso. Também não sou ‘nhonhonhó’, não! Mas também depende muito da pessoa com quem se está. Eu não tenho problemas em adaptar-me. Depois, claro que a compatibilidade física tem de ser perfeita.

Está a falar do sexo?

Claro, eu acho que uma atividade íntima é superimportante e, obviamente, o sexo envolvido. Se não for satisfatório vai sempre faltar alguma coisa. Acho que temos de falar do que for preciso! Eu vivo na verdade e, por isso, tenho de ser honesto emocionalmente, fisicamente, intelectualmente, profissionalmente… A isso chama-se viver em verdade e com o espaço todo aberto para que aconteçam coisas boas.

Sente que há muito preconceito ainda em falar sobre o tema?

Sim. Há ainda muito aquele pensamento de que as mulheres têm de estar disponíveis para os homens as conquistarem, isso é uma coisa de antigamente. O próprio cavalheirismo começa a ser visto um bocado como uma atividade manipuladora para manter as mulheres numa posição de desconforto e desequilíbrio para o homem ser útil. Feliz ou infelizmente, não sei, tive um aroma feminista porque estudei nos Estados Unidos nos anos 90 e o feminismo estava em grande. Tudo o que estudei foi ao encontro disso, cresci academicamente a ter sempre esta consideração. Não só mulheres como minorias em geral. Tenho um lado que foi treinado para ser politicamente correto e outro que me diz ‘calma lá, que também tens opinião e não podes deixar de, com medo de melindrar não sei quem, te poder expressar’.

 

«Antigamente, sofria muito por amor. Muito mesmo»

 

Acredita no amor para a vida toda?

Claro que acredito! De tal forma que a maioria das pessoas com quem me envolvi, continuo a sentir amor por elas. Obviamente que noutro grau, mais virado para a amizade, mas sem esquecer que passámos tempos maravilhosos juntos. Não digo todos, todos, todos, porque ninguém é perfeito, mas partilhámos muita coisa juntos.

Sempre teve essa ideia tão amadurecida das relações?

De maneira nenhuma! Eu era daqueles tipos com ciúmes obsessivos. Fazia grandes cenas, apegava-me a coisas que são construídas pelos seres humanos e que são passadas de geração em geração, tanto familiar como culturalmente. Tinha muito a noção de que, quando estamos numa relação, aquela pessoa é nossa e só nossa, esse tipo de ideias esteve muito presente em mim durante as últimas décadas. Finalmente estão a surgir outras formas de estar e de ver as relações. Já não me apego a uma relação como se aquela pessoa fosse propriedade minha. Não é minha!

Essa aprendizagem veio com a idade?

Sem dúvida, com a idade, com as vivências, com tudo. Foi preciso muita introspeção. Muitos casos que tive, e que acabaram, e que me puseram a pensar no que tinha acontecido, no porquê de ter acontecido.

Sofre muito por amor?

Antigamente, sim. Muito mesmo. Na altura em que me apegava às pessoas daquela forma possessiva. Agora não me permito afundar no buraco negro de sofrimento onde já estive. Obviamente que tenho emoções e sentimentos, como toda a gente, mas sei que agora tenho um lado muito mais presente e consciente, que sabe falar e debater os assuntos com a pessoa que for em questão e chegar a conclusões inteligentes e maduras. Só com muito tempo de vida e muito questionamento é que cheguei aqui. Muitas tentativas…

Esse caminho trouxe-o até uma felicidade que não tinha no passado?

Não. O fator felicidade sempre esteve presente na minha vida, quer eu quisesse ou não. Trabalhei isso.

 

Divórcio dos pais: «Era muito pequeno e tive de tomar conta da minha irmã»

 

De que forma?

Os meus pais divorciaram-se quando eu era miúdo, aos seis anos, e a minha mãe saiu de casa. Fiquei em casa do meu pai com ele e a minha irmã. Eu tinha muitas razões para ser um tipo chateado, triste e super-revoltado com a vida, acho que ainda tenho um bocadinho (risos). Tinha muitas razões para andar trombudo e nunca fui assim. Havia sempre algo dentro de mim que me dizia ‘olha que isso não vai adiantar nada’. Sempre fui uma pessoa de pensar muito no futuro e dizia a mim próprio ‘não podes levar isto para o futuro como uma carga negativa que depois te vai perseguir a vida toda e impedir de teres relacionamentos como deve ser e estar bem profissionalmente’.

Como é que um miúdo de seis anos lida com um divórcio e consegue transformá-lo numa aprendizagem?

Era muito pequeno e tive de tomar conta da minha irmã, que tinha três anos e meio, na altura. E o que fiz foi focar-me nisso e esquecer tudo o resto. Ou seja, não tive tempo para pensar no que estava a acontecer e sofrer muito. Era fácil ter-me desviado… principalmente por ter tomado conta daquela peste que me fazia a vida negra (risos). Agora é um amor de mulher, que eu amo do fundo do coração, mas não tive tempo para processar aquela informação toda. A mãe saiu, fiquei ali em casa do meu pai. Não tinha tempo para pensar, porque tinha de assistir a minha irmã, que chorava dia e noite.

Não é um peso demasiado grande para um menino de seis anos?

Talvez sim, mas para mim era o meu escape, foi a minha salvação! Não tinha de pensar no sofrimento que era ter uma situação de divórcio na família e da minha mãe sair de casa, o que não é comum. Habitualmente, é o pai que sai. Tive muitas coisas na minha vida que me podiam fazer não acreditar na vida, que era tudo uma tristeza. Mas não, sempre tive algo dentro de mim a dizer que havia muito mais do que aquilo que via à minha volta e eu sempre quis descobrir o que era. E
focava-me nisso.

E deu frutos? Conseguiu descobrir o que está além daquilo que vemos?

Hoje ainda estou a escavar, a tentar perceber o que se passa. Mas é um exercício engraçado. Eu acredito na evolução. Muita gente acha que a mudança é falta de carácter. Depois há aquele amigo que não muda desde o tempo do liceu, coitado… Quando me vêm dizer que estou igual, eu só digo ‘espero bem que não, porque se eu hoje fosse como era, era um perfeito idiota’. Deixei uma série de comportamentos predatórios que não acrescentavam nada. O olhar para as mulheres, não conseguir desviar o olhar e ter sempre de dizer qualquer coisa. Essas coisas que os homens fazem, especialmente quando estão com amigos. Eu já fui assim e ainda bem que mudei, sou muito mais tranquilo agora, fez-me bem deixar esses comportamentos. Agora vejo a vida de outra forma.

 

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Textos: Maria Inês Gomes | Fotografias: Paula Alveno e Arquivo Impala

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