Os inimigos de estimação e as polémicas de Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Araújo Pereira é um dos mais respeitados humoristas portugueses mas não agrada a gregos e troianos. Saiba quem não pode ver o Gato nem pintado de ouro!

25 Jan 2020 | 9:55
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Ricardo Araújo Pereira é a mais recente e mediática contratação da SIC mas não agrada a todos. Uma das polémicas de RAP está relacionada com o juiz desembargador Joaquim Neto de Moura, autor de acórdãos controversos, por desvalorizar vários episódios de violência doméstica. Entre 20 personalidades, Ricardo não deixou de ironizar as decisões do juiz. Deste modo, Salva o Neto foi o jogo satírico criado pela sua equipa do talk show na TVI Gente que Não Sabe Estar, em que os jogadores tinham de evitar ser atingido por objetos, como por exemplo uma moca de pregos, a mesma arma usada por um dos agressores, que acabou com pena suspensa.

Aos olhos do juiz, todos os comentários feitos foram uma ofensa à sua honra pessoal profissional, pelo que exigiu «dezenas de milhares de euros em indemnizações». Também, na coluna Boca de Inferno, da Visão, a crónica em que RAP se debruçou sobre Miguel Abrantes, o pseudónimo usado em textos abonatórios do Governo de José Sócrates entre 2005 e 2011, foi mal interpretada pela ex-namorada do antigo primeiro ministro, Fernanda Câncio. «Ele podia ser homenzinho e ter a coragem de dizer de quem está a falar», lê-se na conta do Twitter da jornalista do Diário de Notícias.

De imediato, Ricardo respondeu, através do Observador, de igual modo: «Depois de ter passado anos a não ver o que parecia evidente, dedica-se agora a ver claramente o que não existe. É preciso ter azar.»

Mas as polémicas não ficaram por aí.

O facto de André Ventura ter chegado ao Parlamento através do partido Chega, na opinião do humorista e de alguns benfiquistas, foi uma realização duvidosa e só conseguida através da instrumentalização do Benfica para fins políticos. Indignado, o grupo de fãs do emblema encarnado dirigiu uma carta aberta à direção do Benfica. O parecer de Pedro Marques Lopes, comentador do programa Eixo do Mal, na SIC, destacou-se entre os demais por acusar o grupo de signatários de se ter manifestado tardiamente a favor da demarcação do clube.

O humorista reagiu com ironia: «Sei que Pedro Marques Lopes não critica Pinto da Costa porque também sobre Pinto da Costa não pende nem nunca pendeu nenhum tipo de suspeitas.» Para além disso, Ricardo Araújo Pereira também chegou a ser acusado por Francisco J. Marques, durante uma visita ao Porto Canal, no programa Universo Porto da Bancada. O diretor da Comunicação do FC Porto afirmou que o mesmo, em 2010, tinha recebido uma cartilha do Benfica, isto é, alegadamente teria havido uma troca de e-mails entre Ricardo Costa (antigo dirigente da Liga de Clubes) e Paulo Gonçalves (assessor jurídico do Benfica) a pedir o contacto pessoal do comediante com o objetivo de ajudá-lo a criar «umas ideias para arrumar com o Miguel Sousa Tavares» na crónica do jornal A Bola, do qual participava na altura.

«Todos os factos que o Francisco J. Marques relata são verdadeiros; todas as insinuações que faz são deturpações fáceis de desmentir», assegurou Ricardo, que garantiu não fazer parte da lista de “cartilheiros” do Benfica: «É público que eu nunca recebi a chamada ‘cartilha’, um documento semanal redigido por alguém do Benfica com informações e opiniões dirigidas a comentadores e jornalistas sobre o que deve ser a comunicação oficial do clube. O Francisco J. Marques sabe muito bem disso, porque a lista de destinatários foi divulgada por ele – e eu não consto nela.» Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela optaram por abandonar a colaboração com o jornal desportivo.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro

Nem as polémicas nem os processos deitaram abaixo Ricardo Araújo Pereira. Apenas um combate na Taça de Portugal de Kickboxing e Muaythai, contra Ricardo Pires, conseguiu derrubar 1,94 metros de altura. Mas o fair-play que demonstrou após a derrota não se manteve na sua escolha partidária. Desde cedo, aos 24 anos, Ricardo adotou o Partido Comunista Português.

Na 33.ª comemoração da Revolução dos Cravos, em 2007, a Juventude Comunista Portuguesa vetou Ricardo Araújo Pereira ao impedi-lo de participar nas celebrações. «A proposta original da Juventude Socialista destinava-se a reforçar o mediatismo da efeméride, atraindo para o ritual comemorativo do 25 de abril uma geração que já nasceu em democracia e prefere o humor corrosivo dos Gato Fedorento às mensagens políticas de pendor mais tradicional», lê-se no Diário de Notícias. Contudo, a figura partidária da JCP sugeriu outros nomes da comédia em alternativa e a falta de consenso inviabilizou a possibilidade de Ricardo representar os jovens portugueses no comício.

Outra reviravolta foi quando o humorista satirizou Cristina Ferreira, uma das estrelas da sua nova casa, mais do que uma vez, enquanto estava na TVI. Ainda comparou o timbre de voz da apresentadora a uma «sirene». Enquanto o primeiro-ministro cozinhava uma cataplana de peixe, Cristina conversava com a esposa do político acerca das antigas namoradas do marido, mas a forma como disse «ai, ele era um engatatão?» deu azo a uma piada. «A mulher de António Costa disse: ‘Ele tinha muitas namoradas’. Depois ouve-se uma sirene que eu acho que são os bombeiros de Paço de Arcos a chamar para o almoço», gracejou o humorista, para a 7 de janeiro ser convidado de honra e sentar-se ao lado da comunicadora, onde foi aclamado pela mesma como o «mais inteligente do País».

A verdade é que o humorista encontra na comédia uma proteção. No Alta Definição, Ricardo Araújo Pereira mostrou um perfil diferente ao assumir a sua insegurança e baixa autoestima. «As pessoas confundem a minha baixa autoestima, que é real, com falsa modéstia. Não é uma coisa nem outra», confessou.

As provocações dos Gato Fedorento

 

O triunfo dos Gato Fedorento foi igualmente marcado por algumas adversidades. Por exemplo, os quatro humoristas fizeram sketches sobre a «história nunca contada» de Pinto da Costa. Alvo de expressões «altamente difamatórias e injuriosas», o presidente do FC Porto denunciou-os pelo crime de difamação, com base no cultivo do «escândalo e do sensacionalismo».

Mais, o Partido Nacional Renovador chegou a ameaçá-los de uma forma dura e crua por colocarem na Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, um outdoor a ironizar a mensagem xenófoba de um cartaz que o próprio partido tinha colocado mesmo ao lado. Alguns autores, escondidos por detrás de alcunhas, estavam dispostos a agredir fisicamente não só Ricardo como Tiago Dores, Miguel Góis e José Diogo Quintela. »Deviam ser considerados traidores à Pátria e sofrer em conformidade, mesmo usando a violência física. Cá por mim não renuncio ao meu direito de ajustar contas com qualquer destes fedelhos», lê-se no Fórum Nacional.

(texto originalmente publicado na TV 7 Dias 1713)
Texto: Carolina Sousa; Fotos: Arquivo Impala e Divulgação SIC

 

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