O que é feito de Paulo Camacho? Ex-jornalista deixou a SIC há 13 anos após sofrer enfarte

Foi em 2006 que o ex-jornalista da RTP e da SIC se lembra de ter feito o último trabalho no pequeno ecrã. Era a Guerra do Líbano. Treze anos depois, Paulo Camacho diz-se desencantado com a profissão.

31 Dez 2019 | 14:15
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(entrevista originalmente publicada na edição nº 1701 da TV 7 Dias, em outubro de 2019)

 

TV 7 Dias – O que é feito de si?

Paulo Camacho – Eu estou bem. Tenho um negócio de Turismo Rural com a minha mulher.

Mas deixou de ser jornalista? Ou continua a fazer trabalhos jornalísticos?

Não. Ser jornalista é como ser médico, é para a vida inteira.

Mas continua a exercer?

Não. Digamos que estou desencantado com a profissão.

Há dias assim no jornalismo…

(Risos) Mas não, já não exerço, desliguei-me completamente da profissão. Sou consultor de empresas e tenho esse turismo, que tem sido um projeto pessoal e familiar, que tem corrido bem e que me absorve algum tempo. Passo metade da semana em Lisboa e outra metade no Alentejo.

Um jornalista que fez tanta coisa em televisão, que esteve ligado a guerras e à política, como enviado especial, com o que é que se desencantou?

Há uma vertente completamente pessoal e egoísta, que é o jornalismo que eu fazia, que custava muito dinheiro, e hoje em dia não há condições nas empresas de Comunicação Social para fazer esse tipo de jornalismo. Nós vemos que não há coberturas de grandes eventos. E depois estou desencantado com os públicos e com os padrões de consumo.

Com os critérios das televisões?

As televisões respondem aos produtos, portanto, com os critérios dos produtos, mais do que com as televisões.

O público vê aquilo que lhe dão…

É óbvio que o público vê aquilo que lhe dão, mas também é óbvio que lhe dão aquilo que ele quer. Portanto, é uma situação que não tem remédio.

Não acha que as televisões de hoje vivem muito pela audiência? E isso é que importa…

Tem de ser o que importa. As televisões têm de ser guiadas do ponto de vista económico, têm de vender, têm de ter audiência, têm de vender publicidade, e sem isso não sobrevivem, portanto… é um bem como qualquer outro, se o consumidor não quer, o bem sai do mercado. O nosso mercado é pequeno, não há espaço para pronto-a-vestir e alta-costura, só há espaço para pronto-a-vestir, e portanto as coisas de alta-costura não têm possibilidade de sobrevivência.

A seu ver, o que mudaria?

Punha o País mais rico! Se o País estivesse mais rico, tudo mudava.

Eu digo na televisão em concreto…

Não mudaria nada. As pessoas que estão na televisão sabem o que estão a fazer e sabem aquilo que têm de fazer para os projetos em que trabalham e que exigem sobreviver.

Qual foi a última coisa que fez em televisão?

A última coisa que lembro foi a Guerra no Líbano, em 2006.

Sente saudades dessa adrenalina?

Acho que cada coisa tem o seu tempo, o meu tempo agora é estar no Alentejo, a repousar e a descansar com os amigos, a comer bem e a beber bem.

E está feliz?

Exatamente.

Mas estava a dizer-me que um jornalista é-o a vida toda. Continua a ter algum tipo de hobby nesse sentido?

Não, continuo a ter a curiosidade de estar informado e de saber o que se passa no Mundo e de acompanhar as coisas. Só
isso. Mais nada.

Então agora passou da vertente de jornalista a empresário… mais calmo?

Tenho 60 anos…

O público que estava habituado a vê-lo diz-lhe alguma coisa? Pede-lhe para voltar?

Há pessoas que são simpáticas e dizem que têm saudades de me ver e que eu fazia um trabalho que eles gostavam, essas coisas… Coisas simpáticas que se dizem, mas cada vez menos, porque já passaram muitos anos.

Acha que as pessoas o vão esquecendo?

Claro que vão esquecendo. Durante muito tempo fiz televisão, quando não havia televisão por cabo, não havia tantos canais, nem tantos apresentadores, tanto jornalista televisivo, por isso é natural que as pessoas me abordassem mais, era numa altura em que não tinham muito mais para ver. Mas isso vai-se diluindo com o tempo, obviamente. Vão morrendo uns, os que chegaram mais tarde à televisão não me viram, mas eu convivo bem com isso.

Há uns anos teve um problema de saúde. Como é que isso está?

Está controlado. Deixei de fumar. Tive um enfarte. Na altura lembro-me de ter pensado que não havia muitas coisas que quisesse fazer na vida, não me assustei. Fiquei a perceber que morrer de coração é uma santa morte, que não é uma coisa dolorosa, nem de grande sofrimento. Infelizmente, estatisticamente, já não vou morrer de coração. Quem tem um ataque de coração e sobrevive, estatisticamente, morre de outra coisa qualquer.

Teve ligação aos cigarros?

Teve.

E foi com o susto que deixou de fumar?

Sim.

Lembra-se como foi que isso aconteceu? Teve algum sintoma?

Estava no Alentejo, por acaso. Vinha passar um fim de semana e percebi uma dor no peito, vi logo o que era. Sem grandes dramas, ia a guiar e passei o volante à minha mulher, e fomos a um centro de saúde nas proximidades. Fui ter a Ourique, que era o mais próximo.

Reencaminharam-no para o hospital?

Para o Hospital de Beja e depois para Lisboa.

Gostava de voltar à televisão?

Gosto de andar mal vestido, não ter de fazer a barba, andar de chinelos… Não, não gostava nada!

 

Dono de um Turismo Rural alentejano

 

Teima Alentejo SW é o Turismo Rural de Paulo Camacho, na costa alentejana. «Está a correr muito bem. Já fomos eleitos o Melhor Turismo Rural do País, já fomos eleitos o Melhor Turismo Rural do Alentejo, portanto, está a correr bem», assume o jornalista, que aceitou o convite para ser Embaixador do Alentejo: «Com muita honra, fui nomeado Embaixador do Alentejo – terra que não é a minha de nascimento, mas é a minha por adoção, que eu escolhi passar grande parte do meu tempo, há já dez anos.»

 

Texto: Mafalda Dantas | Fotografias: Helena Morais | Agradecimentos: Turismo Regional do Alentejo

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