Pedro Fernandes garante: «Na TVI tenho outro tipo de garantias»

Pedro Fernandes é a mais recente contratação da TVI. O apresentador e humorista de 40 anos revela todos os pormenores da saída da RTP.

14 Jul 2019 | 22:20
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Como é regressar à TVI, 11 anos depois do Caia Quem Caia [CQC]?

Pareceu-me o momento certo para voltar. Pareceu-me, em termos de futuro, um projeto mais aliciante do que aquele que eu tinha, em termos de horizontes, na RTP. Pelo menos um futuro com mais certezas. Tenho pessoas na TVI em quem confio – caso do Bruno Santos [diretor de programas da TVI], que conheço desde os tempos da Revolta dos Pastéis de Nata [RTP, 2005]. Foi quem me abriu a porta para a televisão quando eu ainda trabalhava em publicidade e marketing. E o Erick Andrade [produtor], que trabalha com ele, também.

Disse-nos que já tinha sido convidado para edições anteriores de A Tua Cara Não Me é Estranha.

Sim. Nunca tive contrato de exclusividade com a RTP, porém gosto de respeitar as pessoas com quem tenho compromissos, mesmo não sendo por escrito. Na altura perguntei à RTP se faria sentido, se me deixavam participar. Disseram-me que não, que não era boa ideia e eu respeitei. Era a minha entidade patronal apesar de, mais uma vez, nunca ter tido contrato de exclusividade. E iria recusar mais uma vez, não viesse esse convite com um contrato de exclusividade acoplado.

Qual é a duração do seu contrato?

Os contratos são anuais, prolongados automaticamente exceto haja uma comunicação de uma das partes a dizer que não está interessada em renovar.

Terá um programa na nova temporada, a partir de setembro?

Sim, estou a contar com isso e a TVI também! Se não partir uma perna até lá, é isso que vai acontecer (risos).

Um concurso de final de tarde?

Não sabemos ainda. Há dois formatos em cima da mesa mas a seu tempo devido, a TVI irá comunicar.

Irá experimentar um horário onde, na RTP, nunca esteve?

(risos) Pode acontecer, pode não acontecer…

Na RTP, esteve no horário nobre e no late night. Esses horário na TVI estão ocupados com ficção e, ao domingo, com programas de entretenimento ou reality shows. Portanto, a não ser que vá apresentar um reality show…

(gargalhada) Eu gosto de apresentar programas de talentos como este em que estou [A Tua Cara Não é Estranha]. Pode ser uma hipótese mas não descarto outro horário. O prime time será sempre um objetivo como o acesso ao prime time é também uma hipótese.

Esteve na TVI há 11 anos num formato que não durou muito tempo, numa altura em que a TVI era líder.

Regressa num formato que dura há sete, numa altura em que a estação não é líder. É um desafio maior?
Tudo é feito de ciclos. Eu gosto muito de tentar renovar e de trazer nova energia aos projetos onde estou inserido. É isso que vou tentar levar para a TVI, com uma linguagem um bocadinho diferente daquela a que a estação está a habituada, tentar deixar o meu cunho e que a TVI volte à liderança. Claro que nunca farei isso sozinho. Não tenho a prepotência de achar que consigo mudar o mundo sozinho mas posso ser uma das caras que pode contribuir para essa renovação da TVI. Mas mais caras virão, espero eu.

Ir para a TVI foi uma decisão ponderada?

Foi decidida em família mas em poucos dias. Do lado da RTP não tinha grandes certezas do que é que o futuro me traria e na TVI tenho outro tipo de garantias. As conversas que tive com o Bruno [Santos, diretor de programas da TVI] ajudaram-me a clarificar as situações, de que tipo de formatos é que poderia fazer ou não. Tenho a garantia de que nunca farei um formato de que não goste.

Que formato é que não faria?

Não digo que não farei no futuro mas, neste momento, não fazia sentido para mim apresentar um reality show ou fazer daytime. Mas as coisas hoje são uma coisa e amanhã são outra. E, às vezes, o contexto, o momento na vida ou na carreira determinam que façamos outras coisas e que acabemos por gostar.

Quando assinou com a TVI sentiu o peso de entrar numa estação que tem pressão para voltar a ganhar?

A TVI é uma estação com uma cultura ganhadora. Neste momento não está na liderança mas esteve durante muito tempo e ninguém sabe quanto tempo vai demorar esse ciclo. Amanhã, tudo pode mudar outra vez e temos de estar preparados. Tanto nós como as outras estações. Não encaro isso como uma derrota definitiva. Parece que a TVI, por ter perdido a liderança, vai perder para sempre. Acho que podemos voltar a ser líderes até mais depressa do que se espera.

Na RTP, a pressão das audiências não é tão grande como na SIC ou na TVI.

Lá dentro há sempre essa pressão. Queremos sempre ser vistos por mais gente. Mesmo na RTP, quanto mais resultados fizer, melhor. Sai mais valorizada. Quanto mais receitas publicitárias atrair, menos depende dos contribuintes. Acho que é um ótimo sinal. Quando estava na RTP, sempre quis ser líder no horário que fazia.

Chegou a ganhar à RTP1, na RTP2, com o 5 Para a Meia-Noite.

Sim. Por isso é que o 5 passou para a RTP1. Mesmo o The Big Picture e o Brainstorm fizeram ótimos resultados num horário difícil, onde a SIC e a TVI tinham novelas. O Got Talent Portugal também fez bons resultados. Essa pressão existe sempre. O nosso trabalho é feito de audiências.

Quando revelámos a sua contratação, disse-nos que se sentiu «mais desejado» na TVI. Por oposição à RTP?

Sim. Nesta altura, confesso que me sentia menos desejado, por não ter grandes horizontes. havia uma grande incerteza em relação ao próximo formato que ia apresentar. Havia a hipótese de o Got Talent voltar mas que não passava disso porque tinha sido adiado um ano. Mas não havia nada de concreto e não havendo um contrato de exclusividade com a RTP mais facilmente poderia assinar pela TVI.

 

Veja o vídeo

 

Entre 2016 e 2018, teve um ciclo de três programas seguidos (The Big Picture, Brainstorm e Got Talent Portugal), Depois, esteve quase um ano sem fazer nada e o formato que marca o seu regresso é o Portugal mais Perto, que não tinha nada a ver com o que tinha feito anteriormente. Como explica isso?

É uma pergunta que tem de fazer ao atual diretor de programas da RTP.

Imagino que lhe tenha feito essa pergunta.

Sim. Eu apanhei ali uma fase de transição. O Daniel Deusdado [ex-diretor de programas da RTP] saiu, os programas que fiz foi com ele. Entrou o [José] Fragoso e aconteceu isso que disse. Não tenho uma explicação óbvia para isso. Nunca cheguei a ter muito contacto com o José Fragoso. O meu contato era mais feito com o Nuno Vaz, o subdiretor dele. Depois, surgiu esta proposta da TVI. Eu coloquei as cartas todas na mesa, não aceitei o contrato com a TVI sem comunicar à RTP que tinha essa oferta e, não havendo uma melhor proposta por parte da RTP, fui para a TVI. É tão simples quanto isso.

Ficou magoado? É como se, de alguma forma, tivesse escavado os alicerces para o Joker [concurso das noites da RTP1 apresentado por Vasco Palmeirim]?

Eu acho que o Joker está a colher os frutos do que eu fiz no Brainstorm e no The Big Picture. Mas não fico magoado por causa disso. Eu não queria ser apresentador de concursos para a minha vida toda. Fiz dois anos e meio, foram mais de 400, e acho que também é preciso parar e refrescar. Acho que o Vasco Palmeirim faz muito bem o Joker e acho que está muito bem entregue o horário. Mas que é um facto que o Joker está a colher os frutos do trabalho que eu fiz durante dois anos e meio, isso concordo consigo.

Como foi voltar ao 5 Para a Meia-Noite, na emissão do 10º aniversário?

Foi muito bom! Tenho um carinho muito especial pelo 5, que apresentei durante seis anos e meio. Apesar de ser muito diferente do 5 que vivi, ainda conheço muitas pessoas. Sou muito amigo da Filomena, de muitos câmaras e produtores que lá estão. O que trago de maior riqueza são os amigos que fiz e que fazem parte da minha vida.

Saiu do 5 Para a meia-Noite em 2015 para fazer o The Big Picture. Custou-lhe?

Na altura não custou muito porque o 5 não estava de boa saúde. Tinham acontecido grandes mudanças, saímos [dos estúdios] da Valentim de Carvalho, deixámos de ter muitas das pessoas que faziam do 5 uma família. O cenário estava muito mais frio, os meios eram outros… o 5 não estava saudável e lembro-me que, quando me foi proposto o The Big Picture, achei que era uma boa altura para fazer outras coisas. Foi uma das decisões mais difíceis que tomei mas, olhando para trás, não me arrependo.

Em junho de 2016, uma rábula sobre Pinto da Costa feita por Luís Franco Bastos no programa A Culpa é do Ronaldo, que o Pedro apresentava, motivou uma reação indignada do presidente do FC Porto e uma ameaça de processo. Chegaram a ir para tribunal?

Não, não chegou a ir a tribunal. Foi um desentendido e eu, na pressão do direto, acabei por ler um comunicado escrito pela RTP a pedir-lhe desculpas. Acho que hoje em dia não o faria. Acho que não fazia sentido ter feito aquele pedido de desculpas mas, na pressão do direto, e o teu diretor, que está ali, dá-te um comunicado para tu leres. Acabei por lê-lo e assumir essa culpa, que acho que não deveria ter acontecido. É humor e se o visado acha que foi ofendido, pode recorrer aos tribunais e depois logo se vê.

Que não recorreu.

Não. Se calhar ficou satisfeito com o pedido de desculpas. Mas acho que foi desnecessário. Foi na pressão do momento, não houve tempo para pensar no que estávamos a fazer. Passou.

 

Texto: Raquel Costa | Fotos: Tito Calado

(entrevista originalmente publicada na TV 7 Dias 1686)

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