Pedro Lima ficou perturbado com frase ouvida dias antes da morte

O jornalista Paulo Dentinho, primo de Pedro Lima, sublinhou que o ator era «o pilar da família» e que «ele próprio definiu um final» para a sua vida: «O seu sorriso dissimulava uma enorme depressão».

07 Set 2020 | 21:40
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A homenagem a Pedro Lima, que aconteceu, este domingo, no Teatro São Luiz, em Lisboa, foi marcada por várias curiosidades arrepiantes. Foi na sala Bernardo Sassetti que a mulher do ator, Anna Westerlund, família e amigos assistiram à leitura teatral de Sou o Vento, encenada por Jorge Silva Melo em memória do ator.

Esta peça de teatro tinha sido protagonizada por Pedro Lima em 2008, ao lado de Manuel Wiborg. Este domingo, dia 6 de setembro, Manuel Wiborg voltou a subir ao palco para ler Sou o Vento, mas acompanhado por Rúben Gomes. O texto, de Jon Fosse, fala da morte de um homem, que se deixa afogar no mar.

Recorde-se que Pedro Lima morreu a 20 de junho na Praia do Abano em Cascais. A autópsia confirmou que o ator, de 49 anos, apresentava cortes na carótida e no abdómen e que morreu por afogamento.

Jorge Silva Melo, o encenador, explica, no site do teatro São Luiz, a história desta peça de teatro. «Um homem deixa-se afogar numa viagem de barco com um amigo. Este não consegue salvá-lo, impotente. E o outro desaparece no mar. É um dos mais belos textos sobre a depressão e a nossa cegueira, comovente. E comovente então agora, pensando no Pedro, querido ator. Não o vamos esquecer. E queremos estar juntos, tão diferentes que somos, tão próximos dele como ele quis».

Recorde-se que a Praia do Abano foi também fatal para Bernardo Sassetti. Foi precisamente nesse local que o pianista foi encontrado morto, em maio de 2012, aos 41 anos.

 

«Disse-me que não tinha direito a falhar»

 

Um dos momentos mais emocionantes da homenagem a Pedro Lima no Teatro São Luiz aconteceu com o discurso do jornalista Paulo Dentinho, primo e grande amigo do ator.

Paulo Dentinho recordou como Pedro Lima era exigente consigo próprio desde muito novo: «O menino traquinas e agitado cresceu e tornou-se num homem bom, bom pai, bom companheiro, bom filho, bom irmão, bom neto, bom primo… O Pedro juntava à sua volta personalidades dispares como um farol que não renega ninguém, fazia-o com uma bonomia e bondade impares, que o digam tantos dos seus amigos, porque ele não competia com ninguém a não ser com ele próprio. Se era exigente era apenas consigo. Aluno exemplar, nadador exemplar, o Pedro era um verdadeiro campeão».

Paulo Dentinho frisou também que Pedro Lima considerava não ter direito a falhar. «Numa tarde ao pé do técnico, em Lisboa, falámos de Deus, da dimensão humana, do erro, do ter direito a falhar. Ele disse-me que não tinha direito a falhar. Eu lá contrapus que até Deus falhava e falhou muitas vezes, mas ele não se convenceu. […] A representação tornou-se no seu maior desafio, aquele onde se quis construir, aquele que achava mais difícil mais exigente, mais desafiante».

Paulo Dentinho garantiu ainda que Pedro Lima ficou perturbado por uma frase que ouviu dias antes de morrer. Recorde-se que, após a trágica morte do ator, o antigo Diretor de Informação da RTP escreveu uma carta aberta na qual não poupou críticas à TVI.

 

«Ele próprio definiu um final»

 

«Mas este Pedro campeão escondia-nos uma fragilidade, o seu sorriso dissimulava uma enorme depressão e bastou uma frase para tudo desmoronar numa espiral destrutiva. O Pedro começou a sentir que tinha falhado com o ator, fechou-se em si, a exigir de si, a responsabilizar-se, deixou-se envolver em pensamentos sombrios, demasiado sombrios e pesados e ele próprio definiu um final em que todos nós, família e amigos, fomos derrotados», disse ainda Paulo Destino.

«O Pedro era o pilar da família, onde nós nos vamos continuar a erguer, a celebrar o que ele nos deixou, como pessoa maravilhosa que foi. O meu agradecimento em nome da família do Pedro por esta homenagem», terminou.

 

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Texto: Ricardina Batista e Ana Filipe Silveira; Fotografias: Nuno Moreira 

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