EXCLUSIVO! Realizador da Globo isola-se em Portugal por receio de descontrolo no Brasil

Hugo de Sousa regressou ao nosso país para um período de isolamento profilático. As gravações da novela da Globo de que é realizador estão suspensas por tempo indeterminado.

03 Abr 2020 | 14:50
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No Brasil há mais de dois anos, as visitas de Hugo de Sousa a Portugal são regulares. Mas, desta vez, o motivo é diferente. O realizador, de 42 anos, escolheu o país em que nasceu para um período de isolamento profilático e é cá que vai permanecer enquanto a pandemia da Covid-19 não estiver controlada.

Em entrevista à TV 7 Dias, explica como o surto do novo coronavírus afetou a gigantesca indústria de ficção da Globo, canal para o qual está a realizar a novela Salve-se Quem Puder, de cujo elenco o também português José Condessa faz parte. As gravações encontram-se suspensas por tempo indeterminado, ou não fossem «as possibilidades de contágio muito grandes».

Responsável por êxitos como Morangos com Açúcar, Meu Amor, Remédio SantoO Beijo do Escorpião e Ouro Verde, todos da TVI, Hugo de Sousa comenta ainda o que separa a ficção brasileira da portuguesa e antevê um regresso ao nosso país para breve. Mas «sem pressas», salienta o realizador, que na Globo participou ainda como realizador em Orgulho e Paixão.

 

«A ideia é todas as produções da Globo retomarem após a pandemia»

 

TV 7 Dias – À imagem do que aconteceu em Portugal, a ficção brasileira foi forçada a parar devido à pandemia da Covid-19.

Hugo de Sousa – E não foi muito mais tarde. Foi no dia 16. A Globo foi uma das primeiras empresas no Brasil a dar o alerta e a decidir parar tudo o que era possível parar. Pararam todas as novelas e alguns programas, embora algumas medidas já tenham sido tomadas uns quatro dias antes. Retirou-se, a título de exemplo, a audiência que faz figuração nos programas. Na prática, a Globo começou mais ou menos no mesmo tempo do que, por exemplo, a TVI em Portugal. Lembro-me de estar a ver simultaneamente a TVI e a Globo e os programas já estavam sem público. Foi tudo mais ou menos no mesmo timing.

Cá, se pararmos as gravações de uma novela há uma série de episódios em gaveta que permite a continuação da transmissão da novela. No Brasil, a situação já é diferente, porque o tempo que separa as gravações da exibição da trama é menor.

É verdade. Por acaso, houve algumas felizes coincidências no timing. Por exemplo, na novela das 18 horas, Éramos Seis, que iria terminar as gravações na semana em que a Globo decide parar. A Globo decidiu terminar as gravações a uma segunda-feira e, penso, as gravações terminariam nessa quinta-feira. O que fizeram foi alterar algumas coisas nos últimos dois episódios para terminar as gravações um dia mais cedo. E a novela aconteceu toda ela na íntegra e foi até ao final.

E em relação à novela de que é realizador, Salve-se Quem Puder?

Tínhamos só duas semanas de frente, o que significa que parámos no dia 16 e a transmissão da novela continuou por mais duas semanas. Terminou no sábado passado. O que se fez foi uma espécie de temporada. Alteraram-se umas coisas num determinado episódio, gravou-se ainda nessa segunda-feira esse final e fez-se um fecho de temporada. Deixou-se um gancho. A novela das 21 horas, Amor de Mãe, tinha menos frente ainda. Cinco dias depois terminou logo.

O gancho de que fala leva a crer, portanto, que as produções sejam retomadas.

Sim. A ideia é todas as produções retomarem. Até agora não existe qualquer informação em contrário. É esperar que tudo acalme, que a vida volte ao normal e, então, pegaremos a partir do momento em que estávamos.

No caso de Salve-se Quem Puder, quantos episódios foram exibidos?

Cinquenta e sete.

E estão previstos quantos?

Cento e 54, penso eu.

 

«Quando percebi que os voos iriam ser cancelados, apressei-me e vim para Portugal»

 

Como é que foi sentindo que o Brasil estava a reagir a esta pandemia? A ideia que há é que não houve logo uma grande preocupação com o assunto.

Primeiro, temos de perceber que o Brasil é do tamanho da Europa e é organizado por estados. Então, efetivamente, existiu praticamente em simultâneo com Portugal uma preocupação em dois dos estados: São Paulo e Rio de Janeiro. O estado de São Paulo tem mais habitantes do que Portugal e o Rio de Janeiro é quase a mesma coisa. Esses dois estados começaram logo a tomar medidas e esses medidas até foram coincidentes, mais ou menos, com a ação que a Globo teve de mandar os funcionários para casa. O que aconteceu foi que muitas dessas medidas acabaram por ser travadas pelos comunicados do Presidente da República [Jair Bolsonaro]. Ficou uma terra de ninguém. Uns querem uma coisa e outros querem outra. No Rio de Janeiro e em São Paulo, senti efetivamente que existia uma preocupação e um alerta dado. Grande maioria dos meus amigos e colegas, que mora no Rio de Janeiro ou em São Paulo, está em isolamento em casa.

E nota-se também uma paragem das cidades, como está a acontecer cá?

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, sim. No resto do país, não sei. Desde que vim para Lisboa, já não tenho acesso às notícias em tempo real, como tinha lá. Mas falo todos os dias com pessoas de São Paulo e do Rio e vou vendo nas redes sociais. Está tudo parado. Não está num nível em que está em Portugal, porque o Brasil é um país que tem problemas sociais muito superiores. Quando estamos a falar das favelas e das comunidades… É muito complicado parar uma favela. Não se consegue confinar durante duas semanas sete pessoas que moram em 20 metros quadrados. Não dá. Este é o grande perigo do Brasil. Quando o vírus entrar numa favela, como é que vai acontecer daí para a frente e como é que se vai parar isso? Foi por isso que voltei para Portugal.

Voltou há quanto tempo?

Cheguei na terça-feira da semana passada.

E por que razão decidiu voltar?

Por receio daquilo que possa vir a acontecer no Rio. Acho que pode ficar descontrolado. A partir do momento em que o vírus entrar numa favela, a coisa pode ficar descontrolada porque aquelas pessoas, infelizmente, não têm condições para se protegerem e cuidarem. Achei que estaria mais seguro aqui, em Lisboa.

Como foi a entrada em Portugal? Houve alguma medida por que tenha passado?

Zero, zero.

O que é assustador.

O que é assustador. Eu vim naquele que seria o último voo do Rio de Janeiro para Lisboa, daí também a minha urgência. Quando percebi que os voos iriam ser cancelados, apressei-me e vim. Todas as informações que eu ia vendo nas notícias portuguesas era que no aeroporto as coisas já estariam a ser controladas. Nada. Ninguém falou comigo, ninguém me disse nada.

Nem lhe foi medida a temperatura corporal?

Presumo que as câmaras de leitura térmica estavam lá e que alguém estaria a ver, mas ninguém me abordou nem ninguém me disse absolutamente nada. Aliás, fiquei preocupado porque era suposto alguém ter-me informado que eu seria obrigado a estar 14 dias em quarentena, porque estava a cometer um risco. Andei de avião, andei em aeroportos… Por mais cuidados que tivesse, eu estava a correr riscos e, então, a probabilidade de ser infetado foi alguma. Mas não. Ninguém me disse nada. Estou em quarentena durante 14 dias por consciência e por opção própria.

 

«As possibilidades de contágio eram muito grandes na Globo»

 

Está no Brasil há quantos anos?

Dois anos e meio já.

E como tem corrido esta aventura? Não digo que começou do zero, mas começou numa indústria que não o conhece como a portuguesa o conhece.

Bom, a indústria de lá, de certa forma, já me conhecia, senão não teria lá ido parar [risos]. Mas tem sido uma experiência fantástica. É muito bom perceber como é que as novelas brasileiras são feitas, quais as diferenças com as novelas portuguesas, o que nós já fazíamos aqui de bom e o que fazíamos de menos bom, porque não conseguimos fazer determinadas coisas… É lógico que estamos sempre a falar, na sua grande maioria, sobre uma questão de dinheiro. Mas é, sem dúvida, uma oportunidade fantástica trabalhar numa empresa que tem a estrutura que a Globo tem, com todos os meios e material humano com talento. Quando falo disto, falo de autores, cenógrafos, diretores de atores, diretores de fotografia… Existe muito talento numa quantidade muito grande. Em Portugal também existe, mas somos muito pouquinhos. Nós rapidamente nos conhecemos todos e já trabalhámos todos uns com os outros.

Tem ideia de quantas profissionais estão envolvidos na ficção da Globo?

Não sei em toda a ficção da Globo, mas sei que, por exemplo, no Projac, o polo principal da Globo, trabalham diariamente cerca de 5 mil pessoas. É muita gente! Aliás, esse foi um dos motivos pelos quais foi uma das primeiras empresas a parar. São cinco mil pessoas que trabalham fechadas dentro de estúdios, escritórios, salas de edição… As possibilidades de contágio eram muito grandes.

Se tivesse de apontar as maiores diferenças entre o que se faz cá e o que se faz no Brasil, o que diria? Além do número de pessoas, obviamente.

Há duas. A primeira é uma questão histórica: a qualidade dos textos. Quando digo a qualidade dos textos e dos autores, é relacionado com a história. Portugal escreve novelas há muito pouco tempo e o Brasil há muito mais tempo. Hoje em dia, no Brasil, é possível encontrar um adolescente de 16 anos que, ao lhe perguntarmos o que quer ser quando for grande, responde: ‘Ser autor de novelas’. Ele vai estudar para tal, porque já existe isso na cultura.

Em Portugal, não?

Em Portugal, não. Não se vai perguntar a um adolescente de 15 ou 16 anos se ele quer ser autor de novelas, porque ele não vai sequer pensar nisso. Não existe esse fator cultural que já vem de há muitos anos. Eles estudam para isso, eles pesquisam para isso. Está-lhes no sangue, praticamente. Portanto, uma das diferenças é a qualidade dos autores, mas é relacionada com uma questão histórica e cultural.

E a outra?

A segunda grande diferença é a questão orçamental. O dinheiro que há para fazer uma novela no Brasil é muito superior ao que há para fazer uma novela em Portugal. E isto é relacionado com a densidade populacional. Portugal tem dez milhões de habitantes e eles são 210 milhões de habitantes. As televisões vivem da publicidade. Fazer publicidade para um público-alvo de dez milhões ou 210 milhões são investimentos completamente diferentes. A base está aí.

Ainda assim, fazemos coisas muitos boas em ficção.

Não tenho qualquer dúvida disso. Aliás, faz parte do espírito português desenrascar. E o que é facto é que, com o dinheiro que temos para fazer televisão em geral e a novela em particular, fazemos autênticos milagres. Por exemplo, milagres técnicos, porque toda a parte técnica de fazer televisão é cara. Temos muito pouco dinheiro. E os produtos que temos feito são de extrema qualidade atendendo aos orçamentos que temos. E são os orçamentos possíveis. Não é uma crítica, é a nossa realidade. E os prémios que temos ganhado internacionalmente provam que estamos ao nível dos melhores e que não é pela falta de dinheiro que não conseguimos fazer bem. Agora, se tivéssemos dinheiro, poderíamos fazer muito melhor e poderíamos fazer histórias muito mais arrojadas e que despertassem outro tipo de curiosidade nos curiosidades.

 

«O meu objetivo é voltar para Portugal»

 

Além da parte técnica, também ao nível de representação estamos muito bem cotados.

Sem dúvida. Os atores portugueses estão ao nível dos melhores atores a nível internacional. Temos a prova no Brasil. Quantos atores portugueses estão neste momento a trabalhar no Brasil?

Era aí que eu queria chegar. É realizador da novela em que participa José Condessa. O impacto de trabalhar num país como o Brasil é completamente diferente para um ator. 

O Zé entrou na novela num processo normal de escolha. Foi uma sugestão do autor [Daniel Ortiz]. Ele fez o casting e acabou por passar no casting, juntamente com outros candidatos. O impacto, logicamente, é totalmente diferente. É muito mais impactante. Uma novela portuguesa, quando corre bem, atinge uma média de um milhão e 200 mil espectadores. No Brasil, quando corre bem, principalmente no horário das 21 horas, onde esteve recentemente o Pedro Carvalho com A Dona do Pedaço, estamos a falar de números que podem atingir os 100 milhões de espectadores. Numa noite! Estamos a falar de uma proporção gigantesca. E isto tem muito impacto em todos os níveis… Não é só nas redes sociais, é nas saídas à rua…

Ainda acontece a ideia de que, no dia a seguir à estreia numa novela, um ator é perseguido e acarinhado de uma forma, digamos, bastante efusiva?

Acontece, acontece. Acontece e muito. Tanto o Zé Condessa como o Pedro Carvalho moram relativamente perto de mim e nós encontramo-nos muito ao fim de semana. Vamos para a praia juntos. Temos a nossa mini comunidade portuguesa, incluindo a equipa técnica do Jorge Jesus, que também mora ali ao lado. E ir com eles para a praia é insuportável [risos].

Não tem saudades de Portugal?

Claro que tenho. Venho cá com alguma frequência. Sempre que posso estou em Lisboa. O meu objetivo é voltar. Estou a viver uma experiência, estou a viver uma fase e estou também num momento de aprendizagem. Logo veremos o futuro, mas as saudades de Lisboa existem sempre. Saudades da família, dos amigos, da casa, de tudo. E mesmo saudades de trabalhar aqui, como é lógico. Tenho vontade de voltar a trabalhar aqui, poder partilhar com toda a gente as coisas que aprendi lá e dizer que há muitas coisas que nós sabemos fazer bem e que descobrimos sozinhos.

Esse vontade de voltar a trabalhar cá é para se concretizar num futuro próximo?

Para já, não. Tenho dois anos de contrato para cumprir na Globo. Depois, logo se vê. Sem pressas. A única pressa, neste momento, é que este vírus passe.

 

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Texto: Dúlio Silva; Fotografias: Arquivo Impala e cedidas por Hugo de Sousa

 

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