Ricardo Pereira brilha novamente na Globo: «Sou pressionado por resultados»

Aos 40 anos, e quase a completar duas décadas de carreira, o ator faz um balanço muito positivo do seu percurso. Atualmente, integra o elenco de Éramos Seis, da Globo, mas novos voos aguardam por si.

27 Out 2019 | 11:50
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TV 7 Dias – Como estão a correr as gravações de Éramos Seis?

Ricardo Pereira – Estão a correr superbem! É muito especial fazer uma novela de época e, inclusive, uma novela que já foi feita e que teve um grande sucesso. Portanto, é também uma grande responsabilidade e está a ser um enorme prazer, mais uma vez, trabalhar em época. Tem sido uma experiência maravilhosa navegar pela época dos anos 20, 30 e 40, aqui no Brasil.

Apresente-nos o Almeida.

É uma pessoa do bem, um bon vivant, divertido, é o «galãzão» da história. É uma pessoa que, na época, sofre um bocadinho da crítica social porque é divorciado, e nesses anos era quase como viver com uma sombra. Apaixona-se pela irmã da Lola (Glória Pires), a Clotilde (Simone Spoladore), e encanta-se literalmente, mas vive a esconder que é divorciado, até que ganha coragem para contar.

Nessa altura tudo muda…

Sim. Isso muda o rumo da história dele, pois está completamente encantado por ela, e ela não quer viver esse drama social, que vai ter de viver caso aceite estar com ele e decida fazer uma vida a dois.

Como constrói a personagem?

Com muito trabalho. Como todas as personagens, esta exige dedicação, esforço e contextualização da época. Foi um trabalho bem exaustivo. Costumo dizer que a construção da personagem só acaba quando a novela acaba porque trabalhamos todas as semanas, não só as cenas que vamos gravar, mas também sempre a manter muito presente a época e os conflitos da época.

É mais exigente gravar uma novela de época?

É muito exigente porque temos de «limpar» muitos dos nossos comportamentos contemporâneos, pois são bastante diferentes da época que estamos a retratar.

Revê-se de alguma forma com a personagem?

Só se for no lado mais romântico, no lado em que acredita que o amor deve ser livre. Acho que se queremos falar em alguma coisa em que eu me reveja é nesta liberdade do amor, que se deve ser livre para escolher o que se quer e deve ser vivido na sua plenitude. Acho que é isso que o Almeida quer e acho que isso também é algo em que eu acredito.

O Almeida é bastante pressionado pelo patrão. Tal cenário também existe hoje em dia. Considera que houve um retrocesso de mentalidades?

O Almeida é, tal como todos os trabalhadores da loja de tecidos, bastante pressionado pelo patrão. Mas se quisermos fazer o paralelismo para outras profissões, acabamos todos por ser pressionados. Eu próprio também acabo por ser pressionado por resultados, por qualidade artística no meu caso, ou até mesmo por rigor no meu trabalho, mas acho que em todas as profissões acaba por existir isso, mas desde que haja bom senso tudo acaba por funcionar bem. Tanto os patrões como os funcionários, todos têm os seus objetivos e querem alcançá-los, por isso, desde que tudo corra na normalidade, o importante é que todos fiquem felizes e com um ambiente saudável, porque isso trará bons resultados para ambos.

O Ricardo alguma vez foi alvo de preconceito?

Não, nunca!

Cem anos depois, as mentalidades e as opiniões respeitam as diferenças?

Acho que se mudou muito, há mais liberdade, é um ganho muito importante as pessoas terem liberdade de escolha, e isso é fundamental porque acho que qualquer ser humano deve escolher o que considera ser melhor para a sua vida.

Atualmente, já são muitos os atores brasileiros a representar em Portugal. Como vê esse intercâmbio?

Fico feliz que os atores brasileiros também estejam em Portugal a desempenhar papéis com muito sucesso. Muitos são meus amigos, a maioria perguntou-me e tirou todas as dúvidas antes de ir para Portugal. Eles sabem a relação que eu tenho com os dois países, e pelo facto de eu trabalhar em ambos. Torço muito para que dê certo e ajudo sempre que posso.

Como é trabalhar com a consagrada Glória Pires?

É um prazer, já tinha trabalhado com ela. É uma atriz maravilhosa, dispensa qualquer tipo de apresentação, tem um trajeto e uma carreira brilhante, é uma companheira de cena incrível, é uma contracena ótima, uma pessoa que nos ensina muito, pela sua experiência, e é uma parceira superdivertida, simpática, disponível para trabalhar, para trocar, para querer fazer o melhor e para ajudar quem precisa.

Contracena com muitas mulheres bonitas. A Francisca sente ciúmes?

Eu já era ator antes de começar a namorar e de casar com a Francisca, então ela é supertranquila em relação a isso. Inclusive, normalmente, gosto de ter uma relação próxima com os meus colegas de trabalho, de extrapolar um bocadinho o nosso dia de trabalho, de convidá-los para jantar, de termos uma vida para além das nossas vidas de gravação, e a Francisca acaba por criar uma amizade boa e saudável com todas. Essa distinção está bem clara para ela.

Ela tem por hábito ver as suas cenas mais ousadas?

A Francisca vê todo o tipo de cenas. Ela acompanha o meu trabalho, é crítica, dá-me conselhos, tem uma visão boa de exterior, e é muito importante a opinião dela.

É crítico do seu trabalho?

Sou bastante crítico do meu trabalho e revejo muito aquilo que faço. Acho muito importante isto, nós temos de ter sentido crítico, óbvio que temos também de entender as circunstâncias em que alguma coisa foi feita, mas acima de tudo temos de nos olhar e conseguir distanciar para nos aperfeiçoarmos.

Já mostraram publicamente a vontade de aumentar a família. Para quando a chegada do quarto filho?

Vamos com calma! Temos três filhos e gostamos de viver intensamente ao lado deles e de aproveitar todos os momentos. Então um quarto filho é um sonho, mas três filhos já é uma logística enorme. Estamos a deixar a nossa Juli crescer mais um bocadinho. Sempre dissemos que gostaríamos de ter quatro filhos e acho que esse é um projeto que iremos concretizar a seu tempo.

Como concilia a apertada agenda com a vida familiar?

Acima de tudo, e em primeiro lugar, vem sempre a vida pessoal. Para nós é muito importante estarmos presentes em todos os momentos dos nossos filhos. Obviamente que tendo uma agenda muito ativa, entre vários países, e a Francisca também, é só uma questão de boa organização.

A Francisca está sempre ao seu lado. Esse apoio reconforta-o?

Ter a Francisca ao meu lado é a melhor coisa do Mundo, a companheira que ela é, a parceira que ela é, a mãezona que ela é, torna tudo sem dúvida muito mais fácil. É como eu digo, a vida pessoal tem de estar bem, para nós também estarmos bem na nossa vida profissional.

O Ricardo está feliz com a trajetória que a sua carreira está a seguir?

Estou extremamente feliz com a carreira, com os passos dados, dados conscientemente e cuidadosamente pensados, não só por mim, mas também pelas pessoas que estão comigo nesta aventura já há muitos anos. Deste modo, temos conquistado, sem dúvida, um caminho que me deixa muito feliz quando olho para trás. Falta muita coisa! Eu sou um eterno workaholic! Então gosto desta coisa de estar todos os dias a querer crescer artisticamente mais um bocadinho. Esse será sempre o meu objetivo, mas até agora sinto-me muito realizado.

Tem mais algum projeto na calha?

Além de Éramos Seis, estreámos o filme Golpe de Sol, de Vicente Alves do Ó, onde sou um dos protagonistas. Tenho mais dois filmes para estrear, este ano, aqui no Brasil. Temos também um projeto de teatro que estamos a estudar e mais um filme para fazer. E continuar, obviamente, a apresentar o E-Especial. Caminhamos também para a terceira temporada do Sem Cortes, gravado aqui no Brasil para a Globo Portugal.

É um dos atores mais acarinhados do público. Sente que, a cada dia, o seu nome ganha um maior peso?

Quem me conhece sabe que eu sou bastante humilde, ou seja, às vezes não tenho noção dos anos que já tenho de carreira, nem dos projetos pelos quais já passei em televisão, cinema e teatro. Orgulho-me do que fiz, acho que estou bem mais preparado para qualquer tipo de desafio, em qualquer tipo de língua. Em relação ao peso do nome, acho que isso são as outras pessoas que têm de falar sobre mim. Sou apenas um jovem e faço o meu trabalho, amo a minha profissão e gosto de aprender com todos. Sinto que o público me acarinha, mas eu também o acarinho. O artista não vive sem público. Eu fico  muito grato.

Como está a lidar com a chegada dos 40 anos? Também é da opinião de que os 40 são os novos 20?

Sinto-me feliz. Lido da melhor maneira, tenho um trajeto de vida superpleno, com uma família que eu sempre desejei, e estou num momento profissional incrível, rodeado de quem amo. Então estou a viver uns 40 muito felizes e sinto-me com vigor para dizer que os 40 são os novos 20, vigor também para estar completamente disponível para a família, para a profissão e para me sentir um jovem com vontade de querer fazer mais e melhor.

 

Texto: Sónia Antunes Rodrigues | Fotografias: Globo/Raquel Cunha, Impala e reprodução redes sociais

 

(entrevista originalmente publicada na edição nº 1701 da TV 7 Dias)

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