Sérgio Praia não perdoa os pais: «Sinto-me vazio. Não sinto que haja ligação»

Sérgio Praia foi surpreendido por mensagens cheias de sentimento por parte dos pais mas mostra-se relutante a uma aproximação dos progenitores, após anos de ligações cortadas.

03 Out 2020 | 15:38
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Sérgio Praia foi o entrevistado de Manuel Luís Goucha no programa Conta-me deste sábado, dia 3 de outubro. Com o cenário de da praia do Furadouro, em Ovar, de onde é natural, o artista falou abertamente sobre o doloroso passado e do corte com a família aos 15 anos.

O ator da novela Amar Demais, da TVI, recorda que nunca teve uma ligação fácil com os pais, que nunca o apoiaram no sonho de seguir representação e ballet. A vida de Sérgio deu um ‘clique’ no momento em que os pais lhe queimaram as roupas e fotos, que consideravam «diferentes».  Aí confessa que pensou em «começar do zero».

Aos 15 anos decide deixar tudo para trás, após ter trabalhado na construção civil e num supermercado, e sair da terra natal. «Saí de casa muito cedo porque tinha medo de me perder e não conseguir alcançar as coisas. Sempre senti que tinha de ter aquele turbilhão e aquela raiva, porque eu queria os grandes papéis», diz.

«Decido fugir de casa e ir para o Porto com 40 contos que roubei do meu pai. Roubei-lhe de um cofre. Planeei tudo. Fiz um saco com atum, salsichas, velas, uma carta de uma amiga do Porto, umas calças e sapatilhas de ballet. Fugi pela praia. Fui ate Esmoriz. Levava umas calças de ganga e à medida que ia andando ia cortando as calças. Fiquei com um calção muito curto e troquei de calças». A ideia era fazer umas «sequências de ballet» à frente do Teatro Nacional do Porto para ver se «alguém o chamava».

«Sempre tive medo de não ter o que comer»

Depois de seguir uma linha de caminho-de-ferro que o levou até Valongo, Sérgio confessa ter pensado «nas coisas com mais calma» e entregou-se na esquadra local. «Sempre tive comida em casa e sempre tive medo de não ter o que comer. Se calhar tinha de resolver alguns problemas em casa. Entreguei-me na esquadra e o meu pai foi-me buscar no dia a seguir. Mandaram-me para um seminário uns meses para refletir. Ali eu percebi que estava certo».

Manuel Luís Goucha pergunta-lhe se nesse momento o pai lhe perguntou alguma coisa sobre o dinheiro que lhe tinha roubado. Sérgio não segura a emoção e fica lavado em lágrimas: «Nós não falamos. Acho que nunca vamos falar», responde.

O pai de Sérgio surpreende o filho com uma mensagem especial: «Era um bom filho. Era e é. Sinto muito orgulho nele, naquilo que ele fez. A vida as vezes prega-nos partidas, muitas das vezes pode inverter para outros sentidos, muitas vezes se erra. Errar é humano, mas é um bom filho. Mando-lhe um abraço, porque era o que eu gostaria de lhe dar agora. Espero que andes feliz com o que estás a fazer. Um abraço grande do teu pai».

«Não sinto que haja ligação»

O entrevistador pergunta a Sérgio, visivelmente emocionado, o que é que o mar, que sempre foi seu conselheiro, lhe diz naquele momento. «Segue em frente», afirma o ator, que mostra-se reticente em perdoar o pai. E justifica:

«As coisas quando não são criadas de raiz, dificilmente vão ter uma ligação mais tarde. O que eu sinto com a minha família é isso. Nunca tive ajuda de nenhum deles e não os culpo, nunca tive uma ajuda para perceber o que é gostar ou sentir carinho, nunca senti isso dos meus pais», começa por dizer. «Mais tarde, quando me é pedido isso, eu sinto-me vazio. Não sinto que haja ligação. Quero ser verdadeiro comigo, não vou, passado uns anos, fazer de conta que ficou tudo bem». 

«O meu pai é uma pessoa muito violenta»

«Tentou-se conversar algumas vezes, mas há coisas que não funcionam mesmo. Não vou dizer que sou completamente feliz. A minha maior mágoa foi com o meu pai, ele é uma pessoa muito violenta. A minha mãe sofreu bastante naquelas mãos durante muito tempo. Nem eles tinham noção, nem eu, que isto me marcasse tanto na minha vida», desabafa.

Sérgio reforça que «emocionalmente não há nada» e que entre eles «não funciona», muito por causa da falta de comunicação: «há coisas que deviam ter sido faladas, eu tentei varias vezes falar sobre as coisas». O rosto da TVI acabou por encontrar o «ponto de equilíbrio na «arte» e em «ver pessoas a fazer arte».

«Todas as maneiras que toquei na Teresa foi a pensar em como seria tocar na minha mãe»

Embora mais próximo da mãe, Sérgio revela que a relação com a progenitora também não foi fácil. «Tudo o que eu faço na minha vida é inspirado na minha mãe. Não temos relação hoje, mas tivemos durante algum tempo. Sei que ela me ama e eu amo à minha maneira. A minha mãe está em todos os trabalhos».

Sérgio confessa que quando contracenou com Teresa Madruga, no filme de António Variações (no qual foi protagonista), pensou sempre na mãe. «Sempre que olhava para ela, eu via a minha mãe. São muito parecidas. Todas as maneiras que toquei na Teresa foi a pensar em como seria tocar na minha mãe».

A mãe de Sérgio também lhe deixou uma emocionante mensagem, em que realçou o amor e orgulho que sente pelo filho, dizendo que colecciona todas as revistas onde o artista aparece. Sérgio volta a emocionar-se e chora. «É a minha inspiração, ela é linda. Eu amo-a, independentemente destas coisas que a vida nos deu».

Sobre a possibilidade de reconciliação com os pais, Sérgio afirma: «Há coisas que têm de seguir o seu caminho, mas quem sabe, a vida já deu tantas voltas… Também nunca pensei que conseguia sair do Furadouro e estou aqui!», remata.

Texto: Inês Borges; Fotos: DR

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