Soraia Tavares no FESTIVAL: «Vai ser a primeira vez que o meu pai me vai ouvir ao vivo»

Quando recebeu um telefonema de Lura, logo pensou que iria ser a sua escolha para o Festival RTP da Canção. Assim foi. E, pela primeira vez, terá o pai na primeira fila a ouvi-la.

13 Fev 2019 | 19:10
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Chama-se O Meu Sonho e fala de um mundo ideal. O tema escrito e composto por Lura para o histórico certame da RTP, que será escutado na primeira semifinal, não é, contudo, uma utopia, considera a sua intérprete. «Acho que podemos caminhar para aquilo que canto», crê Soraia Tavares.

Cantora e atriz, a sua participação no talent show da RTP1 The Voice Portugal, em 2015, e em novelas da SIC e da TVI fizeram-na chegar ao grande público. A Lura já Soraia tinha chegado, por intermédio da irmã, como a própria conta em entrevista à TV7 Dias.

 

A Soraia Tavares que vai pisar o palco do Festival RTP da Canção, no próximo sábado, dia 16, é uma atriz que canta ou uma cantora que representa? Ou nenhuma das duas?
Acho que sou cantora e atriz. As pessoas conhecem-me das novelas, mas tenho um grande público que me segue por causa do The Voice, que foi a primeira coisa que fiz publicamente com mais projeção.

A sua participação teve um grande impacto.
Sim. Cheguei até à semifinal e muitos dos meus seguidores vieram daí. E aconteceu que, três dias depois de ter saído do programa, apareci na novela A Única Mulher (TVI, 2015-2017), portanto, acho que as pessoas me conhecem dos dois lados. Mas eu digo que sou cantora e atriz, porque faço trabalhos só como cantora e trabalhos só como atriz. E faço teatro musical, em que faço as duas coisas.

 

 

Como é que a música e a representação surgiram na sua vida? Qual é que apareceu primeiro?
A música surgiu primeiro. Comecei a cantar numa igreja – sou evangélica.

Em coros?
Não. A minha mãe sabia que eu cantava e há um dia em que ela me incentivou a cantar. Sozinha, com um instrumental e… ‘bora lá! Como formação, comecei primeiro como atriz e a pensar em fazer disso profissão. Eu cantava mas não achava que poderia cantar para muitas pessoas. Achava que era uma coisa só da igreja. Depois, surgiu a paixão pelo teatro e decidi ir para a Escola Profissional de Teatro de Cascais.

Para teatro musical?
Não, só para teatro. Na altura, tinha um professor de voz que me chamou para fazer um espetáculo de teatro musical [Wojtyla] e foi aí que também comecei a cantar.

Lembra-se do que sentiu na sua primeira atuação numa igreja?
Muito nervosismo. [risos]

Que se mantém até hoje? Ou hoje sente outro tipo de nervosismo?
Mantém-se e é um nervosismo bom. Quando deixar de ficar nervosa é porque alguma coisa está errada. Quando queremos muito uma coisa e damos verdadeira importância a ela, queremos que os outros gostem e isso faz-nos ficar nervosos, porque queremos que corra bem. Portanto, mantém-se. Não ao nível de quando tinha 14 anos, mas mantém-se.

Na altura em que cantava numa igreja sonhava com fazer da música e da representação a sua vida?
Sonhava, mas tive uma altura em que achei que não ia cantar, em que achei que só ia ser atriz

Porquê?
Tinha a ver com a escola, se calhar. Lembro-me de que, quando comecei a fazer esse tal espetaculo, não me punha no lugar dos cantores. Achava que os outros cantavam muito melhor do que eu e que eu dava o outro lado, o de atriz. Nessa peça, fazia coros e tinha uma personagem que só falava e que não cantava nada a solo e é engraçado que, depois, voltámos a fazer esse espetáculo e confiaram-me a cantar uma música inteira. Foi a partir daí que comecei a perceber que se calhar cantava melhor do que achava que cantava ou que se calhar as pessoas gostavam mais de me ouvir do que eu achava que gostavam.

Portanto, fazer da música a sua vida não era, até aí, um sonho.
Não. Eu sabia que gostava muito, mas o meu sonho era ser atriz.

E hoje, sonha com poder fazer da música a sua vida?
Para mim, o mundo ideal seria poder conciliar com a representação. Se, no ano passado, estava mais focada na parte interpretativa, este ano estou um pouco mais focada na música. Mas isso não quer dizer que não trabalhe como atriz e vice-versa.

Essa mudança coincidiu com o convite para o Festival RTP da Canção?
Sim, sim. Sinceramente, acho que as propostas que me foram feitas e às quais também me propus fizeram o meu caminho. Nunca pensei ‘ok, agora vou só cantar’ ou ‘agora vou só representar’. As oportunidades foram surgindo e eu fui aceitando.

 

«Quando vi o nome da Lura no meu telemóvel, percebi logo que seria para o Festival»

 

Como é que surgiu a oportunidade de cantar no Festival?
A minha irmã é muito fã da Lura, mesmo muito fã. Desde pequenina que já a ouvia.

É mais nova ou mais velha?
É 16 anos mais velha do que eu. Ela mora na Suíça e, sempre que a Lura vai à Suíça dar um concerto, a minha irmã está lá. Não houve um a que não tivesse ido. E, há alguns anos, ela falou-lhe de mim: ‘Tenho uma irmã que canta’. Mas para a Lura eu era apenas ‘a irmã da fã’. [risos] Até que ela veio a conhecer o meu trabalho, começou a seguir-me nas redes sociais e começou a acompanhar-me – sei, por exemplo, que ela viu um espetáculo que fiz, o musical Eusébio.

Nessa altura, a Lura associou-a logo à ‘irmã da fã’?
Sim, sim. Nós hoje em dia falamos muito da minha irmã. Ela foi acompanhando o meu trabalho e trocámos números. Até que há um dia em que recebo um telefonema dela. Quando vi o nome da Lura, percebi logo que seria para o Festival.

Percebeu logo que ia ser convidada pela Lura para interpretar o seu tema?
Percebi logo. Eu já sabia que ela era uma das compositoras e, não sei bem porquê, tive um feeling. Antes de ela me ter feito a proposta, já eu estava a pensar: ‘Por que não?’. Isso é que é engraçado, isso é que é confiança! [risos]

O que achou quando ouviu a canção?
Quando ouvi, ouvi na voz da Lura e soou-me muito bem. Adoro a voz dela e acho que deu peso àquelas palavras. A música, depois, levou uma grande transformação, pelo produtor [Diogo Clemente] e por mim.

Que input deu à canção?
Foi mais na parte dos coros. Gosto de fazer harmonias vocais e, na altura, o Diogo disse que tinha visto alguns vídeos meus e que gostava gostava de tornar o tema em algo do género dos covers que costumo pôr nas redes sociais. Achou que era giro e assim foi.

 

 

Isso foi há quanto tempo?
Foi no final do ano passado.

Desde aí, como tem vivido estas semanas?
Tenho estado nervosa. Fiquei mais nervosa quando disseram que as músicas iam sair antes [pela primeira vez, os 16 temas a concurso foram disponibilizados na integra antes das semifinais]. Aí é que me deu o nervosismo, por causa do impacto do público.

 

 

E o que é que o público tem achado?
As pessoas têm gostado, principalmente da mensagem da canção. Têm-me falado muito disso e têm elogiado muito a minha voz, o que me deixa super contente.

Participar no Festival era um sonho?
Acho que vim daquela leva de pessoas que começaram a prestar mais atenção com o Salvador [Sobral, o intérprete de ‘Amar Pelos Dois’, o tema com o qual representou Portugal no Festival Eurovisão da Canção 2017, que acabou por vencer]. Mas já seguia algumas coisas, já tinha algumas músicas preferidas.

Está a concorrer para ganhar ou não pensa na vitória?
Neste momento, não penso na vitória. Mas claro que a quero, embora o que eu queira mesmo seja interpretar a canção da melhor maneira, ficar orgulhosa e deixar a Lura orgulhosa.

A Lura diz que era importante que o tema fosse cantado por uma mulher. Concorda?
Para mim, aquela mensagem poderia ser cantada por qualquer pessoa, mas acho que o objetivo da Lura pode ser mostrar o lado frágil que tenho, não como mulher mas como Soraia, e ao mesmo tempo o power que ela diz que tenho na voz. Acho que é isso que ela quer dizer.

A ideia que passa é que a canção está muito centrada na letra, mais do que na música. Foi propositado?
Sim, sim, foi algo propositado, para que as palavras fossem mais fortes. Mas acho que vai ter outro impacto ao vivo, sabe? Quando se ouve o tema gravado, não é a mesma coisa, porque ainda falta a ideia visual.

 

«Não sinto muito na pele o preconceito»

 

Que impacto têm as palavras que canta?
Tem uma mensagem de esperança, mas não é convencional. Em vez de ser algo do género ‘vamos amar-nos todos uns aos outros», é ‘sonho que, um dia, deixemos de nos focar nas coisas más e passemos a focar-nos nas coisas boas’.

Fala na palavra ‘sonho’. Aquilo que canta é uma utopia?
Acho que podemos caminhar para aquilo que canto. A questão do preconceito, de não haver cores, de não haver línguas, de não haver barreiras nem fronteiras… Pode ser muito devagar, mas acho que cada vez mais há seres humanos sensibilizados para esse tipo de causas. A verdade é que é uma luta muito grande e que acho, sinceramente, que vai existir sempre.

Não acredita que é algo que vai terminar?
Acho que, sempre que o ser humano tiver alguma coisa que seja diferente dele próprio, vai haver sempre uma espécie de rejeição. Acredito muito numa coisa: ‘Podemos lidar com aquilo que pensamos. O que fazemos com aquilo que pensamos é que temos de escolher bem’. Isto é uma mensagem forte.

Passou ou passa pelo preconceito de que fala?
Sinceramente, não sinto muito na pele, mas fico muito revoltada, principalmente, quando o vejo à minha volta. Acho que tem mesmo a ver com as pessoas, com o ser diferente… Não só pela cor, mas pela forma como nos vestimos, pela nossa personalidade, pelas nossas escolhas de vida.

Isso é reflexo de que os seres humanos têm medo da diferença?
Mais do desconhecido, talvez.

 

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Como reagiu a família quando lhe disse que ia participar no Festival?
Ficou muito contente, principalmente por ser com a Lura.

Vão estar a apoiar-te no Festival?
Vão, vão. A minha irmã também. Vem da Suíça.

O seu pai também? Continua emigrado em Cabo Verde?
Não, já está cá, desde o ano passado, e vai ser a primeira vez que me vai ouvir cantar ao vivo. Acho que vai ser bom.

 

Texto: Dúlio Silva | Fotografias: arquivo Impala

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