“Sou uma pessoa de palavra”: TVI cortou salário a Fátima Lopes e não cumpriu o prometido

Fátima Lopes admite não ter visto com bons olhos as palavras enviadas por Manuel Luís Goucha a Júlia Pinheiro. A apresentadora comenta ainda o comportamento da TVI que a fez sentir-se mal.

19 Jun 2021 | 18:00
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Fátima Lopes acabou de lançar o seu oitavo livro, “Encontrei o Amor Onde Menos Esperava”. À margem do lançamento do romance, a apresentadora aceitou dar uma entrevista à TV 7 Dias, na qual comenta a mensagem enviada por Manuel Luís Goucha a Júlia Pinheiro, aquando da sua ida ao programa “Júlia”, da SIC, fala da sua saída da TVI, da reação dos colegas ao regressar aos dois canais e ainda sobre a forma como lidou com os dois confinamentos, que aconteceram em fases muito distintas da sua vida.

Foi no passado dia 19 de maio que Fátima Lopes foi convidada por Júlia Pinheiro para marcar presença no seu programa para uma descontraída conversa sobre a sua nova obra. No mesmo dia, Manuel Luís Goucha esteve à conversa com Cristina Ferreira no programa “Cristina ComVida” e, durante a emissão, o apresentador da TVI revelou à colega ter enviado “uma mensagem para a Júlia a dizer: ‘Deus te proteja que a santinha vai a caminho’”. De imediato, este trecho do programa ficou viral.

Questionada por Inês Lopes Gonçalves e Miguel Rocha no segmento “Pressão no Ar”, do “5 Para a Meia-Noite”, da RTP1, sobre se era verdade que Goucha a chamava dessa forma, a apresentadora revelou: “Chamou algumas vezes, no passado, e eu disse-lhe que não queria que me chamasse. Eu tenho um nome. É Fátima Lopes.”

 

Fátima Lopes sobre boca de Goucha: “Não me considero má pessoa”

 

Questionada pela TV 7 Dias sobre este assunto e como se sentiu ao saber da mensagem enviada, a profissional explica que “antes desse comentário houve outro. ‘Que Deus te proteja, vai aí a santinha’. Eu não gostei e mais não digo. Nós pedimos para as pessoas estarem protegidas se é alguma coisa de mal e eu não me considero má pessoa nem má presença”.

Apesar de, à data da nossa entrevista, Fátima Lopes ainda não ter falado com o colega, a apresentadora garante não misturar as coisas e reconhece em Manuel Luís Goucha características profissionais de valor.

“Foi das pessoas com quem mais gostei de trabalhar na TVI e, se um dia a vida nos juntar, tenho a certeza de que vamos fazer bem e vamos ser felizes a fazer. Porque nós nos entendemos muito bem a trabalhar os dois”, começa por dizer, afirmando ainda ter “um profundo respeito por ele”. “E ele tem um profundo respeito por mim. Profissionalmente, não tenho absolutamente nada a dizer e todas as coisas que fizemos juntos fizemos com grande satisfação. Isto não mudou. Eu mantenho o que disse e o que penso do Manel. Ele continua a ser, para mim, uma referência e continua a ser um homem de quem vejo as entrevistas pelo prazer de o ver conversar com as pessoas. Isto mantém-se intacto, nada mudou, nem a minha opinião sobre ele”.

 

Fátima Lopes insatisfeita com perda de condições na TVI

 

Foi no dia 8 de janeiro que a TVI anunciou a saída de Fátima Lopes do canal de Queluz de Baixo, após cerca de 11 anos de colaboração. Apesar de garantir ter saído “a bem com toda a gente”, a apresentadora explica que esta sua decisão está relacionada com “um somatório de desconsiderações e desvalorizações”.

“É uma sucessão de situações, primeiro um programa que se apresenta diariamente [N.R.: ‘A Tarde É Sua’], esse programa não pode ser mexido a torto e a direito, isso provoca um desgaste imenso nas equipas e em quem o apresenta. Isso são desconsiderações e desvalorizações. E depois passaram uns quantos anos e, nas minhas renegociações, eu vou perdendo condições. Não é suposto as pessoas melhorarem competências e terem menor reconhecimento”, afirma, referindo-se não só à redução de ordenado que sofreu, como também ao contrato proposto para o formato “C’è Posta Per Te”, que iria apresentar ao fim de semana, e ainda com as mexidas sugeridas para o programa de entrevistas “Conta-me Como És”.

 

TVI nunca repôs salário a Fátima Lopes: “Fez-me sentir mal”

 

Nesta conversa exclusiva com a TV 7 Dias, a profissional de televisão garante que a sua decisão não foi ponderada ao longo do tempo, mas sim o resultado do “desenrolar dos acontecimentos, que não permitiu chegar a um entendimento. Portanto, foi uma coisa relativamente rápida. Eu, na minha cabeça, tenho um cenário, o outro não concorda com o cenário que estou a desenhar, não chegamos a um acordo, ponto final”.

Um dos fatores que influenciou a sua decisão foi o corte temporário de 30 por cento do ordenado, que, apesar de ver que novos profissionais estavam a ser contratados para o canal, acabou por nunca ser reposto. “Fez-me sentir mal. Senti que não estavam a cumprir o que tinham combinado comigo e eu sou uma pessoa de palavra e, por outro lado, se a justificação que nos é dada é ‘este é o cenário que te apresentamos porque a empresa está muito mal e não dá para fazer frente’, não podem dizer A e fazer B. Como o que vejo acontecer não bate com a justificação que me foi dada, obviamente que se instala um mal-estar.”

 

“Conta-me” ia ser conduzido por apresentadores… e jornalistas

 

Também a sua saída do daytime da TVI e a possibilidade de ir apresentar um novo formato ao fim de semana acabou por não ir ao encontro das suas expectativas, pois, esclarece Fátima Lopes, “quando se tem um programa diário, grande parte das nossas receitas vem de fontes várias, não só da apresentação do programa. Se nós deixamos de ter um programa diário, essa diversidade deixa de existir e não pode simplesmente deixar de existir, tem de se pensar num plano B para isso. Se esse plano B não surge, a pessoa tem de pensar: ‘Faz sentido na mesma ou vou continuar a manter um vínculo que exige exclusividade a todos os níveis e na verdade, depois no resto, eu sinto como se tivesse andado para trás?’. A mim isto não fazia sentido”.

Outro processo que levou a que Fátima Lopes decidisse sair do canal de Queluz de Baixo está relacionado com o regresso do “Conta-me Como És”, que saiu de antena no início de 2020 e que Cristina Ferreira, na qualidade de Diretora de Entretenimento e Ficção da TVI, quis trazer de novo à TVI.

Contudo, aquilo que seria um motivo de felicidade acabou por ter um sabor agridoce, pois, esclarece: “Inicialmente, o ‘Conta-me Como És’ regressava com a apresentação que tinha tido até aí, ou seja, comigo. Depois, afinal, o ‘Conta-me’ regressava comigo e em rotatividade com outro apresentador, e aí eu disse que não apresentava. Depois, afinal, já era com apresentadores e pessoas da informação, ao que disse que isso era um formato completamente diferente. Então OK, se é uma coisa nova, vamos a isso.”

 

Fátima Lopes assume descontentamento com TVI: “Eu não sou criança”

 

No entanto, a TVI voltou atrás e informou Fátima Lopes que o formato iria regressar, mas com dois apresentadores, algo que a desagradou. “Se, inicialmente, isto tivesse sido apresentado desta maneira, davam-me a possibilidade de dizer que sim ou que não. Se me apresentam uma coisa e, na prática, constato que é outra, aí não, porque eu não sou criança.”

Na altura, a profissional questionou o canal sobre o motivo para esta mudança. A justificação que foi dada “foi de novo financeira e eu não me recusei, porque sou uma pessoa de palavra. Se tinha dito que sim, eu ia permanecer, mas eu já tinha percebido como é que estavam as escolhas, as escolhas eram financeiras. Portanto, eu não era uma primeira escolha neste programa. A diferença é que este programa foi começado por mim, portanto não era uma coisa que me agradasse muito”.

 

“Foi estranho” voltar à TVI como convidada, confessa a apresentadora

 

Apesar da sua saída inesperada, Fátima Lopes garante que a TVI continua a ter as portas abertas para si, até porque já esteve no “Dois às 10” para falar do seu livro. “Eu fui simplesmente uma profissional que deixou de colaborar com a TVI. Não virei uma persona non grata, que não pode entrar nas instalações. Eu entrei, estacionei o meu carro onde toda a vida estacionei, fui recebida com a simpatia com que sempre fui recebida, fiz o meu programa, saí e fui-me embora”, esclarece.

Ainda assim, a sua ida ao programa apresentado por Cláudio Ramos e Maria Botelho Moniz foi para si “estranho. Porque toda a vida entrei ali como trabalhadora e de repente vou na qualidade de convidada. Foi estranho, mas tenho este lado assustadoramente pragmático. Acabou este capítulo, acabou. O bonito foi ver os meus colegas irem ao estúdio para me cumprimentarem, técnicos com quem trabalhei dez anos, pessoas da produção. Isso para mim é respeito e carinho”.

 

O que disseram a Fátima Lopes no regresso à SIC

 

Antes do seu regresso à TVI, Fátima Lopes já tinha estado na casa que a viu nascer como profissional, a SIC, algo que achou “estranho ao princípio, porque não entrava lá há dez anos, quase 11”. Contudo, a receção não podia ter sido melhor, pois “estavam lá ainda muitas das pessoas que trabalharam comigo antes de ir embora. Muitos vieram cumprimentar-me ainda antes de começar o programa e, por exemplo, técnicos que estavam noutros estúdios, no intervalo, vieram ter comigo. Foi tão giro. Ouvi muitas vezes uma frase que achei engraçada: ‘É bom ver-te aqui’. Achei piada porque era aquela coisa de carinho. Disseram que tinham saudades de trabalhar comigo, perguntaram quando é que voltava. Quem sabe um dia. Não sei quando regressarei à televisão, nem onde, não faço ideia”.

Apesar de não saber quando voltará à antena na qualidade de apresentadora, a profissional diz que não vai comentar as movimentações que já existiram à sua volta, mas garante que “já aconteceram muitas”.

 

Programas são uma inspiração para a escrita de livros

 

Foi em maio deste ano que Fátima Lopes lançou o romance “Encontrei o Amor Onde Menos Esperava”, uma obra que garante não ter nada de autobiográfico, à exceção dos valores morais da personagem central, que são os seus. Em declarações à TV 7 Dias, a apresentadora começa por explicar que a sua inspiração para escrever livros vem da experiência profissional em televisão.

“Se fizermos programas com histórias de vida, a dificuldade é escolher inspiração, porque são tantas histórias de vida verdadeiras que o que não falta é inspiração para criar e inventar histórias. É muito fácil quando nos cruzamos com tantas vidas ao longo de uma semana, um mês, um ano, quase 30 anos.”

Quanto à sua mais recente obra, ela explica que Sofia, a personagem central do livro, “tem de Fátima os valores pelos quais ela orienta a sua vida, esses são assumidamente de Fátima, ou seja, os valores que levam esta mulher a fazer as suas escolhas, a olhar para os outros, a forma como ela olha para a vida, são os meus valores. Porque eu sinto muita necessidade de partilhar isso com as pessoas. Não que os meus valores sejam melhores que os das outras pessoas, não é isso, é porque eu acho que os valores que me foram ensinados e que eu pratico ajudam muito as pessoas, é mais por aí. Ela tem muito daquilo que é a minha coluna vertebral”.

 

Fátima Lopes: “Qualquer ser humano tem a oportunidade de renascer”

 

Quanto à experiência de vida da personagem e os seus fracassos amorosos, a apresentadora garante que é “a antítese” daquilo que já viveu. Sofia foi uma figura que, no livro, renasceu ao deixar a vida na cidade e mudar-se para o campo. Questionada se a sua decisão de sair da TVI tinha o mesmo significado, Fátima Lopes esclarece que “qualquer ser humano, quando toma decisões que são importantes para si, tem a oportunidade de renascer. Isso não quer dizer que o que tenha ficado para trás tenha sido mau, pode simplesmente já não fazer sentido neste momento das nossas vidas. (…) Eu sou assim. Posso achar que um determinado capítulo já não faz sentido, mas isso não quer dizer que haja uma coisa quase de metamorfose. Não tem de haver metamorfose. Pode ser simplesmente um capítulo que para mim está acabado e eu sinto necessidade de começar outro”.

Atualmente, Fátima Lopes dedica-se, entre outros projetos, à sua plataforma Simply Flow, a palestras em empresas e a seminários online. Criou ainda um canal de YouTube em parceria com o chef Vítor Sobral, “Ó Chef”, no qual todas as sexta-feiras é lançada uma nova receita.

 

Sofrimento em tempo de COVID-19

 

Perante a situação de alarme vivida no País, devido à pandemia de COVID-19, Fátima Lopes escolheu, no primeiro confinamento, enviar os pais e os filhos para a sua casa no Alentejo, para que estes estivessem protegidos, uma decisão que garante ter sido “particularmente difícil”.

Para si, a opção tomada foi complicada porque, uma vez que ainda estava na TVI, apenas podia estar com os filhos ao fim de semana. “Eu não sou mãe de fim de semana, sou mãe de todos os dias, e isso para mim foi muito difícil, todos os dias. Custou-me bastante. Mas também há um lado positivo. Eles cresceram e eu amadureci ainda mais e percebi que tenho ainda mais resiliência do que aquela que eu achava.”

Quando houve o levantamento das restrições, foi uma “sensação de alívio, por poder ter os meus filhos todos os dias”. Com o segundo confinamento, já longe do pequeno ecrã, a apresentadora garante que “foi diferente. Senti que Deus me deu a oportunidade de compensar o que eu não tinha feito para trás”.

 

Texto: Carla Ventura (carla.ventura@impala.pt); Fotos: reprodução redes sociais e Verónica Silva

 

(artigo originalmente publicado na edição nº 1787 da TV 7 Dias)

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