The Voice: Rafael Abrantes homenageia pais no concurso da RTP 1

A música é para o jovem aspirante a cantor o seu porto seguro. Em The Voice Portugal tenta vingar um sonho antigo e homenagear os progenitores que perderam a luta contra o cancro.

04 Nov 2023 | 19:30
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Tinha apenas 13 anos quando viu o seu Mundo desabar com a morte do pai. Sete anos depois, Rafael Abrantes, atualmente com 23, volta a ser confrontado com mais uma dura perda: a da mãe. “O meu pai faleceu em outubro de 2013, eu ia fazer 14 anos. A minha mãe foi em 2020, fez agora três anos que ela partiu”. Órfão aos 20 anos, o jovem concorrente do The Voice Portugal, não esconde a “história pesada” da sua vida e é nas memórias felizes que guarda dos progenitores que se agarra para continuar em frente. “Não se lida com a perda, a verdade é essa. Acho que o meu cérebro não lida com essa informação. É muito doloroso, sim, não estou de maneira nenhuma a dizer que não é, e sinto muito a falta deles. Mas penso sempre no lado positivo e bonito da questão, e certamente eles estarão num lugar melhor”, conta à TV 7 Dias o aspirante a cantor, sublinhando ainda: “Eles passaram por problemas muito complexos a nível médico, de muita dor e sofrimento no final das vidas deles, e, acima de tudo penso que estão num lugar melhor, com menos dor do que estavam a sentir na altura. Foi muito difícil, ainda para mais com a idade que eu tinha, com 20 anos para 21, foi muito difícil perceber o que é que eu estava aqui a fazer, como é que ia viver a partir desse momento, porque perde-se a base de tudo o que um jovem normal precisa nessa idade, que é chegar a casa bater à porta e perguntar: ‘O que é que eu faço? Como é que eu resolvo? Para onde é que eu vou?’ E eu fiquei um bocado desorientado, confesso. Houve tempos em que eu não sabia o que estava aqui a fazer, quem é que ia tomar as decisões por mim. Contudo, a minha família mais próxima tem-me ajudado em tudo o que conseguem”.

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“Eu acompanhei-a no hospital”

Apesar de não ter uma memória muito presente do sofrimento do pai, Rafael Abrantes não esconde a bravura da sua mãe. “Lembro-me de poucos episódios, não estive dentro do assunto até porque a minha mãe tentou ao máximo fazer-nos sofrer o mínimo, a mim e ao meu irmão. Foi ela que acompanhou o meu pai, e, nós, claro, víamos alguns episódios em casa de sofrimento e dor, mas ao mesmo tempo estávamos minimamente bem porque o víamos a trabalhar. Ele sempre trabalhou até não dar mais, sempre foi um homem de garra. Ambos foram. O meu pai e a minha mãe trabalharam até aos últimos dias. Eu sabia o que estava a acontecer mas o apoio familiar, a minha idade e a escola fizeram com que eu não tivesse que lidar com esse assunto de maneira interna”. No caso da sua mãe já foi diferente, até porque Rafael, foi como nos conta foi o seu “braço direito” nos momentos mais difíceis. “Eu acompanhei-a no hospital, durante os tratamentos, durante a vida hospitalar dela, e tive que lidar com as situações mais pesadas até porque ela nesse momento também tentou com que os irmãos, os meus tios, também não sofressem tanto. Então só eu ela é que tínhamos esta cumplicidade de saber como é que as coisas estavam e o ponto de situação da doença. Claro que a doença metastizou e foi muito complicado. Nos últimos tempos já nem eu, nem ela, sabíamos muito bem como estava a situação, deixámos nas mãos dos médicos. Foi complicado para mim gerir a situação, mas lá esta sou um pouco frio, não gosto de o dizer, porque continuo a dar-me muito às pessoas, mas nesse lado sou muito racional. Penso muito mais na forma em que posso apoiar, bem estar, e não entrar no sofrimento e deixar que as coisas se tornem pior ainda. Foi isso que me deu força e me dá força até hoje, e saber verdadeiramente que a minha mãe gostava que eu cantasse”.

A cumprir o desejo da mãe

E é nesse desejo da mãe, que sempre admirou a sua voz, que Rafael luta por um sonho que o acompanha desde sempre: a música. “Tudo o que está relacionado com a música, que é a minha paixão, dedico aos meus pais. Nunca houve um impedimento para que eu pudesse viver do mundo da arte, nunca me proibiram de aprender instrumentos, numa me proibiram de cantar em casa aos altos berros, sempre que havia alguma coisa diziam para ir, aproveitar, porque essas oportunidades não surgiam todos os dias, por isso, certamente, se eles estivesse cá estariam muito orgulhosos de mim, e a apoiar-me a incentivar-me”.

Engenheiro informático de profissão, na bagagem já conta com um tema muito especial, Para Te Puder Abraçar. “A letra não foi escrita toda ao mesmo tempo, já andava na gaveta, e quando a minha mãe ficou doente eu decidi voltar a pegar nela para compor a melodia e é uma procura constante de tê-los comigo, de recordar os momentos que vivemos e no máximo pedir para que eles regressassem e estivessem comigo agora”, disse reforçando que apesar de ter sido doloroso escrever este tema, que o mesmo acabou por se refletir num processo de cura. “Depois de uma dor enorme gosto de me sentar ao piano, de escrever, porque parecendo que não é como uma terapia para mim, gosto de tentar desfocar o meu cérebro, apesar de ser uma pessoa que nasceu já com um propósito. Sou um bocadinho frio e puxo mais pelo lado racional, e, às vezes isso não funciona sempre, há momentos em que precisamos de deixar o racional de lado e passar para o emocional e acho que nisso a música tem-me ajudado a controlar”.

Ama a engenharia, mas é a música que o faz sonhar. Por isso não disse que não, quando uma prima lhe disse que o ia inscrever no talent show do canal estatal. “Foi uma prima que decidiu um dia inscrever-me sem me dizer nada, a minha prima e uma amiga dela, e só soube quando me pediram os meus dados. Eu perguntei-lhes para que precisavam e elas disseram que me estavam a inscrever no The Voice”, contou alegremente, reforçando: “Em 2020 concorri muito na desportiva, assim como desta vez. Na primeira vez não passei do pré-casting, e este ano fui mais uma vez na desportiva, que o que interessa é viver a experiência, aprender coisas novas e conhecer novas pessoas”.

Na equipa de Sónia Tavares, Rafael revela que da célebre cantora espera extrair o máximo de conhecimento possível. “Estou muito ansioso para trabalhar com a Sónia, sinto verdadeiramente que ela é empenhada e que no fundo vai tentar ao máximo transmitir-nos o que sabe. São 30 anos de carreira, são muitos anos em cima do palco, a cantar, e, é óbvio que nos vai ensinar o máximo que conseguir e pôr-nos a cantar o melhor que conseguir”, disse.

Texto: Telma Santos (telma.santos@impala.pt); Fotos: Gonçalo Filipe/Shine Iberia Portugal

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