Última entrevista de Dina foi dada à TV 7 Dias. Leia aqui!

Há cerca de um ano, Dina conversou, em exclusivo, com a TV 7 Dias sobre a doença contra a qual lutava. A cantora recusou, contudo, deixar-se fotografar porque queria que se lembrassem dela bem.

12 Abr 2019 | 18:10
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A cantora Dina morreu, esta quinta-feira à noite, aos 62 anos. A última entrevista da conhecida artista portuguesa foi concedida, em sua casa, à TV 7 Dias, na edição que foi para as bancas a 15 de janeiro do ano passado. Reproduzimos de seguida, na íntegra, a conversa tida com a autora de êxitos da música portuguesa como Amor de Água Fresca e Há Sempre Música Entre Nós:

 

Com uma carreira de mais de 30 anos, Dina tomou a difícil decisão de arrumar a guitarra no saco e afastar-se dos palcos e do estúdio em março de 2016. A razão foi só uma. Nunca a falta de vontade em continuar, mas uma doença que a impede de ser a artista que sempre foi.

Diagnosticada em 2006 com fibrose pulmonar, o seu estado de saúde tem vindo a agravar-se e agora a artista já está na lista para receber um transplante de pulmão. Foi no conforto da sua casa que a cantora, que venceu o Festival da Canção em 1992, com o tema Amor de Água Fresca, recebeu a equipa da TV 7 Dias para falar um pouco sobre o ontem, o hoje e o amanhã. Apenas pediu para não lhe tirarmos fotografias, porque não quer que os fãs a recordem como está hoje.

 

 

Atualmente com 61 anos, Dina vive o dia-a-dia presa a uma garrafa de oxigénio através de um longo tubo que lhe permite circular pela casa sem ter de transportar a garrafa de um lado para o outro. Os pequenos movimentos, como levantar um braço ou apanhar um objeto do chão, já deixam Dina sem fôlego. A vida agora é levada com tranquilidade, longe da loucura que é a rotina de uma artista no auge da sua carreira. Este agravamento do seu estado de saúde impede, inclusive, que a cantora usufrua de pequenos prazeres da vida, como ir à praia.

 

«Não perdi vontade de viver»

 

Foi em 2006 que Ondina Veloso, como foi batizada, recebeu o maldito diagnóstico, numa altura em que pensou que a dor que sentia no peito e a dificuldade que tinha em respirar não era mais do que o sofrimento que sentia por ter perdido dois irmãos no espaço de quatro meses, mas já lá vamos.

Afinal, esta dor não era tristeza, mas sim uma doença, cuja origem, no seu caso, se mantém até hoje desconhecida: «Quando fui diagnosticada ainda fui para o pneumologista, fizemos vários testes para saber a origem e não conseguimos perceber. O único marcador que deu positivo, mas que não é suficiente para ter uma fibrose como a minha, foi o dos pombos, a merda dos pombos, que as pessoas insistem em alimentar. Mas a percentagem não era suficiente para a fibrose que eu tinha. A fibrose é uma doença irreversível. Se isto me tivesse dado há 20 anos eu já tinha marado. No entanto, a medicina avançou.»

Na altura ainda se manteve no ativo, mas com a evolução do diagnóstico Dina viu a sua vida ficar cada vez mais limitada. «Isto limita tanto. Não se tem força para muita coisa. Perdi a vontade de ir aos concertos e ao cinema, pois tenho de ir com o aparelho, é uma seca, até porque o aparelho faz barulho. Tudo mudou. Não perdi vontade de viver, porque gosto muito das pessoas que tenho à minha volta, mas perdi vontade de fazer coisas que fazia, como ir à praia, que adoro. Não posso ir à praia porque tenho de ir com o aparelho, é um cansaço imenso. Vejo pessoas de 80 anos com um desembaraço muito maior do que o meu. Eu tenho de me rir», explica, sempre com um sorriso na cara.

 

Máquina até no banho e durante o sono

 

Esta máquina que a acompanha em todas as suas tarefas diárias, inclusive no banho e durante o sono, é a mesma que a mantém viva, a respirar. Para ganhar alguma qualidade de vida e deixar de andar com a garrafa de oxigénio, Dina foi, no início do ano passado, integrada na lista para receber um transplante de pulmão.

Contudo, a candidatura a um órgão saudável é também ela complexa, como nos explicou a artista. «Estou proposta para transplante, já fiz todos os testes, sou uma boa candidata. Pode-se fazer transplante de um pulmão para dar melhor qualidade de vida, pois, para já, largo o oxigénio, que é horrível», esclarece, adiantando ainda: «É uma coisa que demora, porque tem de se fazer os testes todos para ver se a pessoa está porreira. Cada vez que vou à consulta eles tiram sangue para controlar. Mesmo que se encontre um dador compatível, não me chamam só a mim. Chamam-me a mim e mais meia dúzia e o que estiver mais compatível é que recebe.»

A esperança de vida para este tipo de doentes não é fácil de calcular, pois, segundo a Fundação Portuguesa do Pulmão, «a evolução clínica da fibrose pulmonar é muito variável e pode ser difícil de prever». Dina foi diagnosticada há 11 anos e tem dias em que o seu estado de espírito acaba por ser afetado pelas dificuldades que sente, embora tente ser o mais positiva possível: «Há dias em que tenho medo… não é medo, é pena de não usufruir mais das coisas, das pessoas que eu gosto, dos belos vinhos tintos que já não vou beber. Viver é muito bom, mas viver com qualidade é melhor ainda. Uma pessoa não pode estar sempre a pensar nisto, nem dramatizar», analisa.

 

Doença força retirada dos palcos

 

Foi a doença que a fez desistir da carreira em 2012, um mês depois de ter perdido uma irmã, pois, já nessa altura, «não aguentava mais, porque isto piorou». Mas a última grande aparição de Dina aconteceu em março de 2016, a convite da dupla musical TochaPestana, composta por Gonçalo Tocha e Dídio Pestana.

 

 

Estes dois artistas decidiram organizar dois concertos de homenagem à cantora. Dina, embora receosa, não hesitou em juntar-se aos músicos, no Teatro São Luiz, naquela que seria a sua despedida dos palcos. «Eles tinham um projeto de um disco e queriam integrar o Pássaro Doido. Alguém lhes deu o meu número de telefone e perguntaram se eu dava autorização, ao que eu disse que sim, que era um orgulho. Depois perguntaram-me se eu não queria cantar com eles, eu disse que não conseguia. O gajo lá me deu a volta e gravei com eles», adianta.

Depois da participação no álbum, a cantora foi convidada para estar presente no espetáculo intitulado Dinamite, o nome de um LP de Dina: «Correu tão bem, foi tão especial aquele concerto, nem me senti cansada. Foi uma coisa tão serena, tão gira. (…) A casa estava cheia. Foi tão especial que até escrevi um texto, porque aquilo fez-me tão bem à alma.»

 

Tramada pela editora

 

Participou em três Festivais da Canção, mas a experiência nem sempre correu bem por ser inocente, desconhecer a realidade e não ter quem a orientasse. Devido a estes problemas, Dina teve a sua carreira embargada e acabou por não atingir o estrelato pelo qual sempre lutou. A primeira vez que concorreu neste evento foi em 1980 e tinha um objetivo muito específico: «Eu não queria ganhar, a minha intenção foi aparecer, que dessem por mim. Esse objetivo foi alcançado, mas foram muitos nervos.»

Com apenas 23 anos, Dina subiu ao palco e ainda hoje se lembra do que sentiu quando as luzes da ribalta lhe ofuscaram o olhar. «Eu ia nuns saltos altos, imagine, eu que só andava de sapatilhas e mocassins, não me sentia muito eu, mas pronto, tinha de ser. Acho que as pessoas que estavam à minha frente viram os meus joelhos a bater um no outro, porque estava tão nervosa que não sabia como controlar aquilo. Mas a pessoa tem de fazer, já avançou, as pessoas já bateram palmas, já está, não podes voltar para trás. E tem de ser. Foi uma sensação de muitos nervos (…) Eu não desmaiei porque não calhou. Foi um teste duro», diz, divertida.

 

 

Como tinha atingido o seu objetivo, em 1981 Dina falou com a editora, pois queria voltar a participar, até porque tinha uma canção pronta que considerava ser muito boa para o evento. «Em 81 tento com o Há Sempre Música Entre Nós. Eu tinha limpo aquilo. A canção é muito gira, é muito bem construída, e eu tinha aquela figurinha zero pretensiosa. Mas a canção não é sequer apurada. A editora diz que mandou. Depois, das canções que havia a concurso, alguém selecionava as canções para o festival e a minha não foi apurada. Não percebi porquê, era uma boa canção para participar. Fiquei um bocadinho triste e fiquei sem perceber porque a canção foi já como terminada, para sair em disco. A canção estava toda muito bem produzida. Ou a canção não foi entregue ou não ouviram», acusa, revelando ainda que considera que o facto de não ter participado no Festival da Canção foi da responsabilidade da sua editora na altura. «Para mim, a editora não enviou. Havia uma aposta muito grande. A Polygram estava a investir nas Doce, mas tramou-se porque ganhou o Carlos Paião com o Playback.»

 

O revés do qual nunca mais recuperou

 

Depois deste desgosto profissional, Dina decide que não quer voltar ao evento musical, mas esta não foi a vontade da editora que, sem o seu conhecimento, envia três temas para a organização do festival, sendo que dois acabaram por ser apurados. E é com este Festival da Canção que a carreira de Dina sofre um revés do qual nunca mais recuperou.

«Eu estava a trabalhar ainda no meu LP, não queria mais o Festival da Canção. Tinha de apontar para um mercado qualquer. Eu precisava de alguma orientação e, nessa altura, não havia managers e eu fui muito pouco ajudada nesse sentido, estive muito sozinha nesse sentido», adianta.

Contra a sua vontade, Dina viu duas das suas músicas serem apuradas. «Mas eu não queria, fiquei com uma raiva. Eles diziam que era giro para promover o LP, o que não fazia sentido, porque a malta da rádio tinha alguns preconceitos em relação ao festival. Uma coisa é eu lançar o meu LP, outra coisa é o meu LP ser lançado no Festival da Canção, ainda por cima com duas canções que não foram a lado nenhum», lamenta.

Para a artista, a sua participação no evento «foi a morte do LP». «Isto não se faz, ainda por cima sem a minha autorização. Eu achava que eles eram donos e senhores. O lançamento do Dinamite é o osso que ficou ali e engatou tudo. Eu não soube desengatar e não tive ninguém que soubesse desengatar por mim. Depois foi tudo um bocadinho ao pé-coxinho (…) Tive crises de choro nos ensaios, estava sem saber o que havia de fazer, porque não sabia que podia dizer que não. Estava totalmente desamparada, desprotegida.»

Dina admite que, devido a esta sua ida ao Festival da Canção, a sua carreira ficou pela metade. «Eu queria mais. Eu fiquei aquém do que podia ter feito. Eu fiz uma carreira, é verdade, fiz muitos espetáculos, mas o que é que gostamos? Gostamos de cantar. Nem é pelo lado material, mas pelo prazer que temos de chegar às multidões e de vender discos. Nós gostamos disso. Eu poderia ter criado um mercado», desabafa.

Com esta má experiência, a artista ainda grava o single Pérola Rosa Verde Limão Marfim, mas em 1983 decide fazer uma  paragem na gravação de álbuns, pois, esclarece, não tinha vontade de «falar com aquelas pessoas outra vez», diz, referindo-se à editora.

 

Grave acidente de viação

 

Nove anos mais tarde, após enfrentar um abrandamento na carreira, com o álbum Aqui e Agora a não corresponder às expectativas em termos de vendas, a cantora decide voltar ao Festival da Canção com o mesmo objetivo: ser falada. «As pessoas sabiam que eu tinha lançado o álbum, mas é preciso vender discos também, porque dá não só ânimo, mas também uma motivação para a produtora poder fazer mais coisas. E o disco estava a custar a chegar às pessoas e pensei que tinha passado tanto tempo sem editar que era necessário abanar as coisas. E pensei em aparecer no Festival da Canção e fazer uma canção para partir aquilo tudo, e foi por causa disso. Fiz uma canção tipo receita e funcionou», pois acabou por sair vencedora com o tema Amor de Água Fresca.

A partir daí, a sua carreira teve um novo impulso, novamente travado por um grave acidente de viação em que se viu envolvida. Isto aconteceu em 2002, altura em que se encontrava a gravar um novo álbum de originais.

«Estava a ir para os estúdios para gravar esse disco. Estava a chover imenso e houve um motociclista que se baldou depois das portagens, em direção a Cascais. Há um carro que pára, eu travo, começo a andar de lado e bato. Ao mesmo tempo que bati fiquei de lado e há um carro que se enfia no meu, fraturei o tórax e outros ossos, foi um bocado complicado, mas foi tão divertido. Os enfermeiros iam para o meu quarto fumar, havia também lá um casal que ia para o meu quarto, tinha a viola, os discos», diz, olhando sempre para o lado positivo da questão.

O certo é que, devido a esse acidente, Dina andou um ano de muletas «e aí a pessoa vai amolecendo». O álbum acabou por não sair da gaveta, embora já tenha uma boa parte dos temas concluída. «As músicas fazem-se não é para ficar numa gaveta, é para o povo ouvir. Tenho pena (…) Já mostrei a várias editoras, mas dizem que têm os calendários fechados. Pode ser que algum destes dias aconteça alguma coisa», conclui, esperançosa.

 

A mulher da sua vida

 

Homossexual assumida, Dina refere que hoje em dia já não está para grandes paixões, mas que tem um grande amor na sua vida: a sua filha, Rita, fruto de um relacionamento antigo. Quando Rita nasceu, há 29 anos, a cantora não pensava ser mãe, mas a sua companheira tinha esse sonho. «Ela lá resolveu, da maneira como se fazem os bebés, e aparece-me já grávida. Fui eu que criei praticamente a Ritinha», explica.

Embora não tivesse sido uma vontade sua trazer esta criança ao Mundo, foi Rita que deu a Dina alento para continuar a compor durante o interregno que fez de nove anos. «Ela ocupou muito do meu tempo, porque decidi ser mãe a tempo inteiro. Claro que nos tempos mortos, em que ela estava a fazer a sesta, eu aproveitava para compor. Nesses anos aconteceram muitas coisas boas e muitas coisas más. A Rita foi a melhor coisa que podia ter acontecido.»

 

Perseguida pela morte

 

Em 2000, o mundo de Dina ruiu, com a morte da mãe, e foi a música que a salvou. «Encontrei em Filha do Mar [N.R.: álbum que compôs para a telenovela homónima da TVI] o ânimo para continuar, porque na altura fiquei muito triste», explica.

 

 

Contudo, seis anos depois, a morte volta a ensombrar a vida da artista, com a partida inesperada de dois irmãos: «Perdi os meus dois irmãos em 2006, um em março e outro em julho. Isto das perdas uma pessoa não sabe lidar. Perder irmãos é muito complicado, principalmente sendo nós uma família muito unida. Um, o Manuel João, estava doente já há algum tempo, com um problema oncológico, mas morre de repente. Estava em casa e entretanto foi para o hospital e em dois dias partiu. Quatro meses depois, o meu outro irmão, o Ricardo, tem um ataque cardíaco, tinha 53 anos. Não estávamos à espera», conclui.

 

Texto: Carla Ventura | Fotografias: arquivo Impala

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