Vencedor do Festival da Canção FINTOU A POLÍCIA!

Eduardo Nascimento representou Portugal na Eurovisão em 1967. O cantor recorda como, em plena ditadura, conseguiu fugir à PIDE e receber uma mensagem do movimento de libertação angolano.

20 Fev 2019 | 18:14
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São histórias que, em 2019, parecem saídas de um filme de espiões mas que, para quem viveu a ditadura de Salazar, continuam bem presentes na memória. É o caso de Eduardo Nascimento que, em 1967, representou Portugal na Eurovisão com a música O Vento Mudou.

Nascimento foi o primeiro cantor de origem africana a cantar na Eurovisão. Isto em 1967, quando Portugal estava mergulhado numa ditadura. Nos bastidores da primeira semifinal do Festival da Canção 2019, no qual atuou ao lado da banda Cais do Sodré Funk Connection, o cantor de 75 anos recorda que, ao contrário do que seria de esperar, não foi diretamente questionado sobre a situação política que Portugal atravessava.

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«Toda a gente estava à espera disso, primeiro porque eu vinha de Angola, que estava no pico da guerra na altura», começa por dizer. «Eu soube posteriormente que tinha dois agentes da PIDE [polícia política do período em que vigorou a ditadura] na comitiva que foi comigo. O Festival era em Viena, muito perto do bloco de leste [ex-URSS] e, portanto, havia medos de que eu tivesse contactos com as pessoas dos movimentos de libertação», recorda o cantor.

«Por acaso tive… e eles não souberam (risos)!» E conta como é que conseguiu fintar a polícia política. «Foi simples. O contato era de um amigo que foi meu colega na escola. Ele foi lá ao hotel, deu-me um grande abraço, estivemos ali na conversa e ele mandou-me uma mensagem. Tranquilo. Eles [agentes da PIDE] ficaram a dormir».

No contacto com os jornalistas, Eduardo Nascimento revela que a curiosidade foi direccionada para as suas origens. «Eles tentaram saber quem era aquele tipo que aparecia ali, o primeiro luso-africano a aparecer ali, o primeiro negro a participar na Eurovisão. Tentaram saber quem eu era, o quer trazia ali… tinha toneladas de jornalistas a fazerem-me perguntas em várias línguas. Felizmente eu falava muitas, francês, inglês, italiano, espanhol, um pouco de alemão. Eles ficaram um bocado surpreendidos, de tal maneira que toda a tensão que havia no princípio foi desaparecendo. Eu metia umas gracinhas e tal e passei a ser a coqueluche do Festival», conta.

 

«Querem falar de música? Eu de política não percebo nada»

 

António Calvário, o vencedor do primeiro Festival da Canção, em 1964, foi também o primeiro português a pisar o palco da Eurovisão. E relembra que teve «alguns problemas», tendo ido para Copenhaga, Dinamarca, «praticamente sozinho» e sujeito ao escrutínio de uma imprensa livre, desejosa de saber pormenores de um país que vivia de costas voltadas para o Mundo.

«Eu estava avisado para ter cuidado com o que ia dizer, porque iria ser abordado por jornalistas que iriam fazer perguntas políticas. Eu não tinha ninguém mas estava acompanhado pelo cônsul de Portugal. Essas perguntas aconteceram e eu, muito delicadamente, libertei-me delas. Não havia outra solução. Eu disse ‘querem falar de música? Eu de política não percebo nada’. E ficámos por aí», recorda Calvário.

Atualmente, cada atuação é preparada, no mínimo, com 15 dias de antecedência. Luzes, posicionamento em palco, adereços, efeitos especiais, tudo é pensado e ensaiado ao pormenor para que nada falhe no momento da atuação em direto. Na Eurovisão 2018, cada semifinal foi, do princípio ao fim, ensaiada três vezes, sem contar com os vários ensaios individuais.

 

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Uma realidade muito diferente daquela que Eduardo Nascimento viveu em 1967, em Viena. «O problema naquele tempo é que tínhamos mesmo de saber cantar (risos)! Não dava para disfarçar», disse o intérprete de O Vento Mudou. Apesar da solenidade que acarretava subir ao palco da Eurovisão, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Viena, Eduardo Nascimento (e os outros concorrentes) não tinham o tempo de preparação que existe atualmente. «Vou dizer-lhe.. dois ensaios! De uma ponta a outra, só cantei uma vez», revela Eduardo Nascimento.

E conta que ia quase falhando o primeiro. «Adormeci! Bateram-me à porta, lá fui eu tomar um banho rápido. Cheguei, o maestro Tavares Belo estava à minha espera. Aquilo era um palco enorme e eu tinha medo de escorregar porque o chão era polido e eu estava a usar sapatos novos (risos)! Fiz o primeiro ensaio, o diretor do programa falou com o diretor musical, tudo ok… Adeus! E correu bem. Ali não havia espaço para brincadeiras», recorda.

António Calvário e Eduardo Nascimento subiram novamente ao palco do Festival da Canção para, ao lado da banda Cais do Sodré Funk Connection, interpretarem as músicas que os celebrizaram no certame, Oração e O Vento Mudou.

 

Texto: Raquel Costa e Dúlio Silva | Fotos: RTP

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