Exclusivo! Zé Miguel do Secret Story: «Hoje, não deixaria um filho meu ver reality shows»

O ex-concorrente da Casa dos Segredos conta à TV 7 Dias como conseguiu dar a volta ao preconceito por ter participado num reality show e às ilusões que se seguiram: «Era um ambiente muito perigoso».

24 Ago 2019 | 20:55
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O seu mandato como presidente da Junta de Freguesia de Irivo. O preconceito por ter participado num reality show. O deslumbramento que podia ter corrido mal. Na segunda parte da entrevista que concedeu à TV 7 Dias, Zé Miguel Fernandes, ex-concorrente da primeira edição da Casa dos Segredos, da TVI, fala sobre tudo. Até da forma como se produzem, atualmente, formatos do mesmo género televisivo.

 

«Sou um cidadão de respeito, considerado, responsável, atento»

 

Os objetivos que tinha quando entrou para a Casa dos Segredos são os mesmos que tem hoje, aos 43 anos?

Já concretizei alguns. Um dos mais grandes objetivos era ser presidente da Junta de Freguesia de Irivo, o que consegui com enorme êxito. Não só porque venci as primeiras eleições, como fui reeleito e por uma grande margem, o que também me deixou orgulhoso. As pessoas olharam para mim de uma forma muito responsável. Depois de ter participado na Casa, fechou-se um ciclo e passei à minha vida normal. Sou um cidadão de respeito, considerado, responsável, atento e predisposto a ajudar a minha comunidade, dando o melhor que sei e que posso em prol dela. Acho que tenho conseguido atingir esse objetivo. Isso é espelhado até pela reeleição, com uma grande margem de apoio.

Um ex-concorrente de um reality show chegar à presidência de uma Junta de Freguesia tem um grande simbolismo. Ter participado na Casa dos Segredos ajudou a esta eleição?

Muito honestamente, não lhe sei responder a isso. Poderá ter ajudado ou poderá ter prejudicado. Podemos ficar sempre na dúvida. Podemos pôr a questão: «Se não tivesse participado, teria ganhado ainda com mais margem as eleições em 2013?». Passaram nove anos. As pessoas já não me associam muito à Casa dos Segredos. Têm a imagem de eu ter passado por aquele programa, mas essa imagem é muito positiva.

Até porque a forma de se fazer reality shows em Portugal se foi alterando…

Sim, mudou muito. Nós éramos uma mescla de cidadãos, que tinham os seus problemas e os seus conflitos, mas éramos muito normais, não querendo ofender ninguém das outras edições.

Se tivesse um filho com idade para ver televisão, não o deixaria ver os reality shows que se fazem hoje em dia?

Se calhar, não, não deixaria. Honestamente.

E sentiu ou não preconceito por ter participado num reality show?

Ah, senti, claro.

Em que é que esse preconceito é palpável? Nas oportunidades de trabalho, nos olhares indiscretos dos outros…?

[Pausa] Essa é a pergunta mais interessante que já me colocaram até hoje. Gostava de poder responder o melhor possível e não sei hoje estou inspirado para o conseguir fazer. Palavra de honra.

Porque se fala muito do preconceito sentido mas depois não se concretiza…

Por exemplo: eu ganhei as primeiras eleições em 2013. Claro que havia uma franja de pessoas que desconfiava, que não votava em mim. É normal. Só mais tarde, ao aproximar-se das eleições seguintes, em 2017, tive essa consciência e essa noção. Diziam-me: «Eu não votei em ti, mas vou votar. Tinha um preconceito em relação às pessoas que participavam nesses programas, mas tu, efetivamente, és diferente». Eu acho natural que as pessoas ponham esse rótulo, porque pensam que as pessoas que vão para lá são, porventura, intelectualmente menores…

 

«Não ganhei fortunas com a Casa dos Segredos»

 

E também é preciso saber colher os frutos que uma participação pode trazer.

Claro. Se eu quisesse viver de exposição, seria sempre polémico. Mas eu não quero viver da exposição. Eu fui lá por uma causa: na altura, tinha um problema financeiro muito grande e precisava de o resolver. E achava que, ganhando o primeiro prémio, conseguia ajudar a resolver o meu problema.

E conseguiu resolvê-lo na altura?

Não consegui resolver porque não ganhei [risos].

Mas recebeu um valor por cada semana que se manteve em jogo e fez presenças…

Honestamente, pela minha experiência, não tive esse retorno financeiro…

Não se fica rico depois de se participar num reality show?

Não, claro que não. E, quem pensa que fica, está enganado. Não ganhei fortunas, de todo.

Voltando ao preconceito que diz ter sentido… Como é que deu a volta a isso?

Sentia a necessidade de, numa primeira instância, ter de fazer mais do que as pessoas normais. Senti que tinha de fazer o dobro ou o triplo para as pessoas perceberem que eu não era nenhum deficitário, que não era um cidadão menor.

Sentiu sempre que os eleitores o respeitam como seu presidente?

Sempre. Aliás, eu dizia sempre para não me tratarem por presidente mas por Zé Miguel, mas as pessoas realmente têm muito essa consideração e esse respeito. A nível local, as pessoas sabem respeitar e têm muita consideração e orgulho pelas pessoas que os representam. Hoje, sei que as pessoas diriam que têm um orgulho no presidente da Junta que têm. Isso é positivo para mim. Também temos vindo a desenvolver um trabalho bestial…

E que trabalho é esse, concretamente?

Trabalho de proximidade, social, de chegar perto dos cidadãos… Para já, usar as novas tecnologias para facilitar a vida aos cidadãos. Depois, aproximar os serviços aos cidadãos. Hoje em dia, um autarca precisa acima de tudo de ser competente e de ter sensibilidade. Ouvir as pessoas. Não é fazer de conta que as estamos a ouvir. É ouvi-las mesmo. E pormo-nos no lugar delas. Essa é a grande dificuldade dos políticos hoje em dia.

 

«Quero passar por esta vida e deixar uma marca»

 

Era esta política de proximidade que ambicionava?

Sim, sem dúvida. Estar perto dos cidadãos. As pessoas sabem onde é que eu moro e, se têm um problema, vêm bater a minha porta. Têm todas o meu número de telemóvel. Estou disponível 24 horas por dia. Os outros políticos fora das autarquias não são, digamos assim, incomodados neste tipo de situações. Tomam as grandes decisões, mas depois não percebem o impacto que isso tem nos cidadãos. Ou poucas vezes poderão ter essa sensibilidade e essa capacidade de perceber que impacto efetivo é que as medidas que tomaram tiveram nas pessoas.

Não ambiciona outro tipo de cargos políticos?

Claro que sim [risos].

Quais?

[Hesita] Em miúdo, dizia sempre: «Eu não quero ser mais um, eu quero ser alguém respeitado». Quero passar por esta vida e deixar uma marca. Se me perguntar «Se eu não conseguir, isso vai dececionar-me?», não, não vai dececionar-me. Mas que eu ambiciono mais, claro que sim. Também me preparei e me formei para estar disponível para alcançar novos voos. Se irei conseguir ou se irei estar capaz de os alcançar, isso só o futuro dirá.

Como um bom político, está a fugir à pergunta. Que voos são esses?

[Risos] Estamos a falar de tudo. É normal que, de uma freguesa, se queira passar para um município.

E, daqui a alguns anos, a Assembleia da República?

Aí já estamos a falar de uma escala muito grande, mas claro que, se surgir o convite, ponderarei. Mas aí já são dinâmicas muito partidárias. O nosso valor já não é tão tido em conta. Se calhar, é outro tipo de valor que não as nossas competências. Gosto mais de política autárquica.

Como é que a sua família o vê como presidente da Junta de Freguesia de Irivo?

Orgulhosos. Por acaso, nunca tive essa conversa com eles, mas acho que orgulhosos. De certeza absoluta.

Não se fala de política em família?

Fala-se de política nacional. A nível local, não. Respeitam o meu espaço e percebem que esses problemas não são discutidos em casa.

 

Vida pós-Casa dos Segredos? «Era um ambiente muito perigoso»

 

Arrepende-se de ter participado na Casa dos Segredos?

Não, não. Muito honestamente, não. Foi uma experiência muito enriquecedora. Sentir aquele ambiente foi extraordinário. Claro que depois há ali aquele ambiente muito confuso… São muitas solicitações…

Há um deslumbramento?

Há um certo deslumbramento, sim.

E aí quem é que o puxou para a Terra?

Eu próprio. Há pessoas que podem não o conseguir fazer, mas eu também já tinha outra maturidade. Já tinha 36 anos quando participei. Percebo que outros miúdos tenham essa dificuldade. É preciso ter um bom suporte familiar, senão, pode tornar-se complicado. Percebi que aquele meio poderia levar a um certo deslumbramento a quem não tivesse estofo e capacidade de pôr os pés no chão. Percebi que era um ambiente muito perigoso. As portas abrem-se de uma forma escancarada para situações de… boémia. Eu não queria nada disso.

Mantém ligação com os ex-concorrentes da sua edição?

Fiquei imensamente amigo de todos. Há um que eu mantenho contacto quase diário, que é o António. Tenho uma amizade muito próxima com ele e estamos muitas vezes juntos. Vou muitas vezes a casa dele. É um amigo do coração, um irmão para a vida.

 

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Texto: Dúlio Silva | Fotografias: Impala e reprodução redes sociais

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